terça-feira, 28 de abril de 2009

A febre do momento

(jovens na Cidade do México, portando máscaras para se proteger da contaminação pelo ar da gripe suína)


A febre do momento tem sido as dicussões sobre a chamada "gripe suína". Surgindo como um grande temor epidêmico - e em pleno século XXI -, ela tem dois diferenciais significativos em relação à gripe aviária de alguns anos atrás: ela é uma "influenza" (e isso pode significar maios resistência) e ela já está presente no continente americano. Em recente texto do historiador Mike Davis no site do Socialist Worker, periódico do Socialist Workers Party da Inglaterra, ele estabelece uma conexão que a mídia corporativa não faz, mas que é extremamente coerente diante das mudanças da indústria de alimentos nos últimos anos. Vale a pena conferir essa tradução que fizemos e, para quem quiser, dar uma olhada no original também.

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O capitalismo e a gripe

Mike Davis, cujo livro de 2006 "O monstro bate à nossa porta" (edição brasileira publicada pela Record, 2006) alertava para a ameaça de uma pandêmica gripe aviária global, explica como o agronegócio globalizado acabou preparando uma aterrorizante difusão da gripe suína no México.

27 de abril de 2009,

As hordas que voltaram da "semana do saco cheio" em Cancun esse ano retornaram com um invisível mas sinistro souvenir.

A gripe suína mexicana, uma quimera genética que foi provavelmente concebida no lodo fecal da indústria frigorífica de porcos, subitamente ameaça o mundo inteiro com uma nova febre. Uma inicial deflagração na América do Norte revela uma taxa de infecção que já viaja em velocidade maior do que a última corrente pandêmica, a gripe Hong Kong de 1968.

Roubando o centro das atenções de nosso assassino oficialmente apontado - o até então vigoroso mutante H5N1, conhecido como gripe aviária - esse vírus suíno é uma ameaça de magnitude desconhecida. Certamente ele parece ser menos letal que a SARS em 2003, mas como uma "influenza", ele pode ser mais durável que a SARS e menos propenso à retornar para sua caverna secreta.

Considerando que as "influenzas" Tipo-A, domesticadas e sasonais, matam cerca de 1 milhão de pessoas a cada ano, mesmo um modesto aumento da virulência, especialmente se combinada com alta incidência, poderia produzir uma carnificina equivalente a de uma grande guerra.

Enquanto isso, uma das suas primeiras vítimas tem sido a fé consolante, amplamente difundida nos bancos de igreja da Organização Mundial de Saúde (OMS), de que pandemias podem ser contidas através de rápidas respostas de burocracias médicas, independente da qualidade da saúde pública local.

Desde as mortes iniciais provocadas pelo H5N1 em Hong Kong, em 1997, a OMS, com o apoio da maioria dos serviços de saúde nacionais, promoveu uma estratégia focada na identificação e isolamento da tensão pandêmica dentro de seu alcance local de difusão, seguida por uma enorme campanha de medicação da população com drogas anti-virais e (se avaliável) com vacinas.

Um exército de céticos têm contestado acertadamente essa abordagem contra-insurgente viral, apontando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo (de forma bastante literal no caso da gripe aviária), mais rápidos do que a OMS e as autoridades local possam reagir ao surto original. Eles também apontaram para a primitiva, e geralmente não existente vigilância acerca da relação entre humanos e doenças animais.

Mas a mitologia da ousada, antecipada (e barata) intervenção contra a gripe aviária foi de grande valor para a causa de países ricos, como os EUA e a Grã-Bretanha, que preferiram investir em suas próprias Linhas Maginot biológicas, do que aumentar drásticamente a ajuda para as fronteiras epidêmicas de além-mar - assim como a Big Pharma, que tem enfrentado a demanda do Terceiro Mundo por anti-virais críticos, de manufatura pública e genéricos, como o Tamiflu da empresa Roche.

A gripe suína, de qualquer forma, pode provar que a versão da OMS e do Center for Disease Control (CDC americano) sobre o preparo contra a pandemia - sem novos investimentos massivos em vigilância, pesquisa e infraestrutura regulatória, saúde pública básica e acesso global à drogas "salva-vidas" - pertence ao mesmo tipo de risco fraudulento que derivativos da AIG e seguros da Madoff.

Isso não significa que o sistema de alerta pandêmico tenha fracasso, já que ele simplesmente não existe, mesmo na América do Norte e na União Européia.

Talvez não seja surpreendente que o México não tenha nem a capacidade e nem a vontade política de monitorar as doenças de animais domésticos e seus impactos na saúde pública, mas a situação dificilmente é melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância é uma fracassada colcha de retalhos de jurisdições estaduais, e que grandes produtores tratem às regulações sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam seus trabalhados e seus animais.

