sexta-feira, 29 de maio de 2009

Seis rapidinhas sobre a Zero Hora


É comum me perguntarem porque eu não leio a Zero Hora, então acho importante usar o espaço do blog para fazer essa resposta. Entretanto, como assinam o folhetim aqui em casa, resolvi lê-lo hoje para saber, afinal, o que está acontecendo no RS. O bom de ler o jornal é que é como acompanhar uma novela ruim...não importa quanto tempo você passou sem assistir, sempre que retoma você sabe exatamente quem são os mocinhos e quem são os bandidos.

Fiz algumas apreciações sobre as principais matérias e colunas do jornal nesse mesmo tom...de quem vê um capítulo de novela sem precisar acompanhá-la do início ao fim.



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1 – Jair Bolsonaro (PP, ex-PPB, ex-PDS, ex-ARENA), o deputado-paladino da direita hidrófoba brasileira, resolveu exercer seu senso de humor e colocou um cartaz na porta de seu gabinete. Nele estava escrito a seguinte mensagem, com o desenho de um cãozinho: “Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro.” Obviamente isso não é um atentado à democracia brasileira, ou aos direitos humanos. Para o folhetim, esse episódio foi apenas uma “provocação”, sendo que a chamada da notícia é “Cartaz irrita PC do B”.

2 – Na notícia “PSOL pede exibição de supostas provas”, o folhetim informa que o vereador Pedro Ruas e a deputada Luciana Genro estão sendo processados por calúnia e difamação por Aod Cunha (ex-secretário da Fazenda do governo Yeda) e o empresário Humberto Busnello (empreiteiro dono da empresa Toniolo, representante da FIERGS). Ambos alegam que não estiveram envolvidos no escândalo de caixa 2 na campanha de Yeda Crusius. Isso significa que o PSOL terá acesso à provas que estão sendo analisadas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Tribunal Regional Federal, ou seja, isso pode mudar bastante os rumos políticos do estado nas próximas semanas. Entretanto, a nota é breve, pois afinal, hoje é sexta-feira e o supermercado Big comprou 2/3 da página de política para anunciar suas ofertas.

3 – Na página da comentarista de política, Rosane de Oliveira, ela estampa no centro da página uma pequena manchete chamada “Tempo de calmaria”. Trata-se de um breve texto falando de como o perfil conciliador do atual comandante da Brigada Militar, João Carlos Trindade, que substituiu, em dezembro de 2008, o famigerado “Coronel Mendes”. Ao falar dos elogios que até mesmo a bancada de oposição faz ao atual comandante, a comentarista “se esquece” das ações intempestivas da Brigada Militar em acampamentos do Movimento Sem Terra que ocorreram ainda esse ano, a mando do MP que pretendia fechar as escolas do movimento. Certamente o MST não concorda com a perspectiva da colunista...

4 – Um verdadeiro show de crack. A RBS, mais do que nunca pensando em “unir” o Rio Grande do Sul, lançou a campanha “crack nem pensar”. Com fotos coloridas de “celebridades políticas sorridentes” (incluindo o prefeito José Fogaça, o vereador Sebastião Melo e a secretária estadual de educação, Mariza Abreu). Não querendo entrar no mérito da campanha contra o crack em Porto Alegre estar atrasada uns 5 anos no mínimo, mas vale a pena destacar a declaração de Mariza Abreu sobre o problema: “Um professor da Universidade de Caxias do Sul mostrou que, quando a família se desestrutura, a escola é um espaço de resistência. Mas os próprios professores precisam ser apoiados, porque eles também não sabem como tratar.” E todo mundo sabe como esse governo tem apoiado os professores em inúmeras questões! Aguardem as cenas dos próximos capítulos: Mariza Abreu aprovando um projeto em que os professores que souberem tratar alunos com problemas de dependência química serão remunerados.

5 – No editorial do folhetim, uma grande omissão. Preocupadíssimo com as “deficiências do magistério”, o texto revela preocupação com os dados do MEC que apontam que 1 em cada 3 professores não possuem formação superior. Num texto de 4 parágrafos sobre o problema, não há sequer UMA frase sobre a política educacional do governo Yeda de priorizar os contratos temporários no magistério ao invés de abrir concursos e aumentar salários. A desvalorização da profissão de professor surge como algo sem responsabilidade definida, visando proteger, é claro, um dos piores governos na área da educação que o estado do Rio Grande do Sul já teve.

