segunda-feira, 29 de junho de 2009

Honduras: a direita e o medo da democracia

O segundo país mais pobre da América Central revela os efeitos prolongados da Operação Condor. A cultura de golpes antidemocráticos baseados na força militar nos anos 1960-70 ainda ressoa sobre algumas comunidades nacionais, como nos casos da Venezuela em 2002 e em Honduras em 2009. A Bolívia também teve sua democracia ameaçada (via patrocínio do governo Bush) desde a eleição de Morales, mas o presidente teve habilidade suficiente para evitar o desrespeito à vontade popular.

As tentativas de golpe das direitas latinoamericanas historicamente passam por um momento crucial, que é aquela da articulação popular em defesa do governo eleito-deposto. Mas isso depende da existência de uma efetiva ação imediata dos trabalhadores organizados, através de greve geral, vigílias diante das instituições políticas e divulgação das ações antidemocráticas dos golpistas. Assim Hugo Chavez retornou ao palácio do governo venezuelano, e assim tem agido o povo hondurenho, nas últimas 24 horas. Os governos do Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba, EUA, a Organização dos Estados Americanos, a União Européia e a própria Organização das Nações Unidas condenaram o atentado ao Estado de Direito em Honduras, o que revela que a divulgação do absurdo golpe tem sido bem realizada. Para acompanhar mais de perto, leia em língua espanhola as notícias da emissora TeleSur.

Agora nos resta esperar que a ação popular não resulte em uma resposta militar desproporcional e antidemocrática, naquilo que pode se tornar o maior banho de sangue no continente desde a instalação das ditaduras antes citadas. As próximas horas são decisivas para a história de Honduras e da América Central. Mais do que nunca, é o momento do protaganismo dos trabalhadores hondurenhos; é seu momento de fazer história com as próprias mãos, já que a direita tem medo da democracia e não respeita os votos dos mais pobres. Abaixo, um vídeo de hoje sobre a luta iniciada.

Haiti: o que não sabemos sobre ele





Caros leitores, tenho uma coisa para lhes falar: teve eleições para o Senado no Haiti no último dia 21 de junho. Curiosamente, não sabemos nada sobre essas eleições (e nós fazemos aqui a nossa mea culpa). Os noticiários e a internet estão marcados por longas análises sobre as eleições no Irã e o perigo/desejo de uma revolução estar sendo engendrada pelos opositores do regime teocrático. No meio dessa confusão, Michael Jackson e Farrah Fawcett morreram. A gripe suína se alastra pelo Brasil. A seleção venceu a Copa das Confederações. Mas nada se disse sobre o Haiti.

Não é de agora que existe um silêncio constrangedor sobre a pequena nação caribenha. As revoltas ocorridas após o golpe de Estado que derrubou o presidente progressista do país, Jean Baptiste Aristide, em 2004, foram o auge de divulgação sobre o Haiti nos últimos anos na mídia internacional. No caso brasileiro, as notícias duraram um pouco mais tendo em vista a ação militar brasileira pela ONU, buscando pacificar o país. Algumas vezes fazendo-o de formas brutais e a serviço de setores da elite haitiana, diga-se de passagem.

Mas por que olhar para o Haiti dessa vez? Bom, o principal motivo é a campanha de boicote que teve início nessas eleições. Chamada de "operação portas fechadas 2" por militantes do partido Fanmi Lavalas (antigo partido de Aristide), a campanha foi organizada diante do impedimento eleitoral imposto pelo atual presidente do país, René Preval, à sigla do Lavalas. O resultado do boicote foi impressionante. A primeira etapa da eleição senatorial, ocorrida em abril, teve índice de participação de 11,3%. Ainda que sem números exatos, todos analistas políticos concordam: a eleição de 21 de junho foi o maior boicote sofrido em um regime democrático. De fato, as fotos impressionam, mostrando urnas com 10, 6 e até mesmo 4 cédulas apenas nos distritos eleitorais da capital, Porto Príncipe.

Mas o motivo do boicote não está ligado somente à ilegalidade do Fanmi Lavalas. O que se comenta em sites como o Haiti Action, é que o principal motivo da campanha do boicote está ligado à intensa repressão exercida pelos soldados brasileiros no país. Segundo a matéria do site, em 18 de junho, ocorreu um incidente trágico no funeral de um padre católico ligado ao Lavalas chamado Gerard Jean-Juste. Segundo testemunhas, os soldados da missão da ONU abriram fogo contra o cortejo, depois de tentarem prender um dos membros da multidão e mataram um manifestante. As Nações Unidas, por sua vez, alegam que não houve troca de tiros e que a razão das mortes pode ser decorrente de uma pedra atirada pelos manifestantes, ainda que se saiba que constantemente os soldados brasileiros são chamados para impedir com o uso de força qualquer forma de reunião coletiva. De fato, as histórias sobre a presença brasileira no Haiti ainda são muito mal contadas por aqui, mesmo diante do suicídio do general que estava comandando a missão no país, Urano Teixeira da Matta, em janeiro de 2006.

O boicote acaba também servindo para frustrar as tentativas de restauração da democracia no país pelos mesmos que apoiaram a sua derrubada. A magnitude do investimento das eleições haitianas não é pequeno. Segundo notícia da agência Pacific Free Press, a administração Obama injetou uma boa quantidade de capital na eleição, onde se estima que o custo do processo é de cerca de 17 milhões de dólares. Um número bastante significativo para um país cujo salário mínimo é cerca de 2 dólares por dia. Ainda assim, as autoridades dos EUA e do Brasil, presentes diante do processo eleitoral, afirmaram que o resultado é positivo e não reconheceram o boicote.