De forma parecida, uma década de alertas urgentes feitos por cientistas do campo fracassou em garantir a transferência de tecnologias de análise viral sofisticadas para os países que sofrem ameaça direta de pandemias. O México possui especialistas em doenças mundialmente famosos, mas tem de mandar fios de algodão para um laboratório em Winnipeg (cidade com menos de 3% do total da população da Cidade do México) para poder identificar o genoma contido neles. A consequência disso é a perda de uma semana.

Mas ninguém estava menos alerta do que os lendários controladores de doença de Atlanta. De acordo com o Washington Post, o CDC só ficou sabendo do surto depois de passados seis dias de que o governo mexicano começou a impôr medidas de emergência no país. De fato, como o Post noticiou, "as autoridades de saúde pública nos EUA ainda estão no escuro sobre o que está acontecendo no México, duas semanas depois do surto ter sido reconhecido."

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Não deveria haver nenhuma descupa. Isto não é um "cisne negro" batendo suas asas. De fato, o paradoxo central do pânico da gripe suína é de que ainda que ela seja totalmente inesperada, ela era precisamente previsível.

Seis anos atrás, a revista Science dedicou uma grande reportagem (feita pela admirável Berenice Wuethrich) que evidenciava que "após anos de estabilidade, o vírus suíno da América do Norte havia tido saltos evolutivos muito rápidos".

Desde a sua identificação no início da Grande Depressão, a gripe suína H1N1 havia feito apenas pequenos desvios de seu genoma original. E então, em 1998, a situação veio ladeira abaixo.

Uma tensão altamente patogênica começou a dizimar porcos em um frigorífico suíno na Carolina do Norte, e novas e mais virulentas versões começaram a aparecer quase todo ano, incluindo uma inusitada variante do H1N1 que continha os genes internos do H3N2 (uma outra gripe de Tipo-A que circula entre humanos).

Pesquisadores que Wuethrich entrevistou estavam preocupados que um desses híbridos pudessem se tornar uma gripe humana (acredita-se que ambas as pandemias de 1957 e 1968 foram originadas da mistura de vírus aviários e humanos dentro de porcos), e pediram pela criação de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína. Essa admoestação, é claro, passou desapercebida em uma Washington preparada para jogar fora bilhões de dólares em fantasias bioterroristas enquanto negligenciava perigos óbvios.

Mas o que causou a aceleração da evolução da gripe suína? Provavelmente a mesma coisa que favoreceu a reprodução da gripe aviária.

Virologistas acreditam faz algum tempo que o sistema de agricultura intensiva do sul da China - uma ecologia imensamente produtiva de arroz, peixe, porcos e pássaros domésticos e selvagens - é o principal motor da mutação de "influenza": tanto "derivações" sazonais e "mudanças" episódicas nos genomas. (Mais raramente, pode ocorrer um salto direto de pássaros para porcos e/ou humanos, assim como ocorreu com o H5N1 em 1997).

Mas a industrialização corporativa da produção de animais quebrou o monopólio natural da China na evolução de "influenzas". Como muitos escritores apontaram, a domesticação de animais em décadas recentes foram transformadas em algo que lembra mais a indústria petroquímica do que a fazenda da família feliz descrita em livros infantis.

Em 1965, por exemplo, havia 53 milhões de porcos em mais de 1 milhão de fazendas; hoje, 65 milhões de porcos estão concentrados em 65 mil instalações - metade delas com mais de 5.000 animais.

Essa foi uma transição, em essência, de antigos chiqueiros para vastos infernos excrementais, sem precedentes na natureza, contendo dezenas e até mesmo centenas de milhares de animais com sistemas imunológicos enfraquecidos, sufocando no calor e no esterco, enquanto trocam patogenes em uma velocidade alarmante com seus companheiros de situação e de genes.

Qualquer um que já dirigiu através de Tar Heel, na Carolina do Norte, ou de Milford, em Utah, - onde cada uma das subsidiárias de Smithfield Foods produzem mais de 1 milhão de porcos assim como centenas de lagonas cheias de merda tóxica - irá entender intuitivamente o quão profundamente o agronegócio tem alterado as leis da natureza.

No ano passado, uma distinta comissão convocada pelo Pew Research Center produziu um relatório central sobre a "produção industrial de animais de fazenda" efnatizaram o perigo agudo de que "o contínuo ciclo de vírus...em grandes rebanhos [irá] aumentar as oportunidades para a geração de novos vírus através da mutação ou eventos de recombinação que poderiam resultar em formas mais eficientes de transmissão humana".

A comissão também alertou que o uso promíscuo de antibióticos usados em fábricas de porcos (uma alternativa barata para sistemas de esgotos, ou ambientalização humana) estava causando o aumento de resistência de infecções de Staphylococcus, enquanto detritos derramados estavam produzindo assustadores surtos de E.coli e Pfisteria (o protozoário apocalíptico que matou mais de 1 bilhão de peixes nos estuários da Carolina e adoeceu dezenas de pescadores).

