sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O fedor da xenofobia

(não se preocupe, é apenas um pequeno arbusto)

O bárbaro caso da tortura da brasileira Paula Oliveira cometida por skinheads nazista suíços deixou marcas. Tanto pela capacidade absurda de um grupo neonazista atacar uma mulher grávida, espancá-la e marcarem-na com um estilete como pelo fato de que o caso de Paula chocou mais ainda por ela não fazer parte do estereótipo comum dos trabalhadores brasileiros no exterior. Formada em direito e trabalhando numa multinacional dinamarquesa, a mulher de 26 anos é filha do deputado federal Roberto Magalhães (DEMO), ex-governador de Pernambuco. Em suma, Paula Oliveira seria facilmente considerada parte da elite no Brasil e isso talvez justifique a cobertura tão intensa que a grande imprensa vem dando ao crime

 

Isso, claro, não reduz a barbaridade cometida contra ela. Ao contrário, evidencia coisas que somente uma situação limite consegue revelar de forma tão explícita que é a ligação de verdadeiras gangues dos chamados “boneheads” (skinheads nazistas) vinculadas à partidos políticos de extrema direita. No caso de Paula, ela foi marcada com estiletes com a sigla do SVP (Scheiz Volks Partei), o Partido do Povo Suíço, um dos partidos mais xenófobos e proto-fascistas da Europa e que detém a maioria no congresso do país. Uma das principais lutas do SVP inclusive é para reduzir ao máximo a imigração na Suíça, sendo essa a sua principal pauta no parlamento hoje (em 2007 o SVP foi eleito com uma polêmica campanha que tratava os imigrantes como “ovelhas negras” em cartazes e outdoors, associando-os diretamente à criminalidade, à vadiagem e ao consumo de drogas).

 

Na mesma semana e passando quase desapercebida pela imprensa do “sim senhor”, a Itália (o idílico país de Cesare Battiste) oficializou a chamada “lei da delação”. O Senado italiano, seguindo proposta da Liga Norte (partido oriundo do fascista MSI – Movimento Social Italiano), aprovou uma medida que permite que os médicos denunciem à Justiça os imigrantes ilegais no país que buscarem tratamento em serviços públicos de saúde. E não apenas isso, foi aprovada na mesma emenda, a nova taxa para obter autorização de residência no país (subindo de 80 para 200 euros). A Itália, no entanto, não é novidade alguma pois desde a vitória eleitoral de Berlusconi ano passado, o crescimento de partidos xenófobos como a Liga Norte e a Aliança Norte são constante preocupação para a comunidade internacional e para grupos antifascistas.

 

No entanto, essa não é uma manifestação isolada da xenofobia européia. Em janeiro desse ano, o ministério das Relações Exteriores registrou o desaparecimento de 1.150 brasileiros no exterior nos últimos cinco anos. Alguns fenômenos como a prostituição e a participação no mercado informal de trabalho com aprisionamento de passaporte ajudam a explicar essa situação. Trata-se também de uma questão de gênero, já que muitas vezes o passaporte de entrada no exterior são programas de fachada de modelos que revelam extensas redes de prostituição internacionais. Isso é um agravante à situação, já que as principais vítimas de grupos xenófobos e racistas acabam sendo preferencialmente as mulheres.

 

Verdade seja dita, a migração ilegal é um fenômeno mundial, que leva milhares de moradores do chamado Terceiro Mundo em busca de melhores condições de trabalho em países desenvolvidos. A ONU acredita que cerca de 3% da população mundial hoje vive na condição de imigrante. Somente nos Estados Unidos esse número atinge quase 13%.

 

A terra do Tio Sam é considerada também exemplar no que diz respeito à xenofobia. Não se trata apenas das ações de “la Migra”, o INS (Immigration and Naturalization Service) e dos “board-patrols” (os guardas da fronteira). Os EUA são lembrados também pelo intenso controle feito a respeito da chegada de imigrantes latino-americanos no país, com a constante militarização da fronteira. O que chama a atenção no caso dos Estados Unidos, no entanto, é que não se trata apenas da ação institucional, mas sim que a militarização é realizada em boa parte por milícias autônomas de moradores das cidades que destilam a sua xenofobia na “caça” aos imigrantes que se atrevem a cruzar a fronteira. Recentemente, não apenas as milícias vem sendo denunciadas por crimes de racismo e pela sua violência. Há denúncias de que a situação é ainda mais grave, pois grupos criminosos estão seqüestrando imigrantes ilegais e exigindo resgates de suas famílias no exterior.