O Haiti continua não sendo aqui, mas é possível escutá-lo de alguma forma. Ele se faz escutar através de um silêncio ensurdecedor, proferido por uma imprensa submissa e sensacionalista, que sabe escolher muito bem seus inimigos e seus amigos.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Nem tudo que reluz é ouro

(preço da onça de ouro na Bolsa de Londres desde 1975)

O tamanho da atual crise do capitalismo se mede pelo preço do ouro; e não por qualquer outra mercadoria, como imóveis, dólares, ou bens de capital, como gostam de propalar pelos quatro cantos os economistas liberais. Como assim?

De fato, o ouro é considerado pelos povos em crescente contato desde o século XV como a mercadoria que tem a função de equivalente universal de todas as outras mercadorias produzidas e trocadas entre mercantes e representantes dos estados-nação modernos. Pelo simples fato de que suas propriedades materiais lhe garantem durabilidade, contra a deterioração no tempo de todas as outras mercadorias. O dólar foi transformado em moeda mundial a partir do fim da segunda guerra, mas tal só ocorreu porque o governo dos Estados Unidos foi o maior concentrador de dívidas européias geradas pela guerra e pela reconstrução. A melhor forma de pagamento de dívidas em épocas de desestruturação social é através do ouro, exatamente por manter suas propriedades intocadas (enquanto dinheiro, imóveis e bens de capital são facilmente destruídos em uma guerra). Como divulga o Banco Central do Brasil, "na Idade Média, surgiu o costume de se guardarem os valores com um ourives, pessoa que negociava objetos de ouro e prata. Este, como garantia, entregava um recibo. Com o tempo, esses recibos passaram a ser utilizados para efetuar pagamentos, circulando de mão em mão e dando origem à moeda de papel." Eis a genealogia do dinheiro de papel, uma grande abstração, mas nem por isso menos controlada à ferro pelos bancos centrais dos diversos países.

Assim, quando uma crise estrutural no sistema mundial de troca de mercadorias se instala, como ocorreu no fim dos anos 1970 e em 2008, o preço do ouro dispara, pois a ameaça de desestruturação social gera uma corrida dos argentários rumo ao investimento mais seguro para suas fortunas, esperando sobreviver a mudanças políticas de qualquer ordem (guerra, revolução, etc). Assim, somos obrigados a concordar com o milionário apresentador de programas de televisão Sílvio Santos, o sr. Abravanel: de fato, "barras de ouro valem mais que dinheiro".

Mais sobre o Irã


No último texto, admitimos que a esquerda não parece ter muita alternativa diante das polêmicas no Irã. Mas é bom vermos posições menos céticas por aí e mais preocupadas em encontrar saídas que consigam atacar diretamente o regime teocrático. O blog da organização neozelandesa, Socialist Aoetearoa, divulgou hoje uma notícia sobre o crescimento da esquerda universitária no Irã. O Partido Tudeh Iraniano (partido comunista iraniano organizado atualmente no exílio), por sua vez, lançou na internet uma declaração no último dia 21 se posicionando abertamente contra o regime dos aiatolás. E no último dia 22, fazendo um chamamento para um ato para o dia 26 na França, o Novo Partido Anti-capitalista lançou um ataque direto ao regime iraniano, qualificando-o como uma "ditadura" e posicionando-se em defesa "dos trabalhadores, dos jovens e das mulheres". Abaixo, fizemos uma tradução "macarrônica" desse último texto do NPA para os leitores do blog, interessados em saber mais sobre o tema.

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Com a população e os trabalhadores do Irã

Desde o dia 13 de junho, logo após a fraude na eleição presidencial, milhões de descendentes iranianos saíram às ruas gritando a palavra de ordem: "abaixo a ditadura".

A repressão feroz é responsável por dezenas, se não centenas de mortes. Os jovens, as mulheres, os moradores dos bairros populares que formam o grosso dos manifestantes se mantém unidos ao redor do movimento sindical.

O Sindicato dos Trabalhadores dos Ônibus declararam sua solidariedade ao afirmar que: "tanto o princípio da liberdade de organização e de eleição não são aplicados, todo discurso sobre a libertação social e os direitos dos trabalhadores não são apenas uma farsa". Os trabalhadores do Grupo Industrial Iran Khodro, principal construtora de automóveis do país (60.000 empregados assalariados), se engajou num movimento grevista acrescentando às reivindicações populares o aumento dos salários e o direito de greve.

Pelas liberdades democráticas e as reivindicações do mundo do trabalho

A aspiração da sociedade de erguer-se contra o opressivo punho de aço do regime dos mulás e de terminar com a repressão cotidiana contra a juventude e as mulheres que lutam por seus direitos, se somam cada vez mais às reivindicações dos próprios trabalhadores que, também no Irã, se recusam a pagar pela crise. A idéia de greve geral se dissemina, os ricos e gananciosos começam a temer o espectro de uma nova revolução.

A demagogia criminosa de Ahmadinejad e de seu tutor, o "guia supremo" Khamenei, que fingem representar os "subalternos" em oposição ao imperialismo das potências ocidentais, não passa de uma ilusão. Mesmo Moussavi, o "reformador", não é mais palatável. Ele foi o Primeiro Ministro da República Islâmica de 1981 a 1989, a época onde cerca de dezenas de milhares de opositores, em particular militantes operários e da esquerda, pelos direitos das mulheres e das minorias nacionais, foram massacrados pelos capangas do regime.

Diante das dificuldades econômicas crescentes, a corrupção e o nepotismo são cada vez mais insuportáveis, já que exacerbam a concorrência entre os clãs rivais do regime, configurando uma crise dentro do Estado iraniano. Os trabalhadores e o povo estão apenas aproveitando essa brecha. E uma eleição não democrática permite que se escape do controle do regime.