Qualquer tentativa de melhoramento dessa ecologia "neo-patogênica", entretanto, teria de confrontar o poder monstruoso exercido por conglomerados de animais como a Smithfield Foods (porcos e gado) e Tyson (frangos). Os membros da comissão da Pew Research Center, liderada pelo ex-governador do Kansas, John Carlin, reportaram que a obstrução sistêmica da investigação pelas corporações, incluindo desde ameaças descaradas à retenção de dinheiro para pesquisas cooperativas.

Além do mais, essa é uma indústria altamente globalizada, com uma força política internacional equivalente. Assim como a indústria gigante de frango de Bangcoc, Charoen Pokphand, estava pronta para suprimir investigações sobre a sua responsabilidade na difusão da gripe aviária no sudeste asiático, é  provável que a epidemologia forense do surto da gripe suína irá bater de frente contra a muralha de pedra corporativa da indústria de porcos.

Isso não quer dizer que eles nunca serão atingidos: já existem rumores na imprensa mexicana de que o epicentro da "influenza" está concentrada numa enorme subsidiária da Smithfield Foods no estado de Veracruz.

Mas o que mais importa aqui (especialmente dada a contínua ameaça do H5N1) é o cenário em maior escala: a estratégia da OMS contra pandemias fracassou, o declínio ainda maior da saúde pública em escala mundial, o estrangulamento da Big Pharma sobre medicamentos "salva-vidas"e a catástrofe planetária da ecologia sem lastro na produção de animais.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nunca antes na história dessa cidade...

"Centro de triagem da Vila Pinto gera emprego e renda"
Foto de Tarsila Pereira / PMPA


O governo Fogaça tem realizado os sonhos do chamado "cidadão de bem", aquele sujeito de classe média que estuda sociologia nas páginas da Veja e história nas da Zero Hora. Não sei se nunca ocorreram fatos semelhantes, mas os que estão se desenrolando agora merecem destaque.

No Centro, já denunciamos a atuação da Brigada Militar contra os moradores de rua, impedindo sua permanência naquela região através da intimidação das pessoas que lhes doam alimentos. O camelódromo veio ao mesmo tempo para "limpar" a Praça XV (criando um estacionamento no local) e controlar de perto a venda das mercadoriais dos pequenos comerciantes. Fechando o quadro, os carroceiros são impedidos de circular pelo Centro no horário de trabalho, e estão condenados a desaparecer da cidade por uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores.

Alguns postos de Saúde (da região Murialdo) já foram alvo de denúncias na última campanha eleitoral para a Prefeitura. Fogaça colocou a culpa no governo Yeda, que administrava aquelas unidades. Acontece que a Prefeitura assumiu aqueles postos e nada mudou: alumas reformas nos prédios parecem ter drenado os recursos para pagar por médicos. Não é possível que se distribuam menos de dez fichas de atendimento por dia (quando elas existem), e que um médico chegue perto das 10h para ir embora ao meio-dia sem ser substituído. Quando nos deparamos com a necessidade de consultar um profissional em algum posto da capital, ficamos ser saber onde, como e quando recorrer: é uma loteria que transforma a busca pelo atendimento em uma romaria. 

A impressão é que nunca a cidade esteve tão suja e tão limpa. Sim, é paradoxal mesmo. A sujeira está nas ruas, por dois motivos. Desde antes de Fogaça assumir, o serviço de limpeza urbana vinha perdendo eficácia, sendo compensado pelo recolhimento de materiais recicláveis por catadores autônomos (os difamados carroceiros e carrinheiros). O outro fator, é que com a crise internacional, os materiais mais baratos (papelão, jornal e plástico) sofreram quedas nos seus preços tão vertiginosas que os trabalhadores não tem considerado compensador o esforço em coletar e vender aqueles produtos. Mas o problema acaba (e começa) por aí. 

O caro prefeito comprou um monte de caminhões para estender a coleta seletiva para todos os bairros, com recolhimento de lixo duas vezes por semana. Bom né? Depende de qual lado você está falando. Se você se considera um "cidadão de bem", pode estar achando maravilhoso o fato de que seu lixo está sendo reciclado por órgão competente, o que afinal também tira os catadores das ruas. Mas se você desconfia dessa fórmula fácil, verá que em conjunto com o maior controle sobre os materiais recicláveis pelo governo municipal, o governo estadual tem fechado o cerco (via polícia) sobre os comerciantes de materiais recicláveis, intermediários nas vilas entre catadores e grande indústria da reciclagem. A proposta da prefeitura é transformar catadores (e comerciantes em geral) em trabalhadores das unidades de reciclagem dentro das vilas, para aumentar o controle sobre o processo produtivo.