 

Porém, a xenofobia mostra que ela tem ido além dos limites das elites brancas. Há casos recentes – e extremamente graves – de preconceito contra imigrantes que são alimentados dentro da classe trabalhadora. Os principais exemplos são a Inglaterra e a África do Sul.

 

A xenofobia britânica não é novidade para os brasileiros desde o assassinato de Jean Charles de Menezes, que fora confundido com um terrorista e morto na estação Stockwell do metrô, em Londres, pela Scotland Yard (que continua impune, diga-se de passagem). No entanto, a situação tem se agravado desde os anos 80 e a xenofobia tem adquirido força entre a classe operária que fora duramente reprimida pelo thatcherismo e que não foi diretamente beneficiada pelo New Labour. Recentemente o Estado de São Paulo noticiou que trabalhadores de uma refinaria da Total iniciaram uma greve diante da decisão da empresa de dar 200 postos de trabalho a estrangeiros, com salários mais baixos. Centenas de trabalhadores se somaram a greve, com paralisações em usinas e demais fábricas contra a contratação de imigrantes.

 

Na África do Sul as notícias são ainda mais surpreendentes, tendo em vista a história recente do país e a política de Apartheid que perdurou até o início dos anos 90. No entanto, essa mesma história possibilita explicar a intensidade do fluxo migratório no país, sendo visto como um dos mais tolerantes após a abertura política. Porém, em maio do ano passado, as townships sul-africanas foram acometidas por uma onda de violência intensa que vitimou principalmente moçambicanos e zimbábueanos. Os números oficiais falaram de 42 mortos e 13 mil desabrigados, motivados especialmente por discursos xenófobos de grupos políticos que acusam que a pobreza crescente no país é decorrente dos fluxos migratórios dos países vizinhos.

 

Esse tipo de reação xenófoba, no entanto, pode ser estendida para diversos países, como a Índia (onde o racismo no norte do país tem se refletido em políticas xenófobas contra nativos do Sri Lanka), ou mesmo o Brasil. Sabe-se que imigrantes da região norte-nordeste do país são constantemente vítimas de agressões de grupos de extrema direita das regiões sul-sudeste. E atualmente há um aumento cada vez maior do número de imigrantes estrangeiros que vão aos centros industriais em busca de empregos. Há quem afirme que bolivianos são alguns dos mais explorados trabalhadores das indústrias brasileiras da atualidade.

 

A situação é tragicômica, pois mostra o impacto do desemprego em escala global, já que o problema da imigração é diretamente associado à falta de empregos tanto no país natal como na sua nova terra. De fato, os imigrantes geralmente recebem salários menores do que os trabalhadores de um país, desequilibrando os salários de um país com uma oferta maior de mão-de-obra. Mas, mais do que constatar um grave problema econômico, expõe também uma certa fragilidade de nós da esquerda em conseguir dar uma resposta política à tais crises. Os capitalistas, em geral, aproveitam-se de uma mão-de-obra barata e que reduz salários a níveis extremamente perigosos para as economias nacionais. E a solução encontrada por essa extrema direita demagógica e xenófoba, por sua vez, vem conquistando um perigoso espaço político que aglutina trabalhadores a partir de identidades nacionais chauvinistas e racistas. O problema é que o Capital sempre irá buscar a mão-de-obra mais barata para reduzir seus gastos na produção. Logo, a extrema direita lança o recurso de enfrentar essa oferta de mão-de-obra mais barata, ao invés de enfrentar o sistema que depende dela.

 

Há um cheiro de nazifascismo no ar empesteando a humanidade. É um fedor grotesco, horroroso, e que precisa ser impedido antes que se espalhe ainda mais. Antes que ele fique impregnado de tal forma que somente através da tragédia se consiga mandá-lo para o esgoto.

4 comentários:

Anônimo disse...

your face should be red now

Fernando disse...

Não se preocupe com a nossa face. O caso da brasileira não muda o fato de que a xenofobia vem aumentando em larga escala ao redor do mundo, promovida por partidos de extrema-direita como o próprio SVP.

Nauber disse...

Pelo visto temos comentadores que adoram analisar a realidade cortada em pedaços. Assim fica mais fácil não sentir culpa pela morte do boi quando se quer apenas uma bisteca.

Janaína Moraes disse...

Olá, encontrei seu blog em uma das minha visitas a comunidade do skoob no orkut.
Passei para conferir o "material" e gostei muito.

Passa nos meus tbm quando tiver um tempinho.