sexta-feira, 13 de março de 2009

Carta aberta à Yeda Crusius


À governadora do Rio Grande do Sul

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que esta não é uma carta pessoal. Até porque, cá entre nós, eu ficaria muito constrangido em ter qualquer tipo de relação pessoal com a senhora. Eu seria excluído de boa parte de meus círculos de amizade e creio que até mesmo a minha família iria olhar para mim diferente. Exatamente por não desejar afetar a minha vida social é que essa ressalva é importante: essa carta aberta não é pessoal.

Dito isso, afirmo também que a senhora não me conhece. Talvez tenha me visto em alguma manifestação, como parte da "minoria barulhenta", mas em geral, acredito fazer parte de uma "maioria silenciosa". Ainda assim, acredito que essa proporção se inverte a cada dia que passa e creio que cada vez mais temos "maiorias barulhentas" diante de "minorias silenciosas". No entanto, como alguém que transita entre essas duas posturas, afirmo: não estou recebendo dinheiro da República de Santa Maria. Tampouco estou recebendo dinheiro do Fóro de São Paulo, da família Genro, dos comunistas cubanos, da Coréia do Norte, ou do Irã - ao menos, desde a última vez que vi a minha conta bancária, não consta nenhum depósito misterioso nela. Em outras palavras, saiba, senhora governadora, que sou um "inocente útil".

Falo isso especialmente porque fico constrangido que a senhora acredite que está sendo ameaçada entre "golpistas de direita" e "pseudo-revolucionários de esquerda" sem sequer fazer uma menção a uma vasta gama de "inocentes úteis" como eu e tantos outros milhares de gaúchos. E na minha opinião, somos nós a verdadeira ameaça ao seu governo. Somos os milhares de professores, alunos, policiais, servidores públicos, aposentados, bancários, pais, etc. Somos nós que podemos realmente derrubá-la. E pode acreditar, governadora...estamos cada vez mais tentados a isso.

O que me choca, no entanto, é que a senhora e seus aliados não percebem isso. Pelo contrário! Entre seus aliados há verdadeiros atos que impedem que eu compreenda o que é essa visão de sociedade que ainda defende o "novo jeito de governar"! A chamada "juventude do PSDB" estava fazendo campanha essa semana para que o salário dos professores fosse cortado por conta da greve, não interessada se os professores haviam recuperado as horas de aula, ou não. Céus!!! Esses jovens - que não são "inocentes úteis" - estavam defendendo que um professor não pode nunca fazer greve. Ou seja, defenderam que um educador, que dedica-se exclusivamente à sala de aula, que recebe um salário inferior ao de quase todos os municípios gaúchos, não pode exigir maiores vencimentos! É um paradoxo absurdo quando estudantes dizem que professores não podem ser bem remunerados.

Mas isso não é o pior, governadora. O pior é que a senhora compartilha dessa miopia política. Mas então, fica a pergunta desses milhares de "inocentes úteis" que não conseguem compreender esse tipo de pensamento: por que nós deveríamos respeitar mais uma governadora com fortes acusações de corrupção - balizados inclusive por partidos que fizeram campanha na sua eleição - do que professores? Professores que, por sinal, respeitaram o contrato que fizeram e que mesmo diante das paralizações, resgataram todas as horas-aula que ficaram devendo. Sim, governadora, pois se a senhora pretende continuar a perseguição covarde contra os movimentos sociais e os sindicatos, prepare-se também para ter que perseguir os "inocentes úteis" do Rio Grande do Sul.

E creio que a senhora está preparada para isso, não é mesmo? Pois somente isso explica o vandalismo aos cartazes "fora Yeda" (transformados em "fica Yeda") e os cartazes que afirmam que o Cpers não faz nada pela educação, colados em Porto Alegre. Todos esses atos são anônimos, mas não são de "inocentes úteis". Porque nós, inocentes úteis, abominamos essa forma suja de debate, que demonstra a hipocrisia e a covardia (principalmente covardia) de quem lhe apóia. Porque essas pessoas o fazem no anonimato, na vergonha, no constrangimento. Principalmente porque a apóiam sem dar qualquer argumento lógico. 

E sem qualquer defesa lógica, governadora, só há algo que vem à minha mente. Os seus apoiadores são "pagos", financiados por alguém, ou algo. Talvez não pela "República de Santa Maria", talvez nem mesmo pelo "Fóro de São Paulo", ou pela "Família Genro". Mas quem sabe não é pela família Crusius? Pelo PSDB? Ou por seus fiéis aliados na imprensa, o grupo RBS? FIERGS? FARSUL? Enfim, posso garantir que pela forma que seus apoiadores agem, não há nenhum "inocente útil" entre eles.

Senhora governadora, espero que essa seja a última vez que eu afirmo que a senhora está escolhendo um inimigo poderosíssimo para desafiar. A senhora está comprando briga com milhares de "inocentes úteis" gaúchos que desejam sair nas ruas e questionar o absurdo de uma política cujos escândalos de corrupção parecem surgir a cada instante, que vem deteriorando serviços públicos com uma campanha de redução de gastos e que vem investindo em publicidade mais de 500% a mais do que outros governos.

Encerro essa carta, relembrando o poeta e romancista irlandês, W. B. Yeats: "os inocentes e os belos não possuem inimigos senão o tempo". Isso não é uma ameaça, governadora. É simplesmente a constatação do que faz inocentes agirem.

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