Pode piorar? Sim! Acontece que os trabalhadores nas unidades de reciclagem abastecidas pelos caminhões da prefeitura são organizados de forma a baratear o preço dos materiais para a grande indústria, pois ao monopolizar a coleta e processamento do lixo, sem a existência de intermediários autônomos (catadores e pequenos comerciantes) diminui a pressão por melhores preços pagos pela grande indústria. Aliás, quem já ouviu falar na grande indústria da reciclagem? Não é à toa que ela defende sua invisibilidade... Em Porto Alegre, além das diversas empresas médias, podemos citar o orgulho dos partidos gaúchos (quase sem exceção), a famosa multinacional Gerdau. Sim, é criação das condições clássicas de expansão de um setor em fase inicial no capitalismo: cercamento e busca por controle de um campo de trabalho ainda relativamente autônomo, na tentativa de extrair mais mais-valia sem pagar por direito algum (afinal, são cooperativados). Isso é corroborado por uma intensificação na repressão e a invenção de um crime, qual seja, ser catador e comerciante de lixo. Nenhuma pessoa pode ser pega com cobre nas ruas ou em casa, pois o xilindró está comendo solto.

As conseqüências imediatas mais importantes serão duas: acirramento do confronto entre os trabalhadores mais pobres (lutando por sua autonomia) e o governo, e a queda nos rendimentos daquelas famílias. Novidades históricas nem tão novas assim. Mas o jargão continua valendo: nunca antes na história dessa cidade...


domingo, 26 de abril de 2009

Novos links


Como vocês podem ver, adicionamos dois links que nos encaminham a sítios que divulgam livros na rede. Em ambos existem diversos livros totalmente gratuitos para download, e chamamos a atenção dos historiadores para o livro (demasiado caro) de Cardos e Vainfas, Domínios da história, e de March Bloch, A sociedade feudal, disponíveis no "Viciados em livros", seção "história". Enquanto as editoras brasileiras não praticam uma política de publicação de livros acadêmicos em formatos mais acessíveis ao estudantes sem grana, a solução tem que passar pela divulgação gratuita do conhecimento, considerando a ineficácia das nossas bibliotecas.

sábado, 25 de abril de 2009

"Aos apoiadores e apoiadoras da reforma agrária"


  1. "Nesta quinta-feira (23/04), expirou o prazo determinado pela Justiça Federal para que as famílias do acampamento Jair da Costa, em Nova Santa Rita, se retirem da área cedida onde estão no assentamento Santa Rita Cássia II. A partir de agora, a qualquer momento, as famílias poderão ser despejadas pela Polícia Federal e pela Brigada Militar.
  2. O despejo é uma ação política do Ministério Público Federal e da Justiça Federal. O argumento é de que as famílias estão em uma área de preservação ambiental. Não é verdade. O acampamento está em uma área coletiva do acampamento, cedida para que as famílias fiquem mais seguras do que na beira da estrada, e fora da área de reserva ambiental.
  3. O que o MPF e a Justiça Federal não dizem é para onde estas famílias deveriam ir, já que em ações anteriores do MPF e do Ministério Público Estadual, determinadas pela mesma Justiça, as famílias acampadas no Rio Grande do Sul já foram despejadas inclusive da beira de estradas, como no ano passado, em Coqueiros do Sul.
  4. Ao mesmo tempo, o MPF silencia-se sobre o Termo de Ajuste de Conduta que a própria instituição assinou com o INCRA,há um ano e meio atrás, e que previa o assentamento de 2 mil famílias até o final do ano passado.
  5. Para as famílias que não são assentadas, que não é permitido que seus filhos estudem, não é permitido sequer ficar numa área cedida pelos próprios assentados, uma conquista da luta pela reforma agrária.
  6. Mais uma vez, o poder Judiciário fecham os olhos para a questão social e colocam-se a serviço da criminalização dos movimentos sociais e a serviço de interesses obscuros.
  7. Lamentamos que ao invés de defender o artigo 184 da Constituição Federal – que prevê a desapropriação de latifúndios que não cumprem a função social – a Justiça e o Ministério Público estejam mais interessados em perseguir e criminalizar aqueles que querem a Constituição Federal cumprida.
  8. Pedimos a todos aqueles e aquelas que apóiam a luta pela terra que permaneçam atentos, pois a decisão das famílias acampadas é permanecer na área cedida pelos assentados. E mais uma vez, o poder Judiciário poderá acionar a truculência e a violência policial a serviço do latifúndio e da desigualdade social.

 

Coordenação Estadual MST - RS"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Fim do passe-livre em Porto Alegre


Sim, o Conselho Municipal de Transportes, mostrando seu caráter patronal, vai pedir à Câmara dos Vereadores de Porto Alegre a extinção do passe-livre, que é um dia no mês em que nenhum passageiro paga para utilizar o serviço de ônibus da capital. Esse dia é usado nas campanhas de vacinação, no dia do trabalhador, e outras eventos considerados importantes pela população. A desculpa para arrecadar mais é a suposta "violência" dos pobres. Mas nem a Brigada Militar confirma tal assertiva. Ou seja, mais uma tentativa das empresas de transporte em ganhar mais dinheiro dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que evitam transportar gratuitamente a "ralé" até as zonas que os pobres geralmente não costumam frequentar, já que a passagem é muito cara para sair com a família (R$2,30). Costumo andar de ônibus no dia de passe-livre, e nunca vi um assalto ou afronta a motoristas, pelo contrário. O que se vê são famílias inteiras rumando aos parques da cidade, e um clima de festa dentro dos ônibus.  Querem tirar mais um direito do cidadão pobre de Porto Alegre. A importância desse direito está expressa na letra da música "Passe Livre", do grupo Da Guedes, do bairro Partenon. O clipe foi feito pela gurizada que curte o rap da banda.










terça-feira, 21 de abril de 2009

Divulgação de evento

sexta-feira, 17 de abril de 2009

E uma garrafa de rum...