6 – Para terminar e desconstrair, na parte de esportes do panfleto, digo, folhetim, o colunista Wianey Carlet também decidiu dar o seu pitaco sobre o problema do crack. Num pequeno parágrafo com o subtítulo “Omissão mata”, o comentarista de jogos da dupla Gre-Nal desabafa: “Onde estão as campanhas preventivas?” Ora, logo estarão aí! Encabeçadas por uma imprensa cheia de responsabilidade social! E que oportunamente lembra da tragédia da dependência química somente quando o governo Yeda vem sendo atacado por todos os lados.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ah, quase!

Yeda balança mas não cai; 
a Brigada não deixa =P

Brincadeiras à parte, o governo Yeda-Feijó não vai sair de cena. Apesar de todas as denúncias do PSOL no início do ano, corroboradas pela revista Veja (mais do que nunca, atuando como uma facção do PSDB paulista, que quer desvincular a imagem de Serra-2010 da atrapalhada e impopular tucana do Rio Grande do Sul) e pelo oportunista Feijó (vice-governador, do DEM), Yeda não deve sair do Palácio Piratini antes do fim do seu mandato. A pressão popular tem funcionado ainda em escala reduzidíssima, talvez porque o grosso da população gaúcha não vislumbre uma alternativa de fato à política eleitoral renovada a cada quatro anos. Na verdade, os próprios partidos tem se apresentado como defensores da ética e tudo mais, na disputa pela projeção de uma melhor imagem para as eleições do ano que vem. 

Bom dia governadora!


Estudantes de Porto Alegre vestiram na manhã de hoje o símbolo dos gaúchos, a estátua do laçador, com um poncho vermelho onde se lia o pedido de impedimento do governo Yeda e Feijó; a Brigada Militar recolheu o manto quase uma hora depois. De qualquer forma, a pressão contra o governo do PSDB-DEM aumenta no Rio Grande. Será que ele cai?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A polêmica relação de Foucault com a Revolução Iraniana

Quem mexeu no meu paradigma?!


Ontem, ao ouvirmos mais uma palestra do seminário "A condição humana" na UFRGS, o filósofo Antonio Cicero apresentou uma polêmica que aparentemente não está muito difundida entre os acadêmicos brasileiros, o que ficou demonstrado pela surpresa da platéia (na qual nos incluimos): o filósofo francês Michel Foucault, venerado na academia brasileira em geral, trabalhou como correspondente do jornal italiano Corriera dela sera em 1978 e 1979, onde publicou suas matérias jornalísticas retratando o que via na Revolução Iraniana. A surpresa de todos está no fato de que Foucault não condenou aquela revolução, mesmo sabendo do seu caráter teocrático e contra os direitos humanos. Claro, para bom entendedor de Foucault (o que infelizmente não é nosso caso), a crítica da modernidade é pressuposto para um relativismo libertário, seja lá o que isso for. Enfim, confira no blog do palestrante a polêmica apresentada ontem. (Vale a pena ler os comentários abaixo do artigo, pois a discussão também se desenvolve naquele espaço).

Ainda existe um livro em língua inglesa publicado em 2005 sobre o tema, Foucault and the Iranian Revolution: Gender and the Seductions of Islamism. Infelizmente ainda não tivemos acesso. Um psicanalista italiano radicado no Brasil também deu sua opinião sobre a questão. Mas já há defensores da atual vedete da academia brazuca, e seus argumentos começam a ser esboçados aqui.

Enfim, boa polêmica a todos!


sexta-feira, 15 de maio de 2009

O duplo caráter da utopia


- (...) E depois foi necessário ver morrer. Sabe que há pessoas que se recusam a morrer? Já ouviu alguma vez uma mulher gritar “Nunca!” no momento da morte? Eu já. E descobri então que não conseguia me habituar. Era novo, nesse tempo, e minha repugnância julgava dirigir-se à própria ordem do mundo. Depois tornei-me mais modesto. Simplesmente, não me habituei a ver morrer. Não sei mais nada. Mas, afinal... – Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Sentia a boca seca.
- Afinal?... – perguntou suavemente Tarrou.
- Afinal... – continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com atenção. – É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim – concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitórias serão sempre efêmeras; mais nada.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
(Albert Camus, “A Peste”, p. 92-93)

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Em palestra recente no ciclo de debates sobre a “Condição Humana”, o professor de Literatura Comparada e Teoria Literária da UFRJ, João Camillo Penna, lançou um questionamento pertinente sobre a noção de utopia a partir do projeto literário de Thomas Morus, no século XVI. A palestra foi interessante, mas a pergunta que ficou no ar de fato foi a seguinte: afinal, se um projeto de utopia se inscreve como a “organização social mais adequada à natureza humana”, o que fazer quando indivíduos negam essa suposta natureza?

