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Paralelo 38 e guerra nuclear. Por um bom tempo acreditamos que essas palavras faziam parte de um vocabulário retrógrado, que insistia em estudar um tempo onde as dicotomias estavam na moda. Nessa última semana, movidos por um sentimento de nostalgia dos velhos tempos de Guerra Fria, a mídia de todo mundo anunciava que o governo da Coréia do Norte não apenas estava testando seus mísseis de curto alcance (o chamado Taepodong 2), mas que estava ameaçando qualquer país ou organização que contestasse seu direito soberano de “defesa”. Incluindo aí a ONU e, é claro, a Coréia do Sul.
Mas como que se deu essa mudança no panorama político mundial, onde os norte-coreanos agora são uma ameaça bélica para a região? Na verdade, fazer essa pergunta significa tentar entender um pouco da Coréia do Norte, algo que é bastante difícil tendo em vista que em parte eles são considerados um mero “resquício do socialismo autoritário” por parte dos grandes canais de comunicação e em parte porque o país possui uma ideologia oficial que, entre outras coisas, é extremamente anti-ocidental.
Para quem não conhece, fica uma pequena síntese sobre a ideologia oficial de Kim Il-Sung e de seu filho, Kim Dong-Il, o juchismo. O termo “Juche” significa, literalmente, “sujeito”, mas que no sentido que ele é proposto, está ligado a uma tradução aproximada de “espírito de auto-confiança”. A sua criação foi uma conseqüência do processo de desestalinização dos coreanos, em que o governo de Kim Il-Sung passou a criticar duramente a ideologia marxista-leninista soviética. A partir daí, com o agravamento das relações entre China e União Soviética nos anos 1960, os norte-coreanos passaram a assumir a ideologia “Juche” como a verdadeira ideologia oficial do país, sendo ela apoiada em três princípios: independência política, economia auto-sustentável e capacidade de auto-defesa no plano militar. Desses três pontos, o último certamente é o mais importante.
Segundo a ideologia Juche, o socialismo é algo que tem de ser construído de acordo com as particularidades de cada país. Isso significa dizer que no caso da Coréia do Norte, a vanguarda política não se concentra no operariado, no campesinato, ou na pequena-burguesia, mas sim em setores do exército (algo que foi oficializado somente na década de 1990, mas que era realidade já nos anos 70). Compreendendo-o como uma “classe social” distinta e esclarecida, a ideologia Juche considera que são os militares os verdadeiros revolucionários norte-coreanos, numa espécie de elogio à força bélica. Dessa forma, se congratula o governo pela sua luta contra os sul-coreanos de 1950 à 1953 e se enaltece a dinastia Kim, que não apenas realiza um grandioso esforço de culto a imagem como inclusive defende um calendário próprio do país (cujo marco inaugural é o nascimento de Kim Il-Sung).
De fato, esse pequeno contexto já indica quais são os dois principais gastos do regime norte-coreano: assuntos militares e propaganda. E a partir daí, tudo pode ser esperado. Até certo ponto, a comparação com outras ditaduras é extremamente pertinente e partidos “socialistas” que acreditam no caráter democrático da Coréia do Norte acabam devendo uma explicação sobre como uma sociedade cuja ideologia oficial prega uma hierarquia tal de posições consegue ser democrática.
Mas tal situação não explica o porque da Coréia do Norte simplesmente começar a se armar militarmente para uma ofensiva contra alguns de seus vizinhos, sendo que a Coréia do Sul seria seu alvo preferencial. O armistício de 1953 vigorava até semana passada sem que os países decidissem rompê-lo, tendo em vista que os custos humanos poderiam ser alarmantes, sem contar que Estados Unidos e União Soviética estavam prestes a inaugurarem uma guerra nuclear sem precedentes se o conflito continuasse. De certa forma, o armistício coreano foi uma das maiores vitórias diplomáticas no pós-guerra...ironicamente sem conseguir terminar esse que foi o primeiro grande conflito da Guerra Fria.