Ultimamente a mídia corporativa vem denunciando as insistentes ações de "piratas" na costa da Somália. O que aparentemente era uma preocupação típica dos séculos XVII e XVIII retorna no século XXI com histórias de navios piratas, tripulações sanguinárias e uma sede pelo saque e pela pilhagem. No entanto, um artigo do jornal britânico "The Independent" visou mostrar outro lado, debatendo as condições em que surgiram esse fenômeno inusitado de nossos tempos. Traduzimos ele, mas a versão original pode ser encontrada aqui

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Johann Hari: estão mentindo para vocês sobre os piratas

Alguns são claramente apenas gangsters. Mas outros estão tentando impedir o despejo ilegal e a pesca predatória.

Quem iria imaginar que em 2009, os governos ao redor do mundo estariam declarando uma nova guerra contra os piratas? Enquanto você está lendo isso, a Marinha Real Britânica - apoiada por navios de mais de 24 países, que vão dos Estados Unidos à China - estão navegando em águas somalianas para enfrentar homens que nós ainda imaginamos com papagaios nos ombros e como vilões pantomimicos. Eles logo estarão enfrentando navios somalianos e até mesmo perseguindo piratas em terra, em um dos países mais destruídos da Terra. Mas por trás da curiosidade que está presente nessa história, existe um escândalo ainda não contado. As pessoas que nossos governos estão rotulando como "uma das grandes ameaças de nossa época" têm uma história extraordinária a contar - com alguma justiça para o seu lado.

Piratas nunca foram exatamente quem nós pensamos que eles são. Na "era de ouro da pirataria" - de 1650 à 1730 - a idéia do pirata como um irracional e selvagem Barba Negra que paira sobre hoje foi criada pelo governo britânico em um grande esforço propagandístico. Muitas pessoas comuns acreditavam que essa imagem era falsa: piratas eram frequentemente salvos da forca por multidões que lhe apoiavam. Por que? O que eles viam que nós não vemos? Em seu livro "Vilões de todas as nações", o historiador Marcus Rediker aponta para as evidências.

Se você se tornasse um mercador ou um marinheiro naquela época - saído das docas do lado leste de Londres, jovem e faminto - você terminaria em um inferno de madeira flutuante. Você trabalharia todas horas em um navio apertado e famélico, e se você fosse preguiçoso, o todo-poderoso capitão iria lhe chicotar com um gato de nove caudas. Se você fosse preguiçoso com mais freqüência, você seria atirado ao mar. E no final de meses e anos de trabalho, você era constantemente roubado em seu pagamento.

Os piratas eram os primeiros a se rebelar contra esse mundo. Eles se amotinavam - e criavam um jeito diferente de trabalhar nos mares. Assim que conseguiam um navio, os piratas elegiam seu capitão, e faziam todas as decisões coletivamente, sem torturas. Eles dividiam seu saque através do que Rediker chama de "um dos planos mais igualitários de distribuição de recursos a ser encontrado no século XVIII".

Eles até mesmo pegavam escravos africanos fugitivos e tratavam eles como iguais. Os piratas mostravam "com muita clareza - e de forma subversiva - que os navios não precisavam ser comandados através das maneiras brutais e opressivas do serviço mercante e da marinha real." É por isso que eles eram heróis românticos, apesar de serem improdutivos ladrões.

As palavras de um pirata dessa era perdida, um jovem rapaz britânico chamado William Scott, deve ecoar nessa nova era de pirataria. Antes de ser enforcado em Charleston, na Carolina do Sul, ele disse: "O que eu fiz era para evitar a minha morte. Eu fui forçado a uma vida de pirataria para sobreviver". Em 1991, o governo da Somália entrou em colapso. Seus nove milhões de habitantes têm sido ameaçados pela fome desde então - e as forças mais horripilantes do mundo ocidental viram isso como uma grande oportunidade para roubar o suprimento de alimentos do país e jogar lixo nuclear em seus mares.

Sim: lixo nuclear. Assim que o governo caiu, misteriosos navios europeus começaram a aparecer na costa da Somália, jogando uma grande quantidade de barris no oceano. A população costeira começou a adoecer. No início, eles sofreram estranhas alergias, náuseas e deformação de fetos. Então, depois do tsunami de 2005, centenas dos barris jogados ao mar estavam vazando e foram levados até à costa. Pessoas começaram a sofrer de doenças ligadas à radiação e mais de 300 já morreram desde então.

