
(cena de "Quem quer ser um milionário?", 2008)
Azharuddin Mohammed Ismail, ator de Bollywood (a versão indiana da parente estadunidense) no filme vencedor de oito Oscar este ano, sentiu na pele o abuso da vida imitando a arte. Tal como alguns policiais brasileiros encantados com a sanguinolência do polêmico Tropa de Elite, a polícia de Mumbai literalemente baixou o sarrafo na família do jovem ator, como se fosse inspirada pelo sucesso cinematográfico indiano. Além do mais, o barraco de sua família foi destruído em nome do direito do Estado de expulsar aqueles invasores das terras públicas. Além dos abusos do Estado, que falam por si, uma questão que fica latente é a seguinte: qual a perspectiva de elevação social dos trabalhadores indianos mais pobres, se nem o mundialmente famoso ator conseguiu deixar para trás o status de favelado?
A Índia tem apresentado algumas novidades empresariais, que dedicam atenção à satisfação de consumo e moradia para as famílias mais pobres do países em desenvolvimento. A Tata Motors lançou um carro que sai por menos de U$ 2.000, enquanto planeja resolver parte do problema da casa própria (claro, com enorme lucratividade) com sua residência minúscula ao custo de cerca de R$ 16.000 (ou U$ 9.000). Seja como for, parece que o horizonte dos "favelados" indianos não parece muito colorido, e certamente muito apertado.
Na verdade, é de se pensar como os chamados países em desenvolvimento conseguem crescer em momento de crise internacional especialmente no centro do sistema. Brasil e Índia compartilham mais do que aspirações na ONU, na conquista do espaço e no mundo do arsenal nuclear. As enormes "favelas" (se nos permitem o imperialismo semântico carioca) dos dois países são instituições estruturadas há anos, e por anos prometem existir. Que há de interessante ao capitalismo emergente nisso?
O fato de que os trabalhadores que as habitam não estão desocupados, embora possam aparecer nas estatísticas como formalmente desempregados. Eles ocupam uma função imporante dentro do sistema. Os variados bicos de parte dos trabalhadores constituem real função de circulação de mercadorias produzidas pelo capital, que precisa pagar apenas pela parte produtiva, já que há uma massa de pessoas não pagas que faz o serviço do comércio daqueles produtos. Além do mais, cumprem uma função (no inchado setor dos serviços, que pipoca nas favelas) de manutenção barata da força de trabalho daqueles países. Encarando uma obra pro vizinho aqui, construindo um salão de beleza ali, ou uma lan-house, uma pizzaria... tudo com preços módicos, acessível a grande parte dos trabalhadores.
Além do mais, a ocupação dos espaços públicos baldios nas cidades através da modalidade da autoconstrução (ver o texto de Chico de Oliveira aqui), abraça a mesma causa do capital: barateamente do custo de reprodução da força de trabalho. Embora os governos atuem na limpeza de algumas áreas centrais nas cidades, em geral o aparente caos das favelas é apenas a forma da coisa: a ordem é o caos das periferias, necessidade do capital emergente baseado em baixos custos produtivos. Por mais que nós, de classe média (não sabemos bem o que isso quer dizer), ressaltemos as belezas das favelas, em um encantamento quase idílico com aquela paisagem de gente comum sendo supostamente feliz, não somos autorizados a pensar que aquele mundo é uma maravilha; pelo contrário.
No Brasil o termo slumdog ganhou uma tradução no título do filme como oportunidade aberta de ascensão social. Somos alimentados pelo mito do favelado que deu certo, seja jogando futebol ou cantando, sobrando ainda algum espaço para certos artistas emergentes. Não sejamos míopes: são ocupações profissionais para um número reduzidíssimo de trabalhadores, sendo que o grosso tem de encarar as tradicionais profissões enquandrada no termo mais geral de operário.
Em todo caso, o que o caso do menino indiano revela, é a marcação da estrutura excludente do capitalismo dos países emergentes, na qual a audácia da elevação social é retratada como abuso que merece castigo, figura central do roteiro de "Quem quer ser um milionário?". A questão chave é essa: como os poderes públicos utilizam uma alegoria (na forma de filme) para tentar reforçar o lugar de pertencimento social dos grupos de trabalhadores considerados inferiores? Se a vida imita a arte, os pés pelas mãos foram trocados, e a audácia dos pobres se torna imediatamente seu vício, sua punição.
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