A pergunta não é ingênua e tampouco é uma novidade. No romance “Memórias do subsolo”, o escritor russo Fiodor Dostoievski já lançava questionamento semelhante, criticando a metáfora do “palácio de cristal”, do escritor russo Turgueniev. Para Dostoievski, o “palácio de cristal”, em que tudo se vê e onde se pode ser visto em todos os ângulos, é o maior pesadelo da humanidade. Vigiados constantemente e cobrados para agirem racionalmente, os homens não poderiam agir de forma “irracional”, por pura e simples “vontade”. Em suma, o russo advertia os utópicos de seu tempo: o que vocês farão diante de seres humanos que não se comportam como “naturais”, ou “irracionais”?

Esse é o dilema da obra literária de Morus, é verdade, ainda que transfigurado de outra forma, mas reapropriado pelo marxismo ao longo dos últimos séculos. Concebendo uma natureza humana ligada ao trabalho, a ilha de Utopia que Thomas Morus concebe exige um grupo específico de humanos para vigiar todos os habitantes para garantir que eles sempre estarão trabalhando. A necessidade de vigilância e de controle coloca a Utopia como uma complexa construção onde o ócio é proibido, pois ele contraria a noção de Morus sobre a humanidade, reforçada pelo trabalho. Qualquer semelhança com a proposta política do marxismo não é mera coincidência... O paradoxo de Morus é, em certa medida, transferido para Marx. 

Diante de suas especulações sobre uma sociedade sem divisão do trabalho, onde o homem seria livre para caçar de manhã, cuidar da horta à tarde e escrever poesia durante a noite, a visão de uma sociedade futura após o capitalismo ganha esse tom radicalmente libertário no filósofo alemão. Entretanto, a grande pergunta que se poderia colocar é: o que fazer com o trabalho de baixa qualificação que não estimula a criatividade humana e que a aliena? Conta-se, em forma de anedota, que em um debate na Primeira Internacional, Marx repetia seu argumento sobre a sociedade comunista quando um opositor lhe perguntou, em tom arrogante: “E quem irá engraxar os sapatos?” O filósofo alemão então teria lhe respondido com veemência: “Você!”

Por mais divertida que seja a anedota, o problema da utopia persiste até certo ponto. Numa sociedade ideal, sem divisão do trabalho alguma, quais serão as formas de coagir os homens a trabalharem conforme as suas possibilidades? É certo que possibilidade e vontade não podem se confundir e, portanto, não se pode cair na resposta ingênua de que a superação dos problemas colocados depende apenas da possibilidade deles desaparecerem. Da mesma forma que se afirma constantemente que somente a vontade é incapaz de realizar uma transformação que não é possível, não temos porque acreditar que o possível desperta automaticamente uma vontade. 

Entretanto, creio que não é aqui que esse impasse será resolvido. Contudo, pode se avançar um pouco mais na questão tentando propor uma definição de utopia que seja mais útil à esquerda. Para isso, defendo que a utopia se apresente como um termo de duplo-caráter: como realidade concreta (negativa) e como exercício de imaginação (positivo).

Enquanto realidade concreta, a utopia é um problema para a esquerda, pois toda utopia engendra em si mesmo a distopia. Retornamos ao impasse deixado anteriormente: o que fazer quando seres humanos não se adaptam ao que outros seres humanos consideram como mais “natural”, ou “racional”? A suposta neutralidade dessas idéias torna comportamentos desviantes como anormais e, portanto, as sociedades que se colocam como mais próximas do “natural” e do “racional” não são capazes de tratar tais comportamentos senão como loucura (e nesse ponto, a União Soviética da era Kruschev talvez seja o exemplo mais emblemático, ao tratar dissidentes políticos como desequilibrados mentais).