Ahmedou Ould-Abdallah, o enviado da ONU na Somália, afirma: "Alguém está jogando material nuclear aqui. E também chumbo e metais pesados como cádmio e mercúrio - o que você quiser." Muitos deles podem ser ligados aos hospitais e fábricas da Europa, que parecem estar bancando o jeito da máfia italiana de "jogar o lixo fora" de forma barata. Quando eu perguntei ao sr. Ould-Abdallah o que os governos europeus estavam fazendo quanto a isso, ele disse em meio a um suspiro: "Nada. Não houve nenhuma limpeza, nenhuma compensação e nenhuma prevenção".

Ao mesmo tempo, navios europeus têm saqueado os mares somalianos de seus maiores recursos: frutos do mar. Nós destruímos os nossos próprios recursos do mar pela superexploração - e agora nós fomos até o deles. Mais de 300 milhões de dólares de atuns, camarões e lagostas estão sendo roubados a cada ano por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais estão famintos. Mohammed Hussein, um pescador na cidade de Marka, a 100km do sul de Mogadishu, falou à Reuters: "Se nada for feito, em breve não haverá peixe o bastante em nossas águas costeiras".

Esse é o contexto em que emergiram os "piratas". Pescadores somalianos pegaram lanchas para tentar dissuadir os descarregadores de lixo e os pesqueiros, ou ao menos tentar "tributá-los". Eles se chamam de "Guarda-costeira Voluntária da Somália" - e somalianos civis concordam com a idéia. O site de notícias independente da Somália, WardheerNews, afirmou que 70% da população "apóia de forma vêemente a pirataria como uma forma de defesa nacional".

Não, isso não torna os seqüestros justificáveis, e sim, alguns desses piratas são apenas gangsters - especialmente aqueles que saquearam os suprimentos do World Food Programme. Mas em uma entrevista por telefone, um dos líderes piratas, Sugule Ali, disse: "Nós não nos consideramos bandidos do mar. Nós consideramos que os bandidos do mar são aqueles que pescam e jogam lixo ilegalmente nos nossos mares." William Scott entenderia.

Será que nós esperamos que somalianos famintos fiquem passivos em suas praias, remexendo em nosso lixo tóxico, e nos vendo roubar o peixe deles para comermos nos restaurantes de Paris, Londres e Roma? Nós não vamos agir contra esses crimes - a única solução sã para esse problema - mas quando alguns dos pescadores respondem com a interrupção do corredor de transporte de 20% do suprimento mundial de petróleo, nós rapidamente mandamos navios de guerra.

A história da guerra contra a pirataria em 2009 foi melhor resumida por outro pirata, que viveu e morreu no século IV a.C. Ele foi capturado e trazido diante de Alexandre, o Grande, que exigiu saber "o que ele queria dizer com manter a posse do mar". O pirata sorriu e respondeu: "A mesma coisa que você quer dizer quando fala em possuir toda a terra; mas porque eu o faço em uma barcaça, eu sou chamado de ladrão, enquanto você, que o faz com uma grande frota, é chamado de imperador." Mais uma vez, nossa grandiosa frota imperial navega - mas quem é o ladrão aqui?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A culpa é de quem mesmo?

A atual greve dos ferroviários na capital do Rio de Janeiro vem sendo conduzida a partir de uma demanda peculiar: os condutores, ao se sentirem responsáveis pelo tranporte de milhares de trabalhadores cotidianamente, vem reivindicando por um ano junto à companhia administradora das linhas de trem (Supervia) uma maior atenção à manutenção dos equipamentos de trabalho, para evitar os recorrentes acidentes com os trens, que vem matando trabalhadores nos últimos anos. Note-se: não é uma pauta econômica "egoísta", de uma classe privilegiada, que não se preocupa com as outras categorias de trabalhadores. Na verdade, como a greve é uma forma legítima de reivindicação e talvez uma das únicas de maneiras de manifestação garantidas pela constituição brasileira, não se pode cobrar dos ferroviários a volta ao trabalho, principalmente depois de um ano de atuação junto ao patronato na tentativa (infrutífera) de convencimento da necessidade de maior manutenção e segurança caros ao sistema de trens. As vítimas dos acidentes não são apenas os condutores, mas também os passageiros, que tem andado amontoados nas famosas latas de sardinha gigantes.

Acontece que hoje, em virtude da maior lotação dos vagões, os seguranças da Supervia e a polícia militar do Estado estiveram praticando um exercício que lembra aqueles filmes que deixam qualquer pessoa chocada, quando apresentam judeus (e outros) sendo jogados dentro dos vagões pelos guardas responsáveis pelo bom funcionamento das linhas que os levavam aos campos de concentração na década de 1940. A semelhança entre os eventos se dá, para além do ato da violência de Estado, característica no desrespeito aos direitos do ser humano, sobre um elemento que não pode ser esquecido: ambos grupos são embarcados disciplinarmente para se dirigirem aos seus locais de trabalho. Acontece que sob o regime nazista, a atrocidade era garantida pela lei de um Estado tirano, o que não tem respaldo na nossa constituição. A pergunta que fica: como os seguranças de uma tranportadora (com direito a exploração de um serviço público) com o suporte da polícia militar chegam à conclusão que tem o direito de empurrar, socar, chutar e chicotear os trabalhadores que não aceitam ser amontoados em um vagão superlotado?