A luta deles é a nossa!

É das mulheres, dos trabalhadores e da juventude, de todos os manifestantes que desafiam a repressão e não hesitam em arriscar suas vidas, que merecem todo nosso apoio.

O 26 de junho, diante da organização da jornada internacional de solidariedade com os trabalhadores do Irã, as organizações sindicais francesas (CGT, CFDT, FO, CFTC, UNSA, Solidários) participarão de um encontro na embaixada iraniana em Paris (12:30h no horário francês), para exigir enfáticamente a libertação dos trabalhadores aprisionados por se manifestarem no Primeiro de Maio em Teerã.

O NPA, que naturalmente apóia essa manifestação, apela aos trabalhadores das empresas, cidades e bairros o máximo de iniciativas em solidariedade com a luta do povo iraniano, pela derrubada da ditadura, pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores.

22 de junho de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

Entre o crescente e a espada

(foto da polícia reprimindo manifestantes mulheres na cidade de Teerã)


A história recente do Irã é uma das mais emblemáticas de nossos tempos. Considerada a única revolução no Terceiro Mundo nas décadas de 70 e 80, ao mesmo tempo que se formou um regime teocrático ultra-conservador. Foi um dos países islâmicos que mais ampliou a participação política feminina, mas é lembrado até hoje por seus índices de discriminação contra homossexuais. É um regime teocrático, mas o presidente é eleito por voto popular. É uma democracia, mas controlada pelo Conselho dos Guardiões. Em outras palavras, é difícil definir o Irã.

E exatamente por isso é que a esquerda fica atônita quando se vê diante dos eventos no Irã, onde Mahmoud Amadinejad e Mir Hossein Mousavi disputaram a última eleição presidencial no país. O que não se divulga muito é que haviam outros candidatos além desses dois: Moshen Rezai e Mehdi Karoubi. O que tinham em comum os quatro candidatos? Todos eles foram aprovados pelo Conselho dos Guardiões antes de poderem disputar as eleições.

Rezai e Karoubi têm uma trajetória impressionante em defesa da revolução iraniana. Rezai era comandante militar dos Guardas da Revolução, uma espécie de "polícia secreta" iraniana de 1981 a 1987. Karoubi, por sua vez, era um clérigo que participou ativamente dos eventos de 1979-80 como apoiador do Aiatolá Khuomeini. Em suma, são candidatos que, ora mais ferrenhos na defesa do conservadorismo, ora mais liberais, são elementos "de dentro" da estrutura política iraniana.

O mesmo vale para Mousavi, diga-se de passagem. Considerado pela imprensa mundial um "liberal reformista", ele tem na sua trajetória títulos expressivos, como ter sido primeiro ministro do país de 1981 à 1989 e, é claro, ter liderado o Irã em sua guerra contra o Iraque que durou cerca de 8 anos. É um curriculum impressionante. Entretanto, em 2005 ele já se colocara a favor dos grupos reformistas e hoje é, sem dúvida, o candidato de Obama e seus amigos. Para acabar com a retórica agressiva de Ahmadinejad e abrir perspectivas de integração do Irã na comunidade internacional, a vitória de Mousavi seria central para EUA, Israel e demais potências.

De todos eles, Ahmadinejad ironicamente é o que possui a trajetória mais desligada do clericalismo e das instâncias teocráticas do governo iraniano. De origem humilde e seguindo carreira como engenheiro, Ahmadinejad se aproximou da política nos anos 80, nas províncias do Azerbaijão Ocidental, bastante deslocado da capital Teerã. Sua carreira política decolou, no entanto, quando se tornou prefeito da capital. A partir daí, através de uma retórica populista (que incluía práticas como cerimônias públicas de cremação de "mártires" da guerra Irã-Iraque) e programas de distribuição de sopa para pobres, Ahmadinejad se tornou um político extremamente influente, aproximando-se dos setores mais conservadores da sociedade iraniana.

Com esse quadro geral de candidatos, que perspectiva deveria adotar a esquerda iraniana - e, em última escala, a esquerda em termos mundiais?

A perspectiva é desalentadora. O regime teocrático iraniano não é exemplo de tolerância, o que desarma a própria democracia do país. Movimentos sociais são constantemente reprimidos e qualquer forma de participação política na sociedade iraniana precisa ser aprovada anteriormente pelo Conselho dos Guardiões. Além disso, a legislação iraniana não tem autonomia sobre a Sharia, a legislação islâmica. Isso implica num forte código de conduta moral e que dá subsídios para a intensa repressão política que existe até hoje no país. Além disso, as leis também devem passar pelo Conselho dos Guardiões que, por sua vez, é escolhido diretamente pelo Líder Supremo (que atualmente é o Aiatolá Ali Khamenei). Isso significa, em suma, que qualquer candidato que se apresente no Irã não poderá trazer a perspectiva de um regime laico e democrático, legitimamente "burguês" por assim dizer. Em outras palavras, o Estado democrático de direito ocidental está longe de ser uma realidade plausível para o Irã.