Tal problematização da utopia lhe confere um caráter negativo. Ela apresenta-se como um ponto ahistórico, de supressão total do sujeito como agente transformador. Ahistórico pois pressupõe que, diante de um estágio tão avançado em relação ao que é “natural” do indivíduo ela se torna o auge da evolução humana e, portanto, seu único caminho possível seria a “regressão”. Para evitar tal “regressão”, ela depende de um corpo de controle absoluto que garanta que esse fenômeno não ocorrerá, mesmo que ele beneficie um indivíduo. A utopia torna-se não apenas uma ilha, mas também uma prisão incontornável e claustrofóbica...tão claustrofóbica que a imagem de George Orwell na distopia "1984" é implacável: não há esperança dentro da utopia (os únicos que trazem a esperança são os “proles”, que são excluídos dela).

Essa visão, no entanto, precisa fazer parte da idéia da esquerda sobre utopia como um projeto político irrealizável. Não porque ele é inviável e não pode ser construído – pois de fato, já existiram tentativas bastante próximas de construir sociedades assim – mas sim como um projeto a ser evitado porque ele perde de vista a historicidade da organização política e a capacidade evolutiva das necessidades humanas. A utopia, pensada dessa forma, não é o “reino da possibilidade” como argumenta Marx, mas sim uma monótona forma de contenção de necessidades sobre um invólucro de autoritarismo. Nesse sentido, o caráter negativo da utopia enquanto realidade concreta é temerário pois coloca no horizonte da esquerda a sua irmã gêmea, a distopia. E se a utopia engendra em si mesmo a distopia, chegamos ao maior dilema: se as utopias vêm acompanhadas de distopias, por que lutar para sua realização? Resumindo toda essa argumentação, chega-se à conclusão de que tal modalidade de utopia é paralisante, o que pode ajudar a explicar (ainda que apenas uma pequena parte) a dificuldade contemporânea de se construir uma proposta política que vá além do capitalismo sem cair nessa noção de utopia como realidade concreta.

Entretanto, se a utopia/distopia, enquanto realidade concreta, revela-se como causa de uma inércia política, por que não descartamos logo a idéia de utopia na esquerda? A resposta que tenho sobre isso é ainda ingênua e cheia de falhas, mas defendo que a utopia não pode ser abandonada pela esquerda, mas sim precisa de uma transfiguração em que a valorize como exercício de imaginação, assumindo então um caráter positivo de ação.

Sei que parece irônico afirmar que a utopia só possui um valor positivo para a esquerda enquanto “ideologia” no seu sentido mais grosseiro, mas isso é porque enquanto ela se propõe a fazer parte de um “pensar sobre o futuro” ela é uma forma de trazer inquietações de nosso tempo a um patamar político. A utopia ganha um caráter de projeto e, como tal, é um ato teleológico que conta com determinadas condições do presente para se realizar. A grande diferença é que enquanto ela assume esse valor positivo ela não pode ser realizada.

Essa é uma grande diferença na verdade! Embora o olhar para o passado, como forma de identificar-se com os oprimidos de tantas outras gerações, apresente-se como fundamental numa perspectiva libertária, tal perspectiva não pode ignorar nunca a ambição de construção do futuro. Esse teor “teleológico” da luta política da esquerda, que depende de um sentido absoluto e que não possa ser facilmente relativizado é um elemento importante como parte de um exercício político de pensar: que futuro queremos? Talvez uma das maiores preocupações do chamado “altermundismo”, enquanto principal movimento anticapitalista de escala global atualmente, foi responder a indagação: afinal, como é esse outro “mundo possível”?

Sem estabelecer um projeto de futuro que esteja circunscrito em suas lutas, os agentes da esquerda trabalham com um horizonte perigosamente ahistórico em que os ganhos e perdas políticos são resumidos na capacidade de entrarem no “jogo” e não na sua capacidade de transformá-lo. Em suma, o reino da “realpolitik” é o maior beneficiado com o abandono da utopia, que implica em pensá-la somente em seu aspecto negativo.

Entretanto, valorizando o aspecto positivo do “lugar nenhum” enquanto exercício de imaginação e de projeção, ela atende a uma necessidade: ela se coloca como fenômeno histórico. O que em dada sociedade é possível imaginar como futuro revela anseios e receios em diferentes graus. É significativo, por exemplo, que no século XIX a utopia ganhe tanto espaço entre a literatura ficcional como na política. Assim como é significativo que no século XX a ficção científica tenha se tornado praticamente uma institucionalização da distopia.

