
Nos últimos dias, o mundo olha para Atenas. Não apenas por um desejo de reaviver uma cultura helênica, mas sim para entender o que está acontecendo com a juventude e os trabalhadores gregos.
A grande mídia corporativa noticia os protestos na Grécia motivados exclusivamente pela morte de Andreas Grigoropoulos, estudante de 15 anos. No entanto, a morte de Grigoropoulos, ocorrida no último dia 06 de dezembro, foi “uma gota d’agua” num oceano de mobilizações que já vinham ocorrendo anteriormente.
A situação da Grécia é delicada já faz algum tempo. Em recente relatório da União Européia, se afirmava que a situação de pobreza atingia 14% da classe trabalhadora grega. A crise assustou também muitos investidores no país, fazendo com que se alastrassem temores de demissões em massa em toda Grécia.
Os estudantes e trabalhadores gregos estão já há mais de 12 dias em protestos ininterruptos, paralisando o país, enfrentando um governo truculento e ditatorial e tornando-se um exemplo de lutas que vem se alastrando até mesmo no Grande Irmão do Norte se solidarizando com a luta que vem do "berço da civilização ocidental".
Recentemente a revista eletrônica “Sin Permiso” publicou um excelente texto do historiador americano Mike Davis, abaixo traduzido diretamente do espanhol por nós:
“O mundo se tornou inflamável e a revolta de Atenas é a primeira faísca”
1) Penso que nossas sociedades estão supersaturadas com raiva não reconhecida, que repentinamente pode cristalizar-se em torno de algum incidente isolado de abuso policial ou de repressão estatal. Ainda que as sementes da revolta tenham se semeado flagrantemente, a sociedade burguesa quase não reconhece que é sua própria colheita.
Subseqüentemente, a mídia (que quase todos sobrevoavam em helicópteros) tentou manipular a percepção mundial do motim mediante à simplificação e à estereotipação drásticos: as gangues de negros estavam nas ruas incendiando e saqueando. De fato, o veredicto em torno do caso Rodney King se tornou o centro dos quais diversas indignações se aglutinaram. Dos milhares presos, poucos eram realmente membros de gangues e somente um terço eram sequer afro-estadunidenses. A maioria eram imigrantes pobres ou seus filhos, que foram presos por roubar fraldas, sapatos e televisores das lojas locais. A economia de Los Angeles estava (ainda está) em uma profunda recessão e os bairros latinos pobres à oeste e ao sul do centro da cidade foram os mais afetados, mas a imprensa nunca havia noticiado sobre sua miséria existencial, sendo que quase ignorou por completo a dimensão do “motim por pão” do levantamento.
De modo semelhante, na Grécia atual, uma atrocidade policial “normal” finalmente desabrocha um botão que é estereotipado como fúria inexplicável e se culpam os anarquistas das sombras, quando que, de fato, “guerra civil de baixa intensidade” é o termo que melhor caracteriza o que desde muito tempo é a relação entre a polícia e os vários estratos de jovens.
2) Não estou qualificado, em absoluto, para comentar a especificidade das condições gregas, mas tenho a impressão de que há importantes contrastes com a França de 2005. A segregação espacial dos jovens imigrantes e pobres parece menos extrema que em Paris, mas as perspectivas de emprego para os rapazes pequeno-burgueses são consideravelmente piores: a intersecção destas duas condições traz às ruas de Atenas uma coalizão mais diversa de estudantes e jovens adultos desempregados. Mais ainda, são herdeiros de uma contínua tradição de protesto e uma cultura da resistência que é única na Europa.
3) O que exige a juventude grega? Seguramente percebe com clareza implacável que a depressão mundial cancela as reformas tradicionais do sistema educativo e do mercado de trabalho. Por que deveriam ter fé alguma na repetição novelesca do PASOK (o Panellinio Sosialistiko Kinima, ou Movimento Socialista Pan-Helênico) e suas promessas vazias?
Mas sim, estejam vocês certos: está é uma espécie original de revolta, prefigurada pelos motins anteriores em Los Angeles, Londres e Paris, mas que surge de um novo e mais aprofundado entendimento de que o futuro lhes foi saqueado antecipadamente. De fato, que geração na história moderna (além dos filhos da Europa de 1914) tem sido tão totalmente traída pelos patriarcas?
Angustia-me essa pergunta porque tenho quatro filhos e mesmo o mais jovem entende que seu futuro pode ser radicalmente diferente que o meu passado. Os membros de minha geração [os chamados babyboomers] deixaram aos seus filhos uma economia podre, extremos de desigualdade social que atordoam, brutais guerras nas fronteiras imperiais e um clima planetário fora de controle.
4) À Atenas se olha amplamente como a resposta da seguinte pergunta: “E depois de Seattle, o que fazer?” Lembrem-se das manifestações contra a OMC e a “batalha de Seattle” em 1999, que abriram uma nova era de protestos não violentos e de ativismo de base; a tremenda popularidade dos Fóruns Sociais Mundiais; as demonstrações de protesto contra a invasão do Iraque por Bush em 2003, que tinham a força de milhões de pessoas, e o amplo respaldo diante dos Acordos de Kyoto, tudo isto gerou uma enorme esperança de que um “mundo alterno” poderia ainda nascer.
Desde então, a guerra não terminou, as emissões de gases com efeito venenoso aumentaram muitíssimo e o movimento do Fórum Social tem se enfraquecido. Um ciclo completo de protestos chegou a seu justo fim no momento em que explodiu a caldeira de Wall Street e do capitalismo globalizado, e deixa em sua onda problemas mais radicais e novas oportunidades para o radicalismo.
A revolta de Atenas termina com a recente aridez de raiva. Seus quadros parecem ter muito pouca tolerância diante das consignas esperançosas ou das soluções otimistas, o que os distingue das demandas utopistas de 1968, ou do espírito ansioso de 1999. Esta ausência de demandas de reforma (e, como tal, de qualquer manejo convencional dos protestos), é claro, é o que é mais escandaloso, não os coquetéis molotov os as vitrines quebradas. Não lembra tanto a esquerda estudantil dos anos 60, mas sim as intransigentes revoltas do anarquismo dos desleixados de Montmartre na década de 1890, ou do Barrio Chino de Barcelona no início da década de 1930.
Alguns ativistas estadunidenses, é claro, consideram isto como a renovação dos protestos ao estilo de Seattle, com a cota temporal de paixão mediterrânea. Encaixa-se com uma idéia de que “Obama-trará-mudanças”, em um paradigma de entendimento que é uma repetição dos movimentos de reforma política dos anos 30 ou dos 60.
Mas outros jovens que conheço rechaçam esta interpretação tirada da manga. Identificam-se (assim como os anarquistas de fin d’ siecle) como uma “geração condenada” e vêem nas ruas de Atenas a métrica apropriada de sua própria raiva.
Há o perigo, é claro, de superestimar a importância de uma erupção em um cenário nacional específico, mas o mundo se tornou inflamável e Atenas é a primeira faísca.
1 comentários:
Belo texto.
Postar um comentário