sexta-feira, 15 de maio de 2009

O duplo caráter da utopia


- (...) E depois foi necessário ver morrer. Sabe que há pessoas que se recusam a morrer? Já ouviu alguma vez uma mulher gritar “Nunca!” no momento da morte? Eu já. E descobri então que não conseguia me habituar. Era novo, nesse tempo, e minha repugnância julgava dirigir-se à própria ordem do mundo. Depois tornei-me mais modesto. Simplesmente, não me habituei a ver morrer. Não sei mais nada. Mas, afinal... – Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Sentia a boca seca.
- Afinal?... – perguntou suavemente Tarrou.
- Afinal... – continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com atenção. – É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim – concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitórias serão sempre efêmeras; mais nada.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
(Albert Camus, “A Peste”, p. 92-93)

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Em palestra recente no ciclo de debates sobre a “Condição Humana”, o professor de Literatura Comparada e Teoria Literária da UFRJ, João Camillo Penna, lançou um questionamento pertinente sobre a noção de utopia a partir do projeto literário de Thomas Morus, no século XVI. A palestra foi interessante, mas a pergunta que ficou no ar de fato foi a seguinte: afinal, se um projeto de utopia se inscreve como a “organização social mais adequada à natureza humana”, o que fazer quando indivíduos negam essa suposta natureza?

A pergunta não é ingênua e tampouco é uma novidade. No romance “Memórias do subsolo”, o escritor russo Fiodor Dostoievski já lançava questionamento semelhante, criticando a metáfora do “palácio de cristal”, do escritor russo Turgueniev. Para Dostoievski, o “palácio de cristal”, em que tudo se vê e onde se pode ser visto em todos os ângulos, é o maior pesadelo da humanidade. Vigiados constantemente e cobrados para agirem racionalmente, os homens não poderiam agir de forma “irracional”, por pura e simples “vontade”. Em suma, o russo advertia os utópicos de seu tempo: o que vocês farão diante de seres humanos que não se comportam como “naturais”, ou “irracionais”?

Esse é o dilema da obra literária de Morus, é verdade, ainda que transfigurado de outra forma, mas reapropriado pelo marxismo ao longo dos últimos séculos. Concebendo uma natureza humana ligada ao trabalho, a ilha de Utopia que Thomas Morus concebe exige um grupo específico de humanos para vigiar todos os habitantes para garantir que eles sempre estarão trabalhando. A necessidade de vigilância e de controle coloca a Utopia como uma complexa construção onde o ócio é proibido, pois ele contraria a noção de Morus sobre a humanidade, reforçada pelo trabalho. Qualquer semelhança com a proposta política do marxismo não é mera coincidência... O paradoxo de Morus é, em certa medida, transferido para Marx. 

Diante de suas especulações sobre uma sociedade sem divisão do trabalho, onde o homem seria livre para caçar de manhã, cuidar da horta à tarde e escrever poesia durante a noite, a visão de uma sociedade futura após o capitalismo ganha esse tom radicalmente libertário no filósofo alemão. Entretanto, a grande pergunta que se poderia colocar é: o que fazer com o trabalho de baixa qualificação que não estimula a criatividade humana e que a aliena? Conta-se, em forma de anedota, que em um debate na Primeira Internacional, Marx repetia seu argumento sobre a sociedade comunista quando um opositor lhe perguntou, em tom arrogante: “E quem irá engraxar os sapatos?” O filósofo alemão então teria lhe respondido com veemência: “Você!”

Por mais divertida que seja a anedota, o problema da utopia persiste até certo ponto. Numa sociedade ideal, sem divisão do trabalho alguma, quais serão as formas de coagir os homens a trabalharem conforme as suas possibilidades? É certo que possibilidade e vontade não podem se confundir e, portanto, não se pode cair na resposta ingênua de que a superação dos problemas colocados depende apenas da possibilidade deles desaparecerem. Da mesma forma que se afirma constantemente que somente a vontade é incapaz de realizar uma transformação que não é possível, não temos porque acreditar que o possível desperta automaticamente uma vontade. 