Não estamos sendo paranóicos; não dizemos que o nazismo brasileiro está a caminho (embora no Rio Grande do Sul...). Estamos aproximando os casos naquilo que está por trás de qualquer ato violento contra os trabalhadores: discipliná-los a todo custo, para que façam o que o governo e a elite quer que eles façam. Claro que alguns setores da imprensa dizem que a culpa é dos ferroviários, que criam um estado de tensão sobre trabalhadores e seguranças. Mas essa análise é míope, e pretende identificar a origem do problema na sua conseqüência. A origem do problema é a tentativa de manutenção de uma ordem social que tenta tirar o máximo possível de trabalho de um grande grupo de despossuídos para acumular o máximo possível de capital na mão daqueles que já possuem o monopólio da riqueza no país. As políticas de tranporte, criadas de cima para baixo, só buscam atendar aos anseios dos trabalhadores dentro de limites bem específicos, e quando estes limites são rompidos por circunstâncias efêmeras como greves de condutores, a culpa é prontamente identificada naqueles que quebraram a harmonia social artificialmente construída. Os grande prejudicados são sempre os trabalhadores, mas a culpa jamais é sua, como querem fazer-nos acreditar. Todo apoio à greve dos trabalhadores ferroviários do Rio de Janeiro! Abaixo à disciplina do trabalho explorador!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quando a história está em disputa, fico com a verdade


A briga entre setores do jornalismo brasileiro tem produzido efeitos interessantes: o debate sobre o apoio de corporações aos regimes ditatoriais brasileiros e todos seus atos truculentos contra os direitos humanos. Nesse episódio, o Jornal da Record (da Igreja Universal, maior desafeto da Folha de São Paulo atualmente) traz uma reportagem especial sobre o apoio da Folha da Tarde, hoje Folha de São Paulo, às práticas da ditadura brasileira inaugurada em 1964. Toda essa movimentação foi inaugurada por um recente editorial da Folha que qualificou os regimes brasileiros como "ditabranda", em comparação aos semelhantes em outros países latino-americanos. Achamos que a Folha inventou uma nova máquina, uma espécie de ditadômetro, no qual são inseridas os dados sobre número de mortos, de torturados, a área do país... tal equação deve gerar um adjetivo para tais regimes, de acordo com os critérios da tal máquina. Afinal, o editoral da Folha tem usado critérios de comparação para afirmar que no Brasil se sofreu menos, como se sofrimento fosse passível de medição estatística. Eis a história em disputa. E a nossa inteligência também.


terça-feira, 14 de abril de 2009

Ministério Público dá um passo atrás

Apesar do comprometimento do MP gaúcho com os deputados estaduais e federais de revisar a anulação do convênio entre o governo do Estado e o MST, nesta manhã a Brigada Militar e a Polícia Rodoviária Federal, com suporte de um helicóptero(!), levaram os representantes do Conselho Tutelar a um acampamento na cidade de Sarandi. Lá, identificaram 36 crianças que, segundo o termo de ajustamento entre o MP e o executivo, deveriam estar matriculadas na rede convencional de ensino. Não vamos retomar todo o debate sobre as escolas itinerantes, que já realizamos em outra oportunidade (veja aqui). Mas é preciso ressaltar que aquelas crianças acampadas estavam sim tendo aulas normalmente, com o auxílio de educadores voluntários, em decorrência do corte da verba do governo gaúcho para manutenção do convênio. Acontece que esse governo não tem aceitado os dados de freqüência daqueles alunos na sua Secretaria de Educação, o que evidencia o caráter de confronto abertamente ideológico contra o MST e a sua autonomia educacional. O que está em jogo, vale ressaltar, é a conquista das mentes daquelas crianças.  É impossível ficarmos ao lado do Estado, que pretende divulgar uma forma de educação que acaba por afastar pais e filhos a partir da formulação de pontos de vista totalmente diferentes sobre a mesma realidade. Onde o pai e a mãe, alimentados pelas suas experiências de vida, identificam exploração, o Estado diz ao filho que ele deve se adaptar, naturalizando a sociedade de classes. Estamos no aguardo da prometida revisão do MP gaúcho sobre o convênio das escolas itinerantes. Até lá, vamos ver a governadora Yeda Cruisius tirando dinheiro da educação e saúde para manter centenas de policiais cercando os acampamentos dos mais pobres do Estado.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Curtas e boas

(o capitalismo não está funcionando)


Luta de classes nas ruas

Na última semana, Inglaterra e França, alguns dos grandes centros financeiros europeus, foram abalados por protestos de grupos anticapitalistas. Londres foi sacudida por protestos contra a reunião do G20, sendo que hoje mesmo foi divulgado um vídeo que mostra a violência policial contra um vendedor de jornais que veio a falecer logo depois: detalhes de que o jornaleiro não era manifestante, mas nem por isso escapou da brutalidade policial.