Há ainda outra valoração da utopia como “exercício de imaginação”: a sua intangibilidade. Sem uma existência ontológica, ela está sempre “a um passo a frente”. É atribuída à Eduardo Galeano a idéia de que a utopia está no horizonte e que quando caminhamos em sua direção, ela se afasta. Mas que esse é seu propósito, motivar-nos a caminhar. Logo, o andar é o central, pois a utopia é um catalisador de uma ação, mas não se circunscreve como ação. Tal perspectiva encontra eco no trecho da obra “A peste”, de Albert Camus, na epígrafe que abre o texto. O próprio sentido da utopia é não ser encontrado, é permitir que continuemos lutando desesperadamente para atingi-la, mesmo sabendo que isso é impossível. Somente dessa forma pode se recuperar uma noção onde vontade e possibilidade coexistem de forma tensionada na ação humana.

Porém, tal perspectiva gera problemas. Se a utopia é intangível, como fazer com que uma sociedade ande em sua direção? Por que não se pode simplesmente deixar de lutar? Se a imaginação origina a ação, o que origina a imaginação? Essa é uma pergunta de difícil resposta e talvez essa reflexão não consiga lidar com tal indagação. Entretanto, uma forma de evitar o idealismo da utopia é circunscrevendo-a também como ação, invertendo-se os papéis que damos ao seu duplo-caráter. 

Enquanto “realidade concreta”, a utopia é uma quimera e mostra-se distópica, assumindo um caráter idealista. Contudo, enquanto “exercício de imaginação” ela é algo que depende de indivíduos localizados em tempo e espaço, “presos” em relações sociais onde até mesmo algo tão abstrato quanto a imaginação é um indício da possibilidade de superação que existe entre eles. Tal inversão retoma a positividade e a negatividade da utopia. Positiva pois estabelece uma utopia que engendra a ação, que cria um sentido à luta. Negativa pois contesta o seu caráter ontológico, negando a ahistoricidade que está circunscrita a sua realização.

No final das contas, toda essa reflexão nos leva a “lugar nenhum”. E isso não é exatamente um problema. Pensar sobre a utopia, desviando-se do fatalismo e da ingenuidade, é um exercício dificílimo. Mas talvez seja extremamente necessário para conseguir responder a pergunta: afinal, que outro mundo queremos?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A crise está no ar

Essa merece ir "ao ar" no blog. Lasier Martins dando mais uma bola fora, exatamente no momento de crise estrutural do governo Yeda. E dá-lhe merda no ventilador tucano!


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"Quem assistiu ao programa Conversas Cruzadas, ontem (12) à noite, na TV COM (RBS), foi surpreendido por um diálogo inusitado entre o apresentador Lasier Martins e o ex-desembargador Marco Aurélio de Oliveira, advogado de Flávio Vaz Netto, um dos acusados pela Justiça Federal de integrar a quadrilha que fraudou o Detran. O terceiro bloco do programa iniciou sem que os participantes soubessem que estavam no ar. Lasier diz ao ex-desembargador que Carlos Crusius (marido da governadora Yeda Crusius) iria processar o vereador do PSOL, Pedro Ruas, que na noite anterior, no mesmo programa, acusou-o de furtar dinheiro na campanha eleitoral de 2006. Marco Aurélio de Oliveira, então, comenta:

- O meu cliente também.

- Quem é seu cliente – pergunta Lasier.

- É o Flávio Vaz Netto – responde o ex-desembargador (até então, cabe observar, os telespectadores não sabiam que ele era advogado de defesa de Vaz Netto. No programa, ele foi apresentado como advogado e ex-desembargador, e criticou a instalação de uma CPI na Assembléia para investigar as denúncias de corrupção envolvendo o governo Yeda).

Ao que Lasier comenta:

- O Flávio disse que o Carlos Crusius furtou dinheiro da campanha.

Neste momento, ouve-se uma voz no estúdio, advertindo:

- Tá no ar, tá no ar....