Há setores da esquerda, por sua vez, que diante desse dilema, decidem por apoiar Mahmoud Ahmadinejad. O atual presidente iraniano é extremamente popular entre as classes mais pobres do país, especialmente os camponeses que moram afastados das grandes cidades. Além disso, a retórica anti-Israel e anti-EUA ganham adeptos que vêem em Ahmadinejad um verdadeiro ícone da luta anti-imperialista do Terceiro Mundo. O próprio presidente venezuelano, Hugo Chávez, já afirmou isso sobre Ahmadinejad, o que certamente mostra o apoio que ele possui de setores da esquerda internacional. Entretanto, o Partido Comunista Iraniano não parece concordar com essa visão extremamente benéfica que a esquerda pinta sobre o atual presidente iraniano. Nessas eleições, o partido decidiu por dar apoio crítico à Mousavi, pensando na perspectiva de abertura democrática, essencial para um partido que teve muitos de seus quadros perseguidos desde o início da Revolução Iraniana em 1979. E, de fato, um candidato que defende a posição mais conservadora, de manutenção de um regime teocrático autoritário, não deveria ser exemplo nenhum para a esquerda.

Mas talvez o apoio à Mousavi também não seja a melhor resposta. Não se pode esquecer que ele fez parte integral da estrutura política do país em um dos seus momentos mais repressores à população civil. Não apenas isso, liderou-a numa das mais violentas guerras da região. O apoio que ele possui de setores médios da população, estudantes, iranianos expatriados e mulheres principalmente, que desejam ampliação de direitos sociais e a liberdade democrática de organização, é importante, mas revela também o distanciamento da luta política de aspectos econômico-sociais. O país vem empobrecendo cada vez mais e a crise afetou duramente o país, cuja maior fonte de renda, o petróleo, vem se desvalorizando a cada ano.

O que fazer nesse caso então? Bem, é certo que se está com dois candidatos que não representam, per se, uma mudança substancial na estrutura política iraniana. Entretanto, a mobilização civil no Irã é bastante significativa e isso não pode ser menosprezado pela esquerda. Quando o movimento estudantil sai nas ruas em defesa da democracia, não podemos ficar indiferentes. Quando o governo usa de censura (lembrando que boa parte da cobertura dos protestos no Irã foi feita através de "Twitter"s) e violência para reprimir os manifestantes, fica difícil não se solidarizar com os protestos. Mas talvez a melhor alternativa seja entendê-los não como defensores do candidato A, ou B, mas sim como críticos de uma estrutura viciada de poder onde a religião não permite contestação no seio do Estado.

Contudo, é preciso admitir que é muito difícil dizer ao certo o que a esquerda deveria fazer, especialmente a esquerda iraniana, já que o contexto de repressão que o país sofre os obriga a se posicionar sempre de forma sutil e até mesmo clandestina. Por outro lado, é possível dizer com clareza que a esquerda brasileira precisa parar de tratar a questão no Irã como uma luta entre bem e mal. Talvez uma luta entre mal e mal faça mais sentido. Mas em algum ponto, num regime que não prima pela democracia e pela tolerância, é preciso escolher entre um mal menor.

P.S: Para quem anda com o francês em dia, vale a pena dar uma lida nesse texto do Novo Partido Anticapitalista francês sobre o tema, com o título: Irã, uma eleição sem grandes esperenças. http://www.npa2009.org/content/iran-une-élection-sans-grand-espoir

sábado, 13 de junho de 2009

Uma quebra capitalista

(a miopia política também tem sua face engraçada)


Imagine você uma das mais emblemáticas companhias capitalistas ir à falência. Depois de mais de 100 anos de história, mantendo-se sempre no topo dos cartéis, trustes e holdings financeiros, diante de altíssimos índices de exportação e criando verdadeiros símbolos do triunfo do capitalismo, essa empresa é obrigada a fechar suas portas e pagar suas dívidas. Mas imagine também que, para poder pagar essas dívidas, essa empresa resolve meter a mão nas aposentadorias de seus (ex-)empregados. De repente, milhares de trabalhadores se vêem numa situação onde não apenas o seu emprego virou fumaça, mas também toda e qualquer garantia de futuro que por ventura tivesse sido acumulada ao longo de seu trabalho. Ao denunciar os meandros da quebra da GM, o repórter investigativo americano, Greg Palast, aponta para um futuro extremamente caótico nessa era de crise. O que acontece quando mesmo a falência de empresas significa a apropriação do trabalho em sua forma salário? A reportagem é elucidativa e serve como um perigoso alerta para o momento que vivemos. A tradução é nossa.

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Grand Theft Auto: Como Stevie, o rato, faliu a GM


Ferrando com os trabalhadores


Eles podem estar se lamentando com a bancarrota da General Motors hoje. Mas enterrar 40.000 dos últimos 60.000 empregos sindicalizados em uma cova gigante não vai estragar o dia de Jamie Dimon.

Dimon é presidente do conselho do banco JP Morgan Chase. Enquanto trabalhadores da GM estão perdendo seus benefícios de saúde na aposentadoria, seus empregos e suas poupanças familiares; enquanto acionistas estão ficando sem nada e muitos credores estão se ralando, alguns poucos credores privilegiados - liderados por Morgan e Citibank - esperam receber de volta 100% dos seus empréstimos à GM, um assombroso valor de 6 bilhões de dólares.

A forma como esses bancos estão recebendo esse prêmio de 6 bilhões de dólares é extremamente ilegal.

Sinto o cheiro de rato.

Stevie, o rato, para ser preciso. Steven Rattner, o "czar do automóvel" de Barack Obama - o homem que essencialmente condenou a GM à bancarrota essa manhã.

Quando uma companhia vai à falência, todo mundo sente o golpe: justo, ou não, trabalhadores perdem seus contratos de trabalho, acionistas ficam sem nada e os credores recebem as migalhas do que ainda tiver restado. Essa é a lei. O que os trabalhadores não perdem são as suas pensões (incluindo aí os seus fundos de pensão destinados à saúde na aposentadoria), já tomadas a partir de seus salários e retidas em seus nomes.