Entretanto, creio que não é aqui que esse impasse será resolvido. Contudo, pode se avançar um pouco mais na questão tentando propor uma definição de utopia que seja mais útil à esquerda. Para isso, defendo que a utopia se apresente como um termo de duplo-caráter: como realidade concreta (negativa) e como exercício de imaginação (positivo).

Enquanto realidade concreta, a utopia é um problema para a esquerda, pois toda utopia engendra em si mesmo a distopia. Retornamos ao impasse deixado anteriormente: o que fazer quando seres humanos não se adaptam ao que outros seres humanos consideram como mais “natural”, ou “racional”? A suposta neutralidade dessas idéias torna comportamentos desviantes como anormais e, portanto, as sociedades que se colocam como mais próximas do “natural” e do “racional” não são capazes de tratar tais comportamentos senão como loucura (e nesse ponto, a União Soviética da era Kruschev talvez seja o exemplo mais emblemático, ao tratar dissidentes políticos como desequilibrados mentais).

Tal problematização da utopia lhe confere um caráter negativo. Ela apresenta-se como um ponto ahistórico, de supressão total do sujeito como agente transformador. Ahistórico pois pressupõe que, diante de um estágio tão avançado em relação ao que é “natural” do indivíduo ela se torna o auge da evolução humana e, portanto, seu único caminho possível seria a “regressão”. Para evitar tal “regressão”, ela depende de um corpo de controle absoluto que garanta que esse fenômeno não ocorrerá, mesmo que ele beneficie um indivíduo. A utopia torna-se não apenas uma ilha, mas também uma prisão incontornável e claustrofóbica...tão claustrofóbica que a imagem de George Orwell na distopia "1984" é implacável: não há esperança dentro da utopia (os únicos que trazem a esperança são os “proles”, que são excluídos dela).

Essa visão, no entanto, precisa fazer parte da idéia da esquerda sobre utopia como um projeto político irrealizável. Não porque ele é inviável e não pode ser construído – pois de fato, já existiram tentativas bastante próximas de construir sociedades assim – mas sim como um projeto a ser evitado porque ele perde de vista a historicidade da organização política e a capacidade evolutiva das necessidades humanas. A utopia, pensada dessa forma, não é o “reino da possibilidade” como argumenta Marx, mas sim uma monótona forma de contenção de necessidades sobre um invólucro de autoritarismo. Nesse sentido, o caráter negativo da utopia enquanto realidade concreta é temerário pois coloca no horizonte da esquerda a sua irmã gêmea, a distopia. E se a utopia engendra em si mesmo a distopia, chegamos ao maior dilema: se as utopias vêm acompanhadas de distopias, por que lutar para sua realização? Resumindo toda essa argumentação, chega-se à conclusão de que tal modalidade de utopia é paralisante, o que pode ajudar a explicar (ainda que apenas uma pequena parte) a dificuldade contemporânea de se construir uma proposta política que vá além do capitalismo sem cair nessa noção de utopia como realidade concreta.

Entretanto, se a utopia/distopia, enquanto realidade concreta, revela-se como causa de uma inércia política, por que não descartamos logo a idéia de utopia na esquerda? A resposta que tenho sobre isso é ainda ingênua e cheia de falhas, mas defendo que a utopia não pode ser abandonada pela esquerda, mas sim precisa de uma transfiguração em que a valorize como exercício de imaginação, assumindo então um caráter positivo de ação.

Sei que parece irônico afirmar que a utopia só possui um valor positivo para a esquerda enquanto “ideologia” no seu sentido mais grosseiro, mas isso é porque enquanto ela se propõe a fazer parte de um “pensar sobre o futuro” ela é uma forma de trazer inquietações de nosso tempo a um patamar político. A utopia ganha um caráter de projeto e, como tal, é um ato teleológico que conta com determinadas condições do presente para se realizar. A grande diferença é que enquanto ela assume esse valor positivo ela não pode ser realizada.

