quinta-feira, 2 de julho de 2009

Globalização: muros para controlar a exploração

Não estamos falando dos muros da Guerra-Fria, como o vergonhoso berlinense ou o ainda tenso coreano. Estamos a falar de um tipo especial de muros e cercas, aqueles construídos para barrar a imigração em massa dos trabalhadores dos países pobres em direção aos vizinhos argentários. Mas onde existem esses tipos de muros? Será que os Estados Unidos tem o monopólio dessa prática explícita (pois há formas mais discretas de conter aquele avanço, embora sempre acompanhadas por ações ostensivas das guardas de fronteiras) com o difamado "Muro da Vergonha" que lhe separa do México desde 1994? Ou divide a honra de país xenófobo apenas com Israel e seu muro contra a Cisjordânia? Vejamos.

A democrática Espanha é famosa pela utilização de força de trabalho imigrante nas suas atividades mais mal pagas. Mesmo assim, se a imigração ilegal é aceita em certo nível para cumprir essa tarefa, existem duas belas obras arquitetônicas separando seus postos de trabalho dos africanos. São as cidades muradas que se localizam ao norte da África, no trecho mais próximo a Gibraltar: Ceuta e Melilla. Na primeira cidade, o governo espanhol (com o apoio do marroquino) pretende aumentar de 3 para 6 metros de altura tal construção, para barrar as tentativas de imigração em massa que vem ocorrendo desde os anos 2000. Em Melilla, alambrados e barras de aço vão ajudar a compor a muralha.

Mas a opção por muros anti-pobres não é apenas reflexo do racismo e dos privilégios europeus. Dentro do mundo árabe fomos apresentados hoje ao projeto da Arábia Saudita de cercar todo o país (incluindo suas águas) em seus nove mil quilômetros! Claro, com toda a parafernália eletrônica compondo o quadro (aviões, satélites, sensores etc). A desculpa é que o país quer barrar os terroristas da Al-Qaeda. Isso tem cheiro de defesa do reino sagrado contra os bárbaros do leste, no melhor estilo dos reis medievais ocidentais com medo das hordas húngaras. Mas cumpre uma função fundamental para a política imigratória do país: fazendo suas entradas atuarem como funis, onde se pode selecionar os trabalhadores que se quer importar (os mais qualificados que aceitam ganhar menos que os nativos, como indianos), utiliza-se da força contra aqueles que são indesejados.

No mais, os riscos para a vida do trabalhadores que tentam adentrar de forma ilegal na Arábia ficam próximos ao que correm os "chicanos" tentando penetrar o sul estadunidense em busca de trabalho e salários dignos. Na ótica dos clandestinos, fronteira abandonada é melhor do que fronteira com a presença do Estado, que fecha os olhos para qualquer política de humanitarismo nesses casos. Na verdade, para o imigrante passar do estatuto de clandestino a desaparecido, basta o Estado se fazer presente.



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