
(jovens na Cidade do México, portando máscaras para se proteger da contaminação pelo ar da gripe suína)
A febre do momento tem sido as dicussões sobre a chamada "gripe suína". Surgindo como um grande temor epidêmico - e em pleno século XXI -, ela tem dois diferenciais significativos em relação à gripe aviária de alguns anos atrás: ela é uma "influenza" (e isso pode significar maios resistência) e ela já está presente no continente americano. Em recente texto do historiador Mike Davis no site do Socialist Worker, periódico do Socialist Workers Party da Inglaterra, ele estabelece uma conexão que a mídia corporativa não faz, mas que é extremamente coerente diante das mudanças da indústria de alimentos nos últimos anos. Vale a pena conferir essa tradução que fizemos e, para quem quiser, dar uma olhada no original também.
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O capitalismo e a gripe
Mike Davis, cujo livro de 2006 "O monstro bate à nossa porta" (edição brasileira publicada pela Record, 2006) alertava para a ameaça de uma pandêmica gripe aviária global, explica como o agronegócio globalizado acabou preparando uma aterrorizante difusão da gripe suína no México.
27 de abril de 2009,
As hordas que voltaram da "semana do saco cheio" em Cancun esse ano retornaram com um invisível mas sinistro souvenir.
A gripe suína mexicana, uma quimera genética que foi provavelmente concebida no lodo fecal da indústria frigorífica de porcos, subitamente ameaça o mundo inteiro com uma nova febre. Uma inicial deflagração na América do Norte revela uma taxa de infecção que já viaja em velocidade maior do que a última corrente pandêmica, a gripe Hong Kong de 1968.
Roubando o centro das atenções de nosso assassino oficialmente apontado - o até então vigoroso mutante H5N1, conhecido como gripe aviária - esse vírus suíno é uma ameaça de magnitude desconhecida. Certamente ele parece ser menos letal que a SARS em 2003, mas como uma "influenza", ele pode ser mais durável que a SARS e menos propenso à retornar para sua caverna secreta.
Considerando que as "influenzas" Tipo-A, domesticadas e sasonais, matam cerca de 1 milhão de pessoas a cada ano, mesmo um modesto aumento da virulência, especialmente se combinada com alta incidência, poderia produzir uma carnificina equivalente a de uma grande guerra.
Enquanto isso, uma das suas primeiras vítimas tem sido a fé consolante, amplamente difundida nos bancos de igreja da Organização Mundial de Saúde (OMS), de que pandemias podem ser contidas através de rápidas respostas de burocracias médicas, independente da qualidade da saúde pública local.
Desde as mortes iniciais provocadas pelo H5N1 em Hong Kong, em 1997, a OMS, com o apoio da maioria dos serviços de saúde nacionais, promoveu uma estratégia focada na identificação e isolamento da tensão pandêmica dentro de seu alcance local de difusão, seguida por uma enorme campanha de medicação da população com drogas anti-virais e (se avaliável) com vacinas.
Um exército de céticos têm contestado acertadamente essa abordagem contra-insurgente viral, apontando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo (de forma bastante literal no caso da gripe aviária), mais rápidos do que a OMS e as autoridades local possam reagir ao surto original. Eles também apontaram para a primitiva, e geralmente não existente vigilância acerca da relação entre humanos e doenças animais.
Mas a mitologia da ousada, antecipada (e barata) intervenção contra a gripe aviária foi de grande valor para a causa de países ricos, como os EUA e a Grã-Bretanha, que preferiram investir em suas próprias Linhas Maginot biológicas, do que aumentar drásticamente a ajuda para as fronteiras epidêmicas de além-mar - assim como a Big Pharma, que tem enfrentado a demanda do Terceiro Mundo por anti-virais críticos, de manufatura pública e genéricos, como o Tamiflu da empresa Roche.
A gripe suína, de qualquer forma, pode provar que a versão da OMS e do Center for Disease Control (CDC americano) sobre o preparo contra a pandemia - sem novos investimentos massivos em vigilância, pesquisa e infraestrutura regulatória, saúde pública básica e acesso global à drogas "salva-vidas" - pertence ao mesmo tipo de risco fraudulento que derivativos da AIG e seguros da Madoff.
Isso não significa que o sistema de alerta pandêmico tenha fracasso, já que ele simplesmente não existe, mesmo na América do Norte e na União Européia.
Talvez não seja surpreendente que o México não tenha nem a capacidade e nem a vontade política de monitorar as doenças de animais domésticos e seus impactos na saúde pública, mas a situação dificilmente é melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância é uma fracassada colcha de retalhos de jurisdições estaduais, e que grandes produtores tratem às regulações sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam seus trabalhados e seus animais.
De forma parecida, uma década de alertas urgentes feitos por cientistas do campo fracassou em garantir a transferência de tecnologias de análise viral sofisticadas para os países que sofrem ameaça direta de pandemias. O México possui especialistas em doenças mundialmente famosos, mas tem de mandar fios de algodão para um laboratório em Winnipeg (cidade com menos de 3% do total da população da Cidade do México) para poder identificar o genoma contido neles. A consequência disso é a perda de uma semana.
Mas ninguém estava menos alerta do que os lendários controladores de doença de Atlanta. De acordo com o Washington Post, o CDC só ficou sabendo do surto depois de passados seis dias de que o governo mexicano começou a impôr medidas de emergência no país. De fato, como o Post noticiou, "as autoridades de saúde pública nos EUA ainda estão no escuro sobre o que está acontecendo no México, duas semanas depois do surto ter sido reconhecido."
