segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nunca antes na história dessa cidade...

"Centro de triagem da Vila Pinto gera emprego e renda"
Foto de Tarsila Pereira / PMPA


O governo Fogaça tem realizado os sonhos do chamado "cidadão de bem", aquele sujeito de classe média que estuda sociologia nas páginas da Veja e história nas da Zero Hora. Não sei se nunca ocorreram fatos semelhantes, mas os que estão se desenrolando agora merecem destaque.

No Centro, já denunciamos a atuação da Brigada Militar contra os moradores de rua, impedindo sua permanência naquela região através da intimidação das pessoas que lhes doam alimentos. O camelódromo veio ao mesmo tempo para "limpar" a Praça XV (criando um estacionamento no local) e controlar de perto a venda das mercadoriais dos pequenos comerciantes. Fechando o quadro, os carroceiros são impedidos de circular pelo Centro no horário de trabalho, e estão condenados a desaparecer da cidade por uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores.

Alguns postos de Saúde (da região Murialdo) já foram alvo de denúncias na última campanha eleitoral para a Prefeitura. Fogaça colocou a culpa no governo Yeda, que administrava aquelas unidades. Acontece que a Prefeitura assumiu aqueles postos e nada mudou: alumas reformas nos prédios parecem ter drenado os recursos para pagar por médicos. Não é possível que se distribuam menos de dez fichas de atendimento por dia (quando elas existem), e que um médico chegue perto das 10h para ir embora ao meio-dia sem ser substituído. Quando nos deparamos com a necessidade de consultar um profissional em algum posto da capital, ficamos ser saber onde, como e quando recorrer: é uma loteria que transforma a busca pelo atendimento em uma romaria. 

A impressão é que nunca a cidade esteve tão suja e tão limpa. Sim, é paradoxal mesmo. A sujeira está nas ruas, por dois motivos. Desde antes de Fogaça assumir, o serviço de limpeza urbana vinha perdendo eficácia, sendo compensado pelo recolhimento de materiais recicláveis por catadores autônomos (os difamados carroceiros e carrinheiros). O outro fator, é que com a crise internacional, os materiais mais baratos (papelão, jornal e plástico) sofreram quedas nos seus preços tão vertiginosas que os trabalhadores não tem considerado compensador o esforço em coletar e vender aqueles produtos. Mas o problema acaba (e começa) por aí. 

O caro prefeito comprou um monte de caminhões para estender a coleta seletiva para todos os bairros, com recolhimento de lixo duas vezes por semana. Bom né? Depende de qual lado você está falando. Se você se considera um "cidadão de bem", pode estar achando maravilhoso o fato de que seu lixo está sendo reciclado por órgão competente, o que afinal também tira os catadores das ruas. Mas se você desconfia dessa fórmula fácil, verá que em conjunto com o maior controle sobre os materiais recicláveis pelo governo municipal, o governo estadual tem fechado o cerco (via polícia) sobre os comerciantes de materiais recicláveis, intermediários nas vilas entre catadores e grande indústria da reciclagem. A proposta da prefeitura é transformar catadores (e comerciantes em geral) em trabalhadores das unidades de reciclagem dentro das vilas, para aumentar o controle sobre o processo produtivo.

Pode piorar? Sim! Acontece que os trabalhadores nas unidades de reciclagem abastecidas pelos caminhões da prefeitura são organizados de forma a baratear o preço dos materiais para a grande indústria, pois ao monopolizar a coleta e processamento do lixo, sem a existência de intermediários autônomos (catadores e pequenos comerciantes) diminui a pressão por melhores preços pagos pela grande indústria. Aliás, quem já ouviu falar na grande indústria da reciclagem? Não é à toa que ela defende sua invisibilidade... Em Porto Alegre, além das diversas empresas médias, podemos citar o orgulho dos partidos gaúchos (quase sem exceção), a famosa multinacional Gerdau. Sim, é criação das condições clássicas de expansão de um setor em fase inicial no capitalismo: cercamento e busca por controle de um campo de trabalho ainda relativamente autônomo, na tentativa de extrair mais mais-valia sem pagar por direito algum (afinal, são cooperativados). Isso é corroborado por uma intensificação na repressão e a invenção de um crime, qual seja, ser catador e comerciante de lixo. Nenhuma pessoa pode ser pega com cobre nas ruas ou em casa, pois o xilindró está comendo solto.

As conseqüências imediatas mais importantes serão duas: acirramento do confronto entre os trabalhadores mais pobres (lutando por sua autonomia) e o governo, e a queda nos rendimentos daquelas famílias. Novidades históricas nem tão novas assim. Mas o jargão continua valendo: nunca antes na história dessa cidade...


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