quinta-feira, 11 de junho de 2009

A trajetória na lata do lixo




O governador de São Paulo, José Serra, passou dos limites. A pedido da reitora da Universidade de São Paulo, Suely Villela, o líder do executivo paulista mandou a Polícia Militar para atacar e vigiar os estudantes e funcionários, que exigem a saída da reitora, a democracia na universidade, o reajuste salarial dos técnicos e a readmissão de uma das lideranças sindicais do Sintusp.

Quem acompanhou os telejornais essa semana, viu cenas extremamente chocantes. A repressão foi feita contra estudantes e funcionários, cidadãos legítimos e que possuem o direito de protestar garantido de forma constitucional. Em nenhum momento os manifestantes usaram de violência física, como pode ser visto em diversas filmagens que foram lançadas na internet. Os PMs lançaram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, além de baterem de cacetete em qualquer manifestante que estivesse pela frente. Como não bastasse, ainda atiraram balas de borracha contra eles.

A grande imprensa, como não podia deixar de ser, atacou os manifestantes. Afinal, 2010 é ano eleitoral e o governador José Serra é o provável candidato pelo Partido Social Democrata Brasileiro. Ele não pode estar errado. Logo, eram os manifestantes que estavam errados. O irônico é que alguns dos argumentos partem de um princípio delicado: alegam que os estudantes não estão mais na ditadura e não podem fazer "baderna" para reivindicarem seus direitos. Ora, quer dizer que "baderna" só pode ser feita quando não há democracia para lutarmos pelos nossos direitos!? Seria risível se fosse apenas uma piada de mal gosto.

O que mais choca nessa história toda é que há um silêncio constrangedor na imprensa sobre a súbita (que nem é tão súbita assim) mudança de trajetória de José Serra. Durante a ditadura, ele estava lá, fazendo "baderna" para defender os direitos dos estudantes, como líder da Ação Popular, movimento político de tendência socialista. Agora, quando podemos viver em uma democracia - com todas as suas limitações - ele manda a Polícia Militar de seu estado invadir uma universidade para intimidar estudantes com o uso da violência física. Não há aí alguma espécie de paradoxo? Nenhum dilema moral? Nem sequer mesmo uma "nostalgia" quanto a um passado de lutas que de repente se torna um passado de repressão?

É constrangedor que um sujeito como José Serra seja tão defendido como candidato à presidência pelos grandes canais de mídia. Diante da virada política que dá a sua trajetória, o caso da USP foi o "coup de grace", o golpe de misericórdia, para quem nutria a esperança de um governo PSDBista pautado pela democracia e pelo respeito. Nesse momento, o senhor José Serra está muito próximo de figuras asquerosas da nossa política, como o deputado federal do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro. O que os diferencia é apenas uma questão de trajetória. Bolsonaro sempre foi coerente com o proto-fascista que o sustenta como político. E para José Serra, o que falta nesse momento é exatamente coerência com o seu passado político.

P. S: Ironia, a mãe da história. No último dia 4 de junho, a imprensa brasileira lembrou dos 20 anos do massacre de estudantes chineses na Praça da Paz Celestial. Mas no Brasil eles são apenas baderneiros. Casa de ferreiro, espeto de pau?

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