Mas não desta vez. Stevie, o rato, tem um plano diferente para a GM: botar as mãos nos fundos de pensão para poder pagar os bancos Morgan e Citi.

O esquema funciona assim: Rattner está exigindo que o tribunal de falências simplesmente retire o dinheiro que a GM deve aos trabalhadores de seus planos de saúde da aposentadoria. Ao invés de receberem esse dinheiro, eles receberiam ações da GM. A porcentagem pode ser de 17% das ações - ou talvez 25%. Independente disso, seja 17%, seja 25%, isso tudo vale, bem...tente pagar por sua diálise com 50 ações de uma companhia de automóveis falida.

E, ainda assim, Citibank e Morgan, segundo Rattner, receberiam todo o montante de suas dívidas - 6 bilhões de dólares à vista e em dinheiro - de uma companhia que não pode pagar nem por peças de automóvel e muito menos para exames oftalmológicos de seus empregados.


Detenção preventiva dos fundos de pensão


Mas afinal, qual o problema em se apropriar do dinheiro dos fundos de pensão de trabalhadores em um processo de falência? A resposta, sr. Obama, sr. Professor de Direito, é que isso é ilegal!

Em 1974, depois de uma série de escandalosos ataques aos fundos de pensão e aposentadoria durante a era Nixon, o Congresso americano passou a Lei de Segurança dos Ganhos dos Empregados Aposentados (ERISA, em inglês). A lei diz que você não pode se apropriar dos fundos de pensão de trabalhadores (sejam eles pagamentos mensais ou planos de saúde) da mesma forma que não pode se apropriar do dinheiro de suas contas bancárias particulares. E isso porque elas são, em essência, a mesma coisa: trabalhadores cedem uma parte de seu salário em prol de benefícios para a aposentadoria.

A lei é bastante explícita ao afirmar que é "feio" meter a mão nos fundos de pensão. Os executivos da companhia devem manter esses fundos de aposentadoria como "fiduciários". Aqui está a lei, professor Obama, como está descrita no próprio web site do governo, abaixo do cabeçalho que diz: "Planos de saúde e benefícios".

"A responsabilidade primária dos fiduciários é manter o controle visando o único interesse dos participantes e beneficiários e com o propósito de prover benefícios."

Todo negócio nos EUA que fica sem dinheiro amaria poder meter a mão nesse dinheiro de aposentadoria, mas o dinheiro não é deles da mesma forma que um banqueiro não pode meter a mão no dinheiro de sua conta quando o banco está mal das pernas. As vantagens de um plano são apenas para os membros desse plano, e não para o sr. Dimon ou o sr. Rubin.

Ainda assim, com efeito, a administração Obama está exigindo que o dinheiro destinado ao baço de um idoso trabalhador da GM seja roubado e enviado para alimentar os filhos do TARP*. Trabalhadores ficarão sem implantes de pulmão para que Dimon e Rubin possam seguir esbanjando. Esse é outro momento "Guantanamo" para a administração Obama - aproximar-se de Nixon para apoiar a detenção preventiva de planos de saúde de aposentados.

Afanar os benefícios de aposentadoria da GM não se torna legal ao trocá-lo por ações da companhia. O Congresso percebeu os riscos dessa troca, requerindo às companhias, enquanto fiduciárias, para "agirem prudentemente e diversificarem os planos de investimento para poder minimizar os riscos de grandes perdas".

Ao "diversificar por segurança", a lei não diz para colocar 100% dos fundos de pensão dos trabalhadores em um único pacote de ações de uma companhia quebrada.

Sim, eu sei que existe uma exceção a essa lei: se a vítima concorda com o roubo, então fica tudo bem. No caso da GM, o Sindicato Unificado dos Trabalhadores da Indústria Automotiva (UAW, em inglês) já deu a sua benção para o plano de Stevie, o rato, de passar a mão nos benefícios de aposentadoria. Mas qual era a escolha da UAW? Se o Sindicato não cedesse, Obama não iria liberar nenhuma verba para a empresa e faria os trabalhadores da GM comerem terra. Em outras palavras, os operários puderam "escolher" apenas a cor da pá com que seriam enterrados.

Isso é um negócio perigoso: o plano Rattner abre as portas para que qualquer companhia bem relacionada politicamente e que esteja quebrada consiga drenar os fundos de pensão e planos de saúde de seus funcionários.


A casa de Rubin


As aposentadorias são roubadas e dois dos maiores bancos juntos não pagam nada pelo crime? Por que não ofereceram aos bancos Citi e Morgan, como ofereceram aos trabalhadores e aos demais credores, um pacote de ações da GM?

Como Butch disse para Sundance Kid, "quem SÃO esses caras?" Vocês devem se lembrar de Morgan e Citi. Eles são os "meninos dos olhos" dos defensores do bem-estar corporativo, que já sugaram mais de um terço da ajuda de 1 trilhão de dólares do Tesouro Americano e dao FED, o Banco Central americano. Não de forma coincidente, o Citibank, principal beneficiado, pagou mais de 100 milhões de dólares para Robert Rubin, antigo Secretário do Tesouro Americano. Rubin era "o cara" de Obama para conseguir apoio de bancos e doações de campanha (o que, de longe, foi o principal recurso de corporações nela).

Com os míseros últimos centavos da GM prestes a entrar num bolso e o Tesouro Americano do governo Obama entrando no outro, Jamie Dimon da Morgan está correto em dizer que os próximos 12 meses provarão ser o "melhor ano da história do banco".

O que nos deixa com a seguinte pergunta: será que essa falência forçada da GM, com a eliminação de dezenas de milhares de empregos, é apenas uma ação coletiva para favorecer os centros financeiros?

