Segundo o filósofo da USP em palestra ontem à noite na reitoria da UFRGS, Franklin Leopoldo Silva, estamos inventando a condição de pós-humanos. Estamos passando por uma metamorfose (em amplo sentido) na direção de certa ruptura com as bases modernas do nosso comportamento social. Mas isso é alimentado exatamente pelos elementos inventados pela modernidade, como o domínio da técnica e da razão sobre os diversos campos da vida humana.
A diferença do pós-humano para o humano moderno se basearia, entre outros elementos, na presentificação do passado e do futuro, pois o primeiro subordina a relação do homem com aqueles outros tempos. A novidade técnica não nos causa mais sensação de ruptura (como ocorria nos séculos XVIII e XIX), pois está incorporada ao nosso cotidiano (todo dia vemos novidades técnicas sem ficarmos estupefatos). Tudo parece ser imediato.
Outro elemento alimentado (talvez o mais chocante) pelas suas raízes modernas e que estaria nos conduzindo a uma condição humana diversa, seria que na relação de tensão entre a prática dos sujeitos e o peso das condicionantes estruturais, a balança estaria tendendo para o lado dos últimos. O filósofo fez questão de ressaltar que mesmo na relação humana com o meio-ambiente, as campanhas de preservação só servem para possibilitar a própria reprodução do sistema (embora ele não tenha apresentado uma melhor definição sobre a que "sistema" se referia) que ainda precisa devastar. Ou seja, a capacidade de intervenção humana prática estaria sendo subordinada aos mecanismos cada vez mais autônomos das ações dos sujeitos pontuais. O mesmo problema valeria para outros campos da vida humana, como biociência e arte. Na verdade, aquele filósofo disse que não consegue pensar em nenhum campo da atual vida humana que não esteja passando por este desequilíbrio.
Em todo caso, acho que uma questão ficou no ar. Embora tais argumentos façam sentido, parece difícil crer que nas periferias do quer que seja o "sistema" não existam possibilidades mais concretas de certo equilíbrio entre ações dos sujeitos e as limitações impostas pelas condicionantes estruturais. De qualquer forma, vale a pena continuar indo ao seminário que vai até dia 22 de maio em Porto Alegre. Talvez até lá, com outros argumentos, consigamos definir melhor o que é a condição humana hoje.
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