Silêncio constrangido no estúdio. Os participantes se aprumam e o terceiro bloco começa oficialmente, sob o som de risos nervosos. O tema do programa era a casa da governadora."
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"Quem quer ser um milionário?": o vício da audácia

(cena de "Quem quer ser um milionário?", 2008)

Azharuddin Mohammed Ismail, ator de Bollywood (a versão indiana da parente estadunidense) no filme vencedor de oito Oscar este ano, sentiu na pele o abuso da vida imitando a arte. Tal como alguns policiais brasileiros encantados com a sanguinolência do polêmico Tropa de Elite, a polícia de Mumbai literalemente baixou o sarrafo na família do jovem ator, como se fosse inspirada pelo sucesso cinematográfico indiano. Além do mais, o barraco de sua família foi destruído em nome do direito do Estado de expulsar aqueles invasores das terras públicas. Além dos abusos do Estado, que falam por si, uma questão que fica latente é a seguinte: qual a perspectiva de elevação social dos trabalhadores indianos mais pobres, se nem o mundialmente famoso ator conseguiu deixar para trás o status de favelado? 

A Índia tem apresentado algumas novidades empresariais, que dedicam atenção à satisfação de consumo e moradia para as famílias mais pobres do países em desenvolvimento. A Tata Motors lançou um carro que sai por menos de U$ 2.000, enquanto planeja resolver parte do problema da casa própria (claro, com enorme lucratividade) com sua residência minúscula ao custo de cerca de R$ 16.000 (ou U$ 9.000). Seja como for, parece que o horizonte dos "favelados" indianos não parece muito colorido, e certamente muito apertado.

Na verdade, é de se pensar como os chamados países em desenvolvimento conseguem crescer em momento de crise internacional especialmente no centro do sistema. Brasil e Índia compartilham mais do que aspirações na ONU, na conquista do espaço e no mundo do arsenal nuclear. As enormes "favelas" (se nos permitem o imperialismo semântico carioca) dos dois países são instituições estruturadas há anos, e por anos prometem existir. Que há de interessante ao capitalismo emergente nisso? 

O fato de que os trabalhadores que as habitam não estão desocupados, embora possam aparecer nas estatísticas como formalmente desempregados. Eles ocupam uma função imporante dentro do sistema. Os variados bicos de parte dos trabalhadores constituem real função de circulação de mercadorias produzidas pelo capital, que precisa pagar apenas pela parte produtiva, já que há uma massa de pessoas não pagas que faz o serviço do comércio daqueles produtos. Além do mais, cumprem uma função (no inchado setor dos serviços, que pipoca nas favelas) de manutenção barata da força de trabalho daqueles países. Encarando uma obra pro vizinho aqui, construindo um salão de beleza ali, ou uma lan-house, uma pizzaria... tudo com preços módicos, acessível a grande parte dos trabalhadores.

Além do mais, a ocupação dos espaços públicos baldios nas cidades através da modalidade da autoconstrução (ver o texto de Chico de Oliveira aqui), abraça a mesma causa do capital: barateamente do custo de reprodução da força de trabalho. Embora os governos atuem na limpeza de algumas áreas centrais nas cidades, em geral o aparente caos das favelas é apenas a forma da coisa: a ordem é o caos das periferias, necessidade do capital emergente baseado em baixos custos produtivos. Por mais que nós, de classe média (não sabemos bem o que isso quer dizer), ressaltemos as belezas das favelas, em um encantamento quase idílico com aquela paisagem de gente comum sendo supostamente feliz, não somos autorizados a pensar que aquele mundo é uma maravilha; pelo contrário.

No Brasil o termo slumdog ganhou uma tradução no título do filme como oportunidade aberta de ascensão social. Somos alimentados pelo mito do favelado que deu certo, seja jogando futebol ou cantando, sobrando ainda algum espaço para certos artistas emergentes. Não sejamos míopes: são ocupações profissionais para um número reduzidíssimo de trabalhadores, sendo que o grosso tem de encarar as tradicionais profissões enquandrada no termo mais geral de operário. 

Em todo caso, o que o caso do menino indiano revela, é a marcação da estrutura excludente do capitalismo dos países emergentes, na qual a audácia da elevação social é retratada como abuso que merece castigo, figura central do roteiro de "Quem quer ser um milionário?". A questão chave é essa: como os poderes públicos utilizam uma alegoria (na forma de filme) para tentar reforçar o lugar de pertencimento social dos grupos de trabalhadores considerados inferiores? Se a vida imita a arte, os pés pelas mãos foram trocados, e a audácia dos pobres se torna imediatamente seu vício, sua punição.


terça-feira, 12 de maio de 2009

A condição (pós) humana

Segundo o filósofo da USP em palestra ontem à noite na reitoria da UFRGS, Franklin Leopoldo Silva, estamos inventando a condição de pós-humanos. Estamos passando por uma metamorfose (em amplo sentido) na direção de certa ruptura com as bases modernas do nosso comportamento social. Mas isso é alimentado exatamente pelos elementos inventados pela modernidade, como o domínio da técnica e da razão sobre os diversos campos da vida humana. 