E este foi um bom ano para o "señor Rattner". Enquanto a administração de Obama conseguiu fazer um grande negócio em cima da trajetória de Rattner como trabalhador no Sindicato dos Siderúrgicos, eles tentaram varrer para baixo dos chassis a informação de que Rattner era um dos privilegiados do seleto grupo de investidores da Cerberus Capital, donos da Chrysler. E "dono" é um termo impreciso. A Cerberus era "dona"da Chrysler da mesma forma que um canibal "convida" você para jantar. A Cerberus nunca pagou nada para a Chrysler - de fato, foram pagos bilhões para a alemã Daimler Corporation para ela pilhar a companhia. A Cerberus ficou com o dinheiro e então jogou o corpo falido da Chrysler nos ombros dos contribuintes americanos.

("Cerberus", a propósito, é um nome que vem do cão mitológico greco-romano que tinha três cabeças e guardava os portões do inferno. Essa gente não é lá muito sutil.)

Enquanto Stevie, o rato, vendeu seus interesses para o Cão dos Infernos quando assumiu a posição de "Czar do Automóvel", ele nunca abandonou seu posto na loja de abutres chamada Quadrangle Hedge Fund**. O seu patrimônio pessoal está próximo da marca de meio bilhão de dólares. Esse é o "herói da classe operária" de Obama.

Se você for dono de um negócio e passar a mão na aposentadoria dos seus empregados, você pode parar na prisão. O plano de Stevie, o rato, é nada mais do que roubar um carro com o valor das aposentadorias da GM, no melhor estilo do jogo Grand Theft Auto.

E isso não é menos roubo só porque o presidente que está dirigindo o carro.

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* TARP, ou Troubled Asset Relief Program, é o nome do programa de salvação financeira elaborado pelo governo americano para auxiliar as instituições financeiras em crise no ano de 2008.

** O Quadrangle Hedge Fund é uma das maiores corporações financeiras americanas, fundada pelo próprio Steven Rattner.

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Economista e jornalista, Greg Palast, antigo negociador sindical, é autor do bestseller do NY Times, The best democracy money can buy e Armed Madhouse. Ele é acionista da GM e membro da UAW desde 1981.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A trajetória na lata do lixo




O governador de São Paulo, José Serra, passou dos limites. A pedido da reitora da Universidade de São Paulo, Suely Villela, o líder do executivo paulista mandou a Polícia Militar para atacar e vigiar os estudantes e funcionários, que exigem a saída da reitora, a democracia na universidade, o reajuste salarial dos técnicos e a readmissão de uma das lideranças sindicais do Sintusp.

Quem acompanhou os telejornais essa semana, viu cenas extremamente chocantes. A repressão foi feita contra estudantes e funcionários, cidadãos legítimos e que possuem o direito de protestar garantido de forma constitucional. Em nenhum momento os manifestantes usaram de violência física, como pode ser visto em diversas filmagens que foram lançadas na internet. Os PMs lançaram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, além de baterem de cacetete em qualquer manifestante que estivesse pela frente. Como não bastasse, ainda atiraram balas de borracha contra eles.

A grande imprensa, como não podia deixar de ser, atacou os manifestantes. Afinal, 2010 é ano eleitoral e o governador José Serra é o provável candidato pelo Partido Social Democrata Brasileiro. Ele não pode estar errado. Logo, eram os manifestantes que estavam errados. O irônico é que alguns dos argumentos partem de um princípio delicado: alegam que os estudantes não estão mais na ditadura e não podem fazer "baderna" para reivindicarem seus direitos. Ora, quer dizer que "baderna" só pode ser feita quando não há democracia para lutarmos pelos nossos direitos!? Seria risível se fosse apenas uma piada de mal gosto.

O que mais choca nessa história toda é que há um silêncio constrangedor na imprensa sobre a súbita (que nem é tão súbita assim) mudança de trajetória de José Serra. Durante a ditadura, ele estava lá, fazendo "baderna" para defender os direitos dos estudantes, como líder da Ação Popular, movimento político de tendência socialista. Agora, quando podemos viver em uma democracia - com todas as suas limitações - ele manda a Polícia Militar de seu estado invadir uma universidade para intimidar estudantes com o uso da violência física. Não há aí alguma espécie de paradoxo? Nenhum dilema moral? Nem sequer mesmo uma "nostalgia" quanto a um passado de lutas que de repente se torna um passado de repressão?

É constrangedor que um sujeito como José Serra seja tão defendido como candidato à presidência pelos grandes canais de mídia. Diante da virada política que dá a sua trajetória, o caso da USP foi o "coup de grace", o golpe de misericórdia, para quem nutria a esperança de um governo PSDBista pautado pela democracia e pelo respeito. Nesse momento, o senhor José Serra está muito próximo de figuras asquerosas da nossa política, como o deputado federal do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro. O que os diferencia é apenas uma questão de trajetória. Bolsonaro sempre foi coerente com o proto-fascista que o sustenta como político. E para José Serra, o que falta nesse momento é exatamente coerência com o seu passado político.

P. S: Ironia, a mãe da história. No último dia 4 de junho, a imprensa brasileira lembrou dos 20 anos do massacre de estudantes chineses na Praça da Paz Celestial. Mas no Brasil eles são apenas baderneiros. Casa de ferreiro, espeto de pau?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Divulgação

Depois da derrota eleitoral da esquerda no parlamento da União Européia, existe a oportunidade de ouvirmos as explicações em Porto Alegre de um representante do Novo Partido Anticapitalista francês.









segunda-feira, 8 de junho de 2009

Festival bom, de esquerda...