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Não deveria haver nenhuma descupa. Isto não é um "cisne negro" batendo suas asas. De fato, o paradoxo central do pânico da gripe suína é de que ainda que ela seja totalmente inesperada, ela era precisamente previsível.
Seis anos atrás, a revista Science dedicou uma grande reportagem (feita pela admirável Berenice Wuethrich) que evidenciava que "após anos de estabilidade, o vírus suíno da América do Norte havia tido saltos evolutivos muito rápidos".
Desde a sua identificação no início da Grande Depressão, a gripe suína H1N1 havia feito apenas pequenos desvios de seu genoma original. E então, em 1998, a situação veio ladeira abaixo.
Uma tensão altamente patogênica começou a dizimar porcos em um frigorífico suíno na Carolina do Norte, e novas e mais virulentas versões começaram a aparecer quase todo ano, incluindo uma inusitada variante do H1N1 que continha os genes internos do H3N2 (uma outra gripe de Tipo-A que circula entre humanos).
Pesquisadores que Wuethrich entrevistou estavam preocupados que um desses híbridos pudessem se tornar uma gripe humana (acredita-se que ambas as pandemias de 1957 e 1968 foram originadas da mistura de vírus aviários e humanos dentro de porcos), e pediram pela criação de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína. Essa admoestação, é claro, passou desapercebida em uma Washington preparada para jogar fora bilhões de dólares em fantasias bioterroristas enquanto negligenciava perigos óbvios.
Mas o que causou a aceleração da evolução da gripe suína? Provavelmente a mesma coisa que favoreceu a reprodução da gripe aviária.
Virologistas acreditam faz algum tempo que o sistema de agricultura intensiva do sul da China - uma ecologia imensamente produtiva de arroz, peixe, porcos e pássaros domésticos e selvagens - é o principal motor da mutação de "influenza": tanto "derivações" sazonais e "mudanças" episódicas nos genomas. (Mais raramente, pode ocorrer um salto direto de pássaros para porcos e/ou humanos, assim como ocorreu com o H5N1 em 1997).
Mas a industrialização corporativa da produção de animais quebrou o monopólio natural da China na evolução de "influenzas". Como muitos escritores apontaram, a domesticação de animais em décadas recentes foram transformadas em algo que lembra mais a indústria petroquímica do que a fazenda da família feliz descrita em livros infantis.
Em 1965, por exemplo, havia 53 milhões de porcos em mais de 1 milhão de fazendas; hoje, 65 milhões de porcos estão concentrados em 65 mil instalações - metade delas com mais de 5.000 animais.
Essa foi uma transição, em essência, de antigos chiqueiros para vastos infernos excrementais, sem precedentes na natureza, contendo dezenas e até mesmo centenas de milhares de animais com sistemas imunológicos enfraquecidos, sufocando no calor e no esterco, enquanto trocam patogenes em uma velocidade alarmante com seus companheiros de situação e de genes.
Qualquer um que já dirigiu através de Tar Heel, na Carolina do Norte, ou de Milford, em Utah, - onde cada uma das subsidiárias de Smithfield Foods produzem mais de 1 milhão de porcos assim como centenas de lagonas cheias de merda tóxica - irá entender intuitivamente o quão profundamente o agronegócio tem alterado as leis da natureza.
No ano passado, uma distinta comissão convocada pelo Pew Research Center produziu um relatório central sobre a "produção industrial de animais de fazenda" efnatizaram o perigo agudo de que "o contínuo ciclo de vírus...em grandes rebanhos [irá] aumentar as oportunidades para a geração de novos vírus através da mutação ou eventos de recombinação que poderiam resultar em formas mais eficientes de transmissão humana".
A comissão também alertou que o uso promíscuo de antibióticos usados em fábricas de porcos (uma alternativa barata para sistemas de esgotos, ou ambientalização humana) estava causando o aumento de resistência de infecções de Staphylococcus, enquanto detritos derramados estavam produzindo assustadores surtos de E.coli e Pfisteria (o protozoário apocalíptico que matou mais de 1 bilhão de peixes nos estuários da Carolina e adoeceu dezenas de pescadores).
Qualquer tentativa de melhoramento dessa ecologia "neo-patogênica", entretanto, teria de confrontar o poder monstruoso exercido por conglomerados de animais como a Smithfield Foods (porcos e gado) e Tyson (frangos). Os membros da comissão da Pew Research Center, liderada pelo ex-governador do Kansas, John Carlin, reportaram que a obstrução sistêmica da investigação pelas corporações, incluindo desde ameaças descaradas à retenção de dinheiro para pesquisas cooperativas.
Além do mais, essa é uma indústria altamente globalizada, com uma força política internacional equivalente. Assim como a indústria gigante de frango de Bangcoc, Charoen Pokphand, estava pronta para suprimir investigações sobre a sua responsabilidade na difusão da gripe aviária no sudeste asiático, é provável que a epidemologia forense do surto da gripe suína irá bater de frente contra a muralha de pedra corporativa da indústria de porcos.
Isso não quer dizer que eles nunca serão atingidos: já existem rumores na imprensa mexicana de que o epicentro da "influenza" está concentrada numa enorme subsidiária da Smithfield Foods no estado de Veracruz.
Mas o que mais importa aqui (especialmente dada a contínua ameaça do H5N1) é o cenário em maior escala: a estratégia da OMS contra pandemias fracassou, o declínio ainda maior da saúde pública em escala mundial, o estrangulamento da Big Pharma sobre medicamentos "salva-vidas"e a catástrofe planetária da ecologia sem lastro na produção de animais.