A diferença do pós-humano para o humano moderno se basearia, entre outros elementos, na presentificação do passado e do futuro, pois o primeiro subordina a relação do homem com aqueles outros tempos. A novidade técnica não nos causa mais sensação de ruptura (como ocorria nos séculos XVIII e XIX), pois está incorporada ao nosso cotidiano (todo dia vemos novidades técnicas sem ficarmos estupefatos). Tudo parece ser imediato.

Outro elemento alimentado (talvez o mais chocante) pelas suas raízes modernas e que estaria nos conduzindo a uma condição humana diversa, seria que na relação de tensão entre a prática dos sujeitos e o peso das condicionantes estruturais, a balança estaria tendendo para o lado dos últimos. O filósofo fez questão de ressaltar que mesmo na relação humana com o meio-ambiente, as campanhas de preservação só servem para possibilitar a própria reprodução do sistema (embora ele não tenha apresentado uma melhor definição sobre a que "sistema" se referia) que ainda precisa devastar. Ou seja, a capacidade de intervenção humana prática estaria sendo subordinada aos mecanismos cada vez mais autônomos das ações dos sujeitos pontuais. O mesmo problema valeria para outros campos da vida humana, como biociência e arte. Na verdade, aquele filósofo disse que não consegue pensar em nenhum campo da atual vida humana que não esteja passando por este desequilíbrio.

Em todo caso, acho que uma questão ficou no ar. Embora tais argumentos façam sentido, parece difícil crer que nas periferias do quer que seja o "sistema" não existam possibilidades mais concretas de certo equilíbrio entre ações dos sujeitos e as limitações impostas pelas condicionantes estruturais. De qualquer forma, vale a pena continuar indo ao seminário que vai até dia 22 de maio em Porto Alegre. Talvez até lá, com outros argumentos, consigamos definir melhor o que é a condição humana hoje.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Evento: "Marx e a condição humana"

O sociólogo e professor da USP Francisco (Chico) de Oliveira vem a Porto Alegre em maio para participar do evento "Mutações - a condição humana", na UFRGS. Sua palestra no dia 15/05 ocorrerá pela noite.  Eis um resumo do que será discutido, segundo o sítio do evento.

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"O materialismo marxista construiu sobre o trabalho o fundamento do humano. Ou seja: o homem de Marx é, antes de tudo, produto de sua força, em busca da reprodução. Com o fim das utopias, a desqualificação do trabalho e uma época em que o produtor é subjugado pelo seu produto, imperativo e indomável, a pergunta, dentro dos termos mais marxistas, é: o que será a condição humana?"
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

O dia dos trabalhadores

("Almoço no topo de um arranha-céus", Charles C. Ebbets, 1932)


Só para não passar a data em branco, o pessoal do Núcleo Piratininga de Comunicação enviou por e-mail o seguinte texto com alguns dos importantes eventos do Primeiro de Maio. Eles não estão em ordem cronológica, mas vale para lembrar que esse não é apenas o dia do trabalho, mas sim o Dia dos Trabalhadores...dia de luta entre uma classe que é explorada por outra.

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Alguns fatos no dia 1º de Maio no Brasil 

                                           (Datas extraidas da Agenda NPC)

01.05.1919: Grande manifestação na Praça Mauá, Rio, reúne 60 mil pessoas aos gritos de “Viva o 1º de Maio”, “Viva Lênin”, “Viva a Revolução Russa”.  

01.05.1923: O jornal A Plebe, dirigido por Edgard Leuenrothm fechado em 1919, volta a ser distribuído no 1º de maio deste ano.  

01.05.1932: Em São Paulo, os sapateiros e os ferroviários da E. F. Santos-Jundiaí exigem 8 horas, e a proibição do trabalho infantil. Meses depois, Vargas concederá as 8 horas para os trabalhadores urbanos, mas exclui os do campo e os funcionários públicos.   

01.05.1943: No Estádio São Januário, Rio, Getúlio Vargas promulga a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).  