Alguns desses aí em cima mereciam, mas não serão barrados;
em todo caso, seus palanques não atraem tantos seguidores.

Poderia existir um festival de arte (música, filme, teatro) e política organizado pela esquerda que não se transformasse no que o Fórum Social Mundial se tornou? Que pudesse manter uma agenda séria de debates para a reflexão dos jovens sobre o mundo no qual eles vivem no início do século XXI? Então, uma sugestão para quem pode ir à Europa (infelizmente, mal podemos sair do difamado Rio Grande do Sul...) é o evento anual agora chamado "Marxismo 2009", promovido pelo Partido Socialista dos Trabalhadores da Grã-Bretanha (o SWP-Britain). Este ano ocorrerá entre 2 e 6 de julho em Londres. Para os difamadores dos supostos eventos dos barbudos sujos sem camisa acampados, talvez gostem de saber que serão disponibilizadas creches para crianças menores de 11 anos, e espaços adequados para os religiosos praticarem seus rituais.

Entre os cursos, destacam-se: O Capital para iniciantes; a crise econômica; os Estados Unidos daqui pra frente; a luta contra o facismo; a luta palestina pela liberdade; o imperialismo hoje; revolução e o porvir; o método marxista; libertação da mulheres; e as mudanças climáticas, entre outros.

Há grandes pensadores da esquerda mundial envolvidos com o evento, alguns dos quais conhecemos alguns textos, como Alex Callinicos, David Harvey, Slavoj Zizek, Tariq Ali, John Bellamy Foster e Sheila Rowbotham. Mas há diversos outros palestrantes que ainda pretendemos conhecer, e que devem ser lidos pela esquerda brasileira na medida em que realizam debates que trazem para o centro da agenda questões que nossos grandes partidos (ao menos nos seus setores dominantes) exitam levar à fundo, como a matriz da economia-política dos governos chamados de esquerda/centro-esquerda. 

Enfim, quando ficamos sabendo da vitória eleitoral dos partidos de centro-direita no parlamento europeu, com uma abstenção recorde dos votantes (que foram pouco mais de 40% nesse domingo), fica claro que a esquerda precisa mais do que nunca voltar a pensar, de forma séria e sem demagogia, nos rumos políticos que ela quer seguir. Esse ano ocorrerá o segundo congresso nacional do PSOL. Triunfará novamente a tese nacionalista popular baseada no modelo chavista?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Personal Che


Tarda, mas não falha. Em tempos de Che Guevara no cinema, uma notícia legal para quem mora em Porto Alegre. Estréia hoje o filme "Personal Che", no Cine Santander, às 19h. Para quem não conhece, "Personal Che" é um documentário sobre as apropriações sobre a imagem de Che ao redor do mundo. Uma co-produção Brasil-Colômbia, o filme busca as diferentes visões sobre o médico argentino que se tornou um dos maiores ícones revolucionários do século XX, que vão desde a beatificação até a sua conversão em sucesso da cultura pop.

Para quem quiser saber os horários de exibição do filme aqui em Porto Alegre e conhecer mais sobre o projeto dos diretores, vale a pena entrar no blog deles. Particularmente, o post sobre o jogo de videogame "Guevara" é um dos mais curiosos que já encontrei na rede. Fica a dica para conferirem o site e, é claro, o filme! Abaixo, o trailer:


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Quando o bom senso sai perdendo

Paralelo 38 e guerra nuclear. Por um bom tempo acreditamos que essas palavras faziam parte de um vocabulário retrógrado, que insistia em estudar um tempo onde as dicotomias estavam na moda. Nessa última semana, movidos por um sentimento de nostalgia dos velhos tempos de Guerra Fria, a mídia de todo mundo anunciava que o governo da Coréia do Norte não apenas estava testando seus mísseis de curto alcance (o chamado Taepodong 2), mas que estava ameaçando qualquer país ou organização que contestasse seu direito soberano de “defesa”. Incluindo aí a ONU e, é claro, a Coréia do Sul.

Mas como que se deu essa mudança no panorama político mundial, onde os norte-coreanos agora são uma ameaça bélica para a região? Na verdade, fazer essa pergunta significa tentar entender um pouco da Coréia do Norte, algo que é bastante difícil tendo em vista que em parte eles são considerados um mero “resquício do socialismo autoritário” por parte dos grandes canais de comunicação e em parte porque o país possui uma ideologia oficial que, entre outras coisas, é extremamente anti-ocidental.

Para quem não conhece, fica uma pequena síntese sobre a ideologia oficial de Kim Il-Sung e de seu filho, Kim Dong-Il, o juchismo. O termo “Juche” significa, literalmente, “sujeito”, mas que no sentido que ele é proposto, está ligado a uma tradução aproximada de “espírito de auto-confiança”. A sua criação foi uma conseqüência do processo de desestalinização dos coreanos, em que o governo de Kim Il-Sung passou a criticar duramente a ideologia marxista-leninista soviética. A partir daí, com o agravamento das relações entre China e União Soviética nos anos 1960, os norte-coreanos passaram a assumir a ideologia “Juche” como a verdadeira ideologia oficial do país, sendo ela apoiada em três princípios: independência política, economia auto-sustentável e capacidade de auto-defesa no plano militar. Desses três pontos, o último certamente é o mais importante.