A partir de então, o governo norte-coreano aproximou-se ainda mais da China, até que nos anos 70, com as reformas econômicas de Deng Xiaoping, o país partiu para um processo de isolamento político considerável. Não bastasse que os vizinhos chineses mergulhassem de cabeça em seu “socialismo de mercado”, o bloco da Europa Oriental começava a estagnar em seus índices econômicos, preparando a desestruturação do socialismo nos anos 80. E, exatamente na década de 1980, seus inimigos históricos do sul começaram um grandioso programa de reforma neoliberal com uma forte dose de autoritarismo, que permitiu que a Coréia do Sul atingisse um patamar de desenvolvimento econômico surpreendente, ainda que com fortes custos humanos. Enquanto isso, os norte-coreanos viam seus índices econômicos afundarem cada vez mais, presos em uma recessão violenta. Em suma, a situação dos norte-coreanos era de um isolamento cada vez maior.
Há ainda outro fator que contribuiu para o isolamento do país. Nos anos 80, a política externa da era Reagan era marcada por um anticomunismo (e, de certa forma, um “antiterceiro-mundismo”) radical. Poucas foram as nações atacadas por uma retórica violenta, o que, no caso da Coréia do Norte, custou-lhe constante proibições de participarem das Nações Unidas. Somente em 1991, com a queda da União Soviética concretizada, é que as duas Coréia puderam entrar na ONU, com direito de assento e voz. Os anos 90, com a morte de Kim Il-Sung e com a tomada de poder por seu filho, Kim Dong-Il, foram marcados por significativas tentativas de tentar aproximar os dois países.
Entretanto, tudo mudou com a chegada de George W. Bush no poder, em 2000. Com a política de “atire primeiro, pergunte depois” o seu governo inaugurou o termo “eixo do mal” na política externa, incluindo aí a própria Coréia do Norte. Não apenas isso, mas foi um governo que aumentou ainda mais as restrições aos desenvolvimentos de pesquisa nucleares e incentivou as sanções contra potências que não abandonassem seus programas. E, mais do que isso, a política externa ianque ganhou adeptos na diplomacia sul-coreana, que passou a ingressar nesses programas, exigindo maiores sanções contra seu vizinho do norte.
Num governo altamente militarizado, onde os gastos com exército e propaganda são cada vez maiores, sanções diplomáticas nunca são bem-vindas. Mas talvez exista algo mais na tentativa dos norte-coreanos de forçar uma diplomacia nuclear. Ao que tudo indica, há uma série de alternativas:
1) A Coréia do Norte vem sentindo o impacto do empobrecimento constante do povo e, temendo qualquer iniciativa popular (como uma tentativa de derrubada, ou mesmo fluxos migratórios para a China ou para a Coréia do Sul) busca estimular o nacionalismo com medidas militares.
2) Arrasado economicamente, o país estimula uma produção militar para tentar recuperar-se de uma longa e penosa recessão, onde uma das principais fontes de renda é a ajuda de custo chinesa.
3) Diante de um governo prestes a cair, pretende negociar a sua manutenção no poder com uma retórica militarista e agressiva contra outras nações, pretendendo com isso manter-se no poder pela ameaça.
4) Supondo que o governo esteja forte e estável, pretende estimular a sua economia criando novos mercados pela ameaça nuclear. Isso lhes garante um lugar privilegiado para discutir as sanções econômicas que lhe foram impostas.
Em todas essas possibilidades, está circunscrita a idéia de que a economia norte-coreana vem passando por sérios problemas, como indicam relatórios da Anistia Internacional feitos a partir de dados de refugiados. Mas cabe dizer que as quatro alternativas, é claro, se baseiam numa lógica onde imperaria o bom senso. Porém, diante de uma situação onde esse termo é completamente desprovido de sentido, não tem como pensarmos que “bom senso” faça parte desse panorama político. Nunca foi tão fácil estar equivocado sobre os rumos do mundo ao confiar nessa palavra tão capciosa quando se trata de discutir assuntos como ameaças nucleares.
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