Essa é uma grande diferença na verdade! Embora o olhar para o passado, como forma de identificar-se com os oprimidos de tantas outras gerações, apresente-se como fundamental numa perspectiva libertária, tal perspectiva não pode ignorar nunca a ambição de construção do futuro. Esse teor “teleológico” da luta política da esquerda, que depende de um sentido absoluto e que não possa ser facilmente relativizado é um elemento importante como parte de um exercício político de pensar: que futuro queremos? Talvez uma das maiores preocupações do chamado “altermundismo”, enquanto principal movimento anticapitalista de escala global atualmente, foi responder a indagação: afinal, como é esse outro “mundo possível”?

Sem estabelecer um projeto de futuro que esteja circunscrito em suas lutas, os agentes da esquerda trabalham com um horizonte perigosamente ahistórico em que os ganhos e perdas políticos são resumidos na capacidade de entrarem no “jogo” e não na sua capacidade de transformá-lo. Em suma, o reino da “realpolitik” é o maior beneficiado com o abandono da utopia, que implica em pensá-la somente em seu aspecto negativo.

Entretanto, valorizando o aspecto positivo do “lugar nenhum” enquanto exercício de imaginação e de projeção, ela atende a uma necessidade: ela se coloca como fenômeno histórico. O que em dada sociedade é possível imaginar como futuro revela anseios e receios em diferentes graus. É significativo, por exemplo, que no século XIX a utopia ganhe tanto espaço entre a literatura ficcional como na política. Assim como é significativo que no século XX a ficção científica tenha se tornado praticamente uma institucionalização da distopia.

Há ainda outra valoração da utopia como “exercício de imaginação”: a sua intangibilidade. Sem uma existência ontológica, ela está sempre “a um passo a frente”. É atribuída à Eduardo Galeano a idéia de que a utopia está no horizonte e que quando caminhamos em sua direção, ela se afasta. Mas que esse é seu propósito, motivar-nos a caminhar. Logo, o andar é o central, pois a utopia é um catalisador de uma ação, mas não se circunscreve como ação. Tal perspectiva encontra eco no trecho da obra “A peste”, de Albert Camus, na epígrafe que abre o texto. O próprio sentido da utopia é não ser encontrado, é permitir que continuemos lutando desesperadamente para atingi-la, mesmo sabendo que isso é impossível. Somente dessa forma pode se recuperar uma noção onde vontade e possibilidade coexistem de forma tensionada na ação humana.

Porém, tal perspectiva gera problemas. Se a utopia é intangível, como fazer com que uma sociedade ande em sua direção? Por que não se pode simplesmente deixar de lutar? Se a imaginação origina a ação, o que origina a imaginação? Essa é uma pergunta de difícil resposta e talvez essa reflexão não consiga lidar com tal indagação. Entretanto, uma forma de evitar o idealismo da utopia é circunscrevendo-a também como ação, invertendo-se os papéis que damos ao seu duplo-caráter. 

Enquanto “realidade concreta”, a utopia é uma quimera e mostra-se distópica, assumindo um caráter idealista. Contudo, enquanto “exercício de imaginação” ela é algo que depende de indivíduos localizados em tempo e espaço, “presos” em relações sociais onde até mesmo algo tão abstrato quanto a imaginação é um indício da possibilidade de superação que existe entre eles. Tal inversão retoma a positividade e a negatividade da utopia. Positiva pois estabelece uma utopia que engendra a ação, que cria um sentido à luta. Negativa pois contesta o seu caráter ontológico, negando a ahistoricidade que está circunscrita a sua realização.

No final das contas, toda essa reflexão nos leva a “lugar nenhum”. E isso não é exatamente um problema. Pensar sobre a utopia, desviando-se do fatalismo e da ingenuidade, é um exercício dificílimo. Mas talvez seja extremamente necessário para conseguir responder a pergunta: afinal, que outro mundo queremos?

1 comentários:

Nauber disse...

Excelente texto matutino Fernando. Acho que é o melhor que tu já escreveu nesse bólóguê!