Segundo a ideologia Juche, o socialismo é algo que tem de ser construído de acordo com as particularidades de cada país. Isso significa dizer que no caso da Coréia do Norte, a vanguarda política não se concentra no operariado, no campesinato, ou na pequena-burguesia, mas sim em setores do exército (algo que foi oficializado somente na década de 1990, mas que era realidade já nos anos 70). Compreendendo-o como uma “classe social” distinta e esclarecida, a ideologia Juche considera que são os militares os verdadeiros revolucionários norte-coreanos, numa espécie de elogio à força bélica. Dessa forma, se congratula o governo pela sua luta contra os sul-coreanos de 1950 à 1953 e se enaltece a dinastia Kim, que não apenas realiza um grandioso esforço de culto a imagem como inclusive defende um calendário próprio do país (cujo marco inaugural é o nascimento de Kim Il-Sung).

De fato, esse pequeno contexto já indica quais são os dois principais gastos do regime norte-coreano: assuntos militares e propaganda. E a partir daí, tudo pode ser esperado. Até certo ponto, a comparação com outras ditaduras é extremamente pertinente e partidos “socialistas” que acreditam no caráter democrático da Coréia do Norte acabam devendo uma explicação sobre como uma sociedade cuja ideologia oficial prega uma hierarquia tal de posições consegue ser democrática.

Mas tal situação não explica o porque da Coréia do Norte simplesmente começar a se armar militarmente para uma ofensiva contra alguns de seus vizinhos, sendo que a Coréia do Sul seria seu alvo preferencial. O armistício de 1953 vigorava até semana passada sem que os países decidissem rompê-lo, tendo em vista que os custos humanos poderiam ser alarmantes, sem contar que Estados Unidos e União Soviética estavam prestes a inaugurarem uma guerra nuclear sem precedentes se o conflito continuasse. De certa forma, o armistício coreano foi uma das maiores vitórias diplomáticas no pós-guerra...ironicamente sem conseguir terminar esse que foi o primeiro grande conflito da Guerra Fria.

A partir de então, o governo norte-coreano aproximou-se ainda mais da China, até que nos anos 70, com as reformas econômicas de Deng Xiaoping, o país partiu para um processo de isolamento político considerável. Não bastasse que os vizinhos chineses mergulhassem de cabeça em seu “socialismo de mercado”, o bloco da Europa Oriental começava a estagnar em seus índices econômicos, preparando a desestruturação do socialismo nos anos 80. E, exatamente na década de 1980, seus inimigos históricos do sul começaram um grandioso programa de reforma neoliberal com uma forte dose de autoritarismo, que permitiu que a Coréia do Sul atingisse um patamar de desenvolvimento econômico surpreendente, ainda que com fortes custos humanos. Enquanto isso, os norte-coreanos viam seus índices econômicos afundarem cada vez mais, presos em uma recessão violenta. Em suma, a situação dos norte-coreanos era de um isolamento cada vez maior.

Há ainda outro fator que contribuiu para o isolamento do país. Nos anos 80, a política externa da era Reagan era marcada por um anticomunismo (e, de certa forma, um “antiterceiro-mundismo”) radical. Poucas foram as nações atacadas por uma retórica violenta, o que, no caso da Coréia do Norte, custou-lhe constante proibições de participarem das Nações Unidas. Somente em 1991, com a queda da União Soviética concretizada, é que as duas Coréia puderam entrar na ONU, com direito de assento e voz. Os anos 90, com a morte de Kim Il-Sung e com a tomada de poder por seu filho, Kim Dong-Il, foram marcados por significativas tentativas de tentar aproximar os dois países.

Entretanto, tudo mudou com a chegada de George W. Bush no poder, em 2000. Com a política de “atire primeiro, pergunte depois” o seu governo inaugurou o termo “eixo do mal” na política externa, incluindo aí a própria Coréia do Norte. Não apenas isso, mas foi um governo que aumentou ainda mais as restrições aos desenvolvimentos de pesquisa nucleares e incentivou as sanções contra potências que não abandonassem seus programas. E, mais do que isso, a política externa ianque ganhou adeptos na diplomacia sul-coreana, que passou a ingressar nesses programas, exigindo maiores sanções contra seu vizinho do norte.

Num governo altamente militarizado, onde os gastos com exército e propaganda são cada vez maiores, sanções diplomáticas nunca são bem-vindas. Mas talvez exista algo mais na tentativa dos norte-coreanos de forçar uma diplomacia nuclear. Ao que tudo indica, há uma série de alternativas:

 1) A Coréia do Norte vem sentindo o impacto do empobrecimento constante do povo e, temendo qualquer iniciativa popular (como uma tentativa de derrubada, ou mesmo fluxos migratórios para a China ou para a Coréia do Sul) busca estimular o nacionalismo com medidas militares.

 2) Arrasado economicamente, o país estimula uma produção militar para tentar recuperar-se de uma longa e penosa recessão, onde uma das principais fontes de renda é a ajuda de custo chinesa.

 3) Diante de um governo prestes a cair, pretende negociar a sua manutenção no poder com uma retórica militarista e agressiva contra outras nações, pretendendo com isso manter-se no poder pela ameaça.

 4) Supondo que o governo esteja forte e estável, pretende estimular a sua economia criando novos mercados pela ameaça nuclear. Isso lhes garante um lugar privilegiado para discutir as sanções econômicas que lhe foram impostas.

Em todas essas possibilidades, está circunscrita a idéia de que a economia norte-coreana vem passando por sérios problemas, como indicam relatórios da Anistia Internacional feitos a partir de dados de refugiados. Mas cabe dizer que as quatro alternativas, é claro, se baseiam numa lógica onde imperaria o bom senso. Porém, diante de uma situação onde esse termo é completamente desprovido de sentido, não tem como pensarmos que “bom senso” faça parte desse panorama político. Nunca foi tão fácil estar equivocado sobre os rumos do mundo ao confiar nessa palavra tão capciosa quando se trata de discutir assuntos como ameaças nucleares.