01.05.1968: Manifestação do 1º de maio em frente à Catedral da Sé/ SP. Operários e moradores da periferia da capital, de Osasco e de Santo André apedrejam o governador, e incendeiam o palanque da Ditadura.  

01.05.1980: Durante a greve dos metalúrgicos do ABC, 100 mil manifestantes desfilam pelas ruas de São Bernardo até o Estádio Vila Euclides. A Ditadura tentou impedir o ato com cinco mil policiais, brucutus e helicópteros.   

 

Alguns fatos acontecidos nos dias perto do 1º de Maio

Maio 1906: Greve dos ferroviários, em Jundiaí, pelas 8 horas é reprimida e acaba com 12 operários fuzilados pela polícia. 

03.05.1907: Duas fundições, em São Paulo, param e conseguem a jornada de oito horas, já conquistada por operários de algumas pedreiras e pelos marmoristas do Rio.  

04.05.1907: Seguindo decisões do I Congresso da COB, inicia-se uma greve pelas oito horas no estado de São Paulo. Trabalhadores de todas as categorias pararam por quase um mês, entre elas setor alimentício, construção civil, sapateiros, tecelões, gráficos e marceneiros. 

05.05.1919: Durante uma passeata contra o trabalho noturno, na Tecelagem Ipiranguinha, em São Bernardo/SP, a polícia mata o jovem grevista Constantino Castelani.  

06.05.1912: Greve em Belo Horizonte/MG, liderada pelos funcionários da Prefeitura que exigem oito horas. Durou até o dia 14. Nos choques com a polícia, houve mortes de ambos os lados. No fim da greve, os funcionários da Prefeitura conquistam as oito horas.  

06.05.1970: Em São Paulo, é encontrado o corpo do operário da Oposição Sindical dos químicos de Santo André/SP, Olavio Hansen. Tinha sido preso numa panfletagem no 1º de maio. Foi torturado até a morte, por ser do Partido Operário Revolucionário Trotskista. 

08.05.1989: Em São Paulo, continua a mais longa greve realizada pelo magistério do estado organizando na Apeoesp. A greve em defesa da escola pública e por um piso salarial profissional se estendeu por 82 dias.  

10.05.1954: No Rio, os metalúrgicos com uma greve de cinco dias conseguem, após várias passeatas que fecharam a Avenida Brasil, a extensão do dissídio aos não sindicalizados. 19

11.05.1919: Greve dos sapateiros e oficinas de calçados de São Paulo, por aumento de salário. 

12.05.1978: Em São Bernardo/SP estoura a greve na Scania Vabis, organizada clandestinament e dentro da fábrica. Obterá 10% de aumento, e será a primeira de uma longa série de greves.  

13.05.1980: Após 41 dias, chega ao fim a greve dos metalúrgicos de São Bernardo/SP. A Forte repressão com helicópteros do Exército, intervenção no sindicato e prisão dos seus líderes não quebrou o ânimo. Lula e mais de 60 pessoas são presos por 31 dias. Nenhum ganho econômico, mas forte ganho político organizativo.  

15.05.1906: Greve Geral na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, por aumento de salário e contra a prepotência dos chefes.  

15.05.1919: O n° 2 do jornal Germinal noticia mais uma greve da construção civil, no Rio, pelas oito horas.  

15.05.1919: Em Versailles (Paris), o Brasil assina o Tratado de Paz que compromete os governos a fazerem leis trabalhistas básicas. Na ocasião, é criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT). 


Espionagem e crime

Como noticia a Agência Carta Maior, o serviço de "inteligência" da Brigada Militar do Rio Grande do Sul tem acompanhado de perto as manifestações dos servidores gaúchos contra o governo Yeda. O homem disfarçado de jornalista daquela agência foi identificado pelos manifestantes (que conhecem os jornalistas da Carta Maior) como um agente infiltrado na manifestação do dia 30 de abril (ontem) contra a governadora. O crime de falsidade ideológica está sendo praticado pela própria polícia gaúcha, demonstrando a prática anti-democrática do PSDB. Claro, os movimentos sociais sempre se preocuparam com a infiltração da polícia em seus atos, o que ocorre historicamente. A novidade é que o governo Yeda tem a cara de pau de usar credenciais de uma agência simpática aqueles movimentos. Eis a cara do fulano da "polícia secreta" gaúcha. Ele até usa barba para completar o clichê.