quinta-feira, 16 de abril de 2009

A culpa é de quem mesmo?

A atual greve dos ferroviários na capital do Rio de Janeiro vem sendo conduzida a partir de uma demanda peculiar: os condutores, ao se sentirem responsáveis pelo tranporte de milhares de trabalhadores cotidianamente, vem reivindicando por um ano junto à companhia administradora das linhas de trem (Supervia) uma maior atenção à manutenção dos equipamentos de trabalho, para evitar os recorrentes acidentes com os trens, que vem matando trabalhadores nos últimos anos. Note-se: não é uma pauta econômica "egoísta", de uma classe privilegiada, que não se preocupa com as outras categorias de trabalhadores. Na verdade, como a greve é uma forma legítima de reivindicação e talvez uma das únicas de maneiras de manifestação garantidas pela constituição brasileira, não se pode cobrar dos ferroviários a volta ao trabalho, principalmente depois de um ano de atuação junto ao patronato na tentativa (infrutífera) de convencimento da necessidade de maior manutenção e segurança caros ao sistema de trens. As vítimas dos acidentes não são apenas os condutores, mas também os passageiros, que tem andado amontoados nas famosas latas de sardinha gigantes.

Acontece que hoje, em virtude da maior lotação dos vagões, os seguranças da Supervia e a polícia militar do Estado estiveram praticando um exercício que lembra aqueles filmes que deixam qualquer pessoa chocada, quando apresentam judeus (e outros) sendo jogados dentro dos vagões pelos guardas responsáveis pelo bom funcionamento das linhas que os levavam aos campos de concentração na década de 1940. A semelhança entre os eventos se dá, para além do ato da violência de Estado, característica no desrespeito aos direitos do ser humano, sobre um elemento que não pode ser esquecido: ambos grupos são embarcados disciplinarmente para se dirigirem aos seus locais de trabalho. Acontece que sob o regime nazista, a atrocidade era garantida pela lei de um Estado tirano, o que não tem respaldo na nossa constituição. A pergunta que fica: como os seguranças de uma tranportadora (com direito a exploração de um serviço público) com o suporte da polícia militar chegam à conclusão que tem o direito de empurrar, socar, chutar e chicotear os trabalhadores que não aceitam ser amontoados em um vagão superlotado?



Não estamos sendo paranóicos; não dizemos que o nazismo brasileiro está a caminho (embora no Rio Grande do Sul...). Estamos aproximando os casos naquilo que está por trás de qualquer ato violento contra os trabalhadores: discipliná-los a todo custo, para que façam o que o governo e a elite quer que eles façam. Claro que alguns setores da imprensa dizem que a culpa é dos ferroviários, que criam um estado de tensão sobre trabalhadores e seguranças. Mas essa análise é míope, e pretende identificar a origem do problema na sua conseqüência. A origem do problema é a tentativa de manutenção de uma ordem social que tenta tirar o máximo possível de trabalho de um grande grupo de despossuídos para acumular o máximo possível de capital na mão daqueles que já possuem o monopólio da riqueza no país. As políticas de tranporte, criadas de cima para baixo, só buscam atendar aos anseios dos trabalhadores dentro de limites bem específicos, e quando estes limites são rompidos por circunstâncias efêmeras como greves de condutores, a culpa é prontamente identificada naqueles que quebraram a harmonia social artificialmente construída. Os grande prejudicados são sempre os trabalhadores, mas a culpa jamais é sua, como querem fazer-nos acreditar. Todo apoio à greve dos trabalhadores ferroviários do Rio de Janeiro! Abaixo à disciplina do trabalho explorador!

3 comentários:

Fernando disse...

É completamente absurdo esse vídeo...diante das cenas de agressão, o sujeito fala que é crime ficar trancando a porta do trem!!! E açoitar passageiros é o quê? Serviço de bordo??? E que fique claro, esse tipo de coisa chega ao absurdo no Rio de Janeiro, mas tá longe de ser exclusividade carioca...

Guinter disse...

Todo trem do Rio tem um pouco de navio negreiro...

naubergs disse...

Até você por aqui Guinter?