
Caros leitores, tenho uma coisa para lhes falar: teve eleições para o Senado no Haiti no último dia 21 de junho. Curiosamente, não sabemos nada sobre essas eleições (e nós fazemos aqui a nossa mea culpa). Os noticiários e a internet estão marcados por longas análises sobre as eleições no Irã e o perigo/desejo de uma revolução estar sendo engendrada pelos opositores do regime teocrático. No meio dessa confusão, Michael Jackson e Farrah Fawcett morreram. A gripe suína se alastra pelo Brasil. A seleção venceu a Copa das Confederações. Mas nada se disse sobre o Haiti.
Não é de agora que existe um silêncio constrangedor sobre a pequena nação caribenha. As revoltas ocorridas após o golpe de Estado que derrubou o presidente progressista do país, Jean Baptiste Aristide, em 2004, foram o auge de divulgação sobre o Haiti nos últimos anos na mídia internacional. No caso brasileiro, as notícias duraram um pouco mais tendo em vista a ação militar brasileira pela ONU, buscando pacificar o país. Algumas vezes fazendo-o de formas brutais e a serviço de setores da elite haitiana, diga-se de passagem.
Mas por que olhar para o Haiti dessa vez? Bom, o principal motivo é a campanha de boicote que teve início nessas eleições. Chamada de "operação portas fechadas 2" por militantes do partido Fanmi Lavalas (antigo partido de Aristide), a campanha foi organizada diante do impedimento eleitoral imposto pelo atual presidente do país, René Preval, à sigla do Lavalas. O resultado do boicote foi impressionante. A primeira etapa da eleição senatorial, ocorrida em abril, teve índice de participação de 11,3%. Ainda que sem números exatos, todos analistas políticos concordam: a eleição de 21 de junho foi o maior boicote sofrido em um regime democrático. De fato, as fotos impressionam, mostrando urnas com 10, 6 e até mesmo 4 cédulas apenas nos distritos eleitorais da capital, Porto Príncipe.
Mas o motivo do boicote não está ligado somente à ilegalidade do Fanmi Lavalas. O que se comenta em sites como o Haiti Action, é que o principal motivo da campanha do boicote está ligado à intensa repressão exercida pelos soldados brasileiros no país. Segundo a matéria do site, em 18 de junho, ocorreu um incidente trágico no funeral de um padre católico ligado ao Lavalas chamado Gerard Jean-Juste. Segundo testemunhas, os soldados da missão da ONU abriram fogo contra o cortejo, depois de tentarem prender um dos membros da multidão e mataram um manifestante. As Nações Unidas, por sua vez, alegam que não houve troca de tiros e que a razão das mortes pode ser decorrente de uma pedra atirada pelos manifestantes, ainda que se saiba que constantemente os soldados brasileiros são chamados para impedir com o uso de força qualquer forma de reunião coletiva. De fato, as histórias sobre a presença brasileira no Haiti ainda são muito mal contadas por aqui, mesmo diante do suicídio do general que estava comandando a missão no país, Urano Teixeira da Matta, em janeiro de 2006.
O boicote acaba também servindo para frustrar as tentativas de restauração da democracia no país pelos mesmos que apoiaram a sua derrubada. A magnitude do investimento das eleições haitianas não é pequeno. Segundo notícia da agência Pacific Free Press, a administração Obama injetou uma boa quantidade de capital na eleição, onde se estima que o custo do processo é de cerca de 17 milhões de dólares. Um número bastante significativo para um país cujo salário mínimo é cerca de 2 dólares por dia. Ainda assim, as autoridades dos EUA e do Brasil, presentes diante do processo eleitoral, afirmaram que o resultado é positivo e não reconheceram o boicote.
O Haiti continua não sendo aqui, mas é possível escutá-lo de alguma forma. Ele se faz escutar através de um silêncio ensurdecedor, proferido por uma imprensa submissa e sensacionalista, que sabe escolher muito bem seus inimigos e seus amigos.
0 comentários:
Postar um comentário