Já na França, Strasburgo ia ser sede de encontro da OTAN. Mas a cidade foi surpreendida por uma série de protestos de grupos anticapitalistas que acabaram entrando em confronto com uma força policial de 25 mil unidades conjuntas entre policiais frances e alemães. Ironicamente, a última vez que franceses e alemães se aliaram foi para enfrentar a Comuna de Paris, em 1871.

Edukators fazendo escola

Ainda falando da França, pelo visto a nova onda por lá é o seqüestro de donos de fábricas e reitores de universidades. Os seqüestros são feitos com o intuito de negociar tanto programas de demissão como projetos de privatização do ensino. Diante da ineficácia de uma série de medidas que envolvem a paralisação do trabalho, os seqüestros (chamados de "boss-napping") revelam-se como ações não-violentas e alternativas para forçar uma negociação entre as forças do trabalho e do capital.

No mês passado já haviamos comentado que os franceses estavam na vanguarda desses novos métodos de negociação. Ah, esses gauleses irredutíveis!

Aqui se faz, aqui se paga

O ditador peruano, Alberto Fujimori, foi condenado à 25 anos de prisão (pena máxima no Peru) por crimes de violação aos direitos humanos. Fujimori foi considerado culpado dos crimes de homicídio qualificado, assassinato com traição, lesões graves e seqüestro pelos massacres de Barrios Alto e La Cantuta, que deixaram 25 mortos em 1991 e 1992. Ele também foi condenado pelo seqüestro de um jornalista e de um empresário em 1992.

Fujimori ainda não foi julgado por suas reformas econômicas que visavam a implementação da economia de "choque" no país, que resultaram em massivo desemprego e repressão sindical. Mas já é um começo.

Desfechando

Comentamos aqui no blog a questão das escolas itinerantes do MST, que estavam sendo ameaçadas de fechamento pela ação do procurador do Ministério Público, Gilberto Thums. Pois ontem mesmo o plenarinho da Assembléia Legislativa recebeu uma série de crianças que estudavam nas escolas itinerantes, que vieram até a capital solicitar a reabertura das escolas. O resultado foi positivo e o presidente da Comissão de Educação da Assembléia, o deputado Mano Changes (PP), reconheceu a possibilidade de revisão da medida.

Sobre a derrota sofrida, o procurador Gilberto Thums declarou: "Mexer com esse pessoal [o MST] é colocar a mão num vespeiro, e estou colocando a mão sozinho. As escolas mexem no centro nevrálgico do movimento. É suicida a posição de quem luta contra. Só vão lembrar do meu nome no dia em que o país pegar fogo." Só faltou o nobre procurador dizer que a história o absolverá. O choro é livre.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Marxismo e o século XXI

A revista Carta Maior vem lançar uma iniciativa bem importante nos dias de hoje. Abrindo com a pergunta "o que Marx tem a nos dizer sobre o século XXI", a proposta é iniciar uma série de debates virtuais sobre o marxismo num veículo de imprensa da esquerda. A idéia é interessantíssima e, dentro da medida do possível, vamos tentar reproduzir alguns dos principais textos para poder divulgá-los ainda mais na net.

O primeiro texto do debate é do sociólogo Chico de Oliveira e é uma excelente concepção de como o marxismo é algo vivo e propício ao debate. A defesa de que ele deve se demonstrar "dialético e dialógico", que supere suas contradições na troca de idéias e que se coloque além dos muros da academia é uma proposta bastante rica. Para quem tiver interesse, fica o texto na íntegra:

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O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta, numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol. Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia, tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente. 

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer, antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo poder, com seus dirigentes que se transformaram emcondotiere mundiais, Lênin e Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo, talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política. Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o “pequeno grande sardo” é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais. 

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia – o que, infelizmente, ocorre hoje – Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria – o “compromisso histórico” – com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar, marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do georgiano – que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição do próprio Marx e dos frankfurtianos de que “progresso e barbárie” sempre formaram na história universal uma terrível unidade. 

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o “marxismo soviético” (a expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que cedo viu a “degeneração burocrática” do Partido, e a também ainda mais precoce crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes – nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson para o que ele chamou de “marxismo ocidental”, a combinação da desestruturação produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus partidos social-democratas e comunistas; o “marxismo ocidental” descolou a reflexão teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo assim, na universidade, que apenas durante um curto período – uns 40 anos , se tanto – abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu. 

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões- antes o “ópio do povo”, da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade – os frankfurtianos – da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu “americanismo e fordismo”. Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ? O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse “no calor da hora” não honrou muito as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à dominância financeira. E que mais ? 

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil, às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido. Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe. Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em suma, um marxismo dialógico e dialético.