Não, não estou falando sobre a tricolor francesa, a clássica bandeira azul, branca e vermelha que a Liberdade do quadro de Delacroix ostentava orgulhosa. Estou falando, na verdade, de uma bandeira tricolor de um país próximo...a Itália.Pode se dizer hoje, que em nenhum país da Europa Ocidental a democracia foi tão vilipendiada como na Itália. Foram cinco anos de governo Berlusconi, que aliava tanto partidos da Liga Norte (xenófobos separatistas) assim como a Aliança Nacional (que era o antigo Movimento Social Italiano, partido fascista do pós-guerra). Não apenas esses aliados indigestos pautaram a democracia no país, mas também o próprio Berlusconi passou a deter um controle político que nunca antes fora imaginado. Seu controle midiático se extendeu sobre os canais públicos de televisão, rádio e jornal, inclusive censurando jornalistas que lhe criticavam, como o caso da comediante Sabina Guzzanti.
Mas a tragédia supostamente tem a capacidade de fazer os indivíduos abrirem seus olhos. Os últimos anos da administração Berlusconi foram dantescos e somaram-se escândalos de corrupção. No norte, aliança com separatistas e fascistas. No sul, com a máfia. O jeito de governar de Berlusconi fez com que as urnas dissessem não ao primeiro ministro e fosse então eleito, em 2006, a coligação de centro-esquerda encabeçada por Romano Prodi. E no entanto, quando parecia que um sopro de democracia voltava à soprar na bota, a situação fora absurdamente anestesiante. Prodi parecia preparar os italianos para o pior...
Ao invés de um governo progressista, Prodi não demonstrou, dentro de uma vasta política de alianças, capacidade para unificar a esquerda junto com partidos liberais. O resultado foi a manutenção de uma política restritiva sobre a mídia, a manutenção da permanência italiana na guerra contra o Afeganistão, a derrocada definitiva das reformas sociais do país e a continuação da liberalização econômica no país. Prodi perdeu apoio de seus aliados na esquerda, inclusive a Rifondazione Comunista, que buscava ser a reorganização do antigo e famoso Partido Comunista Italiano. A queda foi ainda maior. Liberais e conservadores passaram a criticar Prodi pela inabilidade para conter a esquerda. A esquerda, por sua vez, passaram a criticar Prodi por não consolidar nenhuma política progressista. Diante desse quadro, Prodi pedira a renuncia. Não a aceitaram na primeira vez. Na segunda, após ter recebido voto de desconfiança do parlamento, não resistiu. Caiu. A Itália se preparava para a sua centésima eleição com apenas 63 anos de democracia. Foram mais de 40 primeiro-ministros durante esses 63 anos.
Na eleição, a coligação liderada por Silvio Berlusconi, "Popolo della Libertà", venceu de lavada. A maioria dos assentos no parlamento foram conquistados. Berlusconi voltou a ser o primeiro ministro italiano. Seus aliados fascistas, xenófobos e separatistas voltavam ao poder. Mas a campanha do premier fora feita centrada em um dos temas mais polêmicos no país: a imigração. A Liga Norte passou a ser o principal partido incumbido da questão. E uma de suas primeiras ordens, em agosto desse ano, foi mandar o exército às ruas para patrulhar a segurança do país, visando exatamente os imigrantes como principais responsáveis pelos crimes no país.
A segurança pública se tornou um grande inimigo a ser vencido pela coligação de Berlusconi. Imigrantes passaram a ser perseguidos pelos poderes públicos, mesmo que em condições legais, sendo responsabilizados por diversos crimes. Mas foi com a vitória da Aliança Nacional na prefeitura de Roma, duas semanas depois, que a situação piorou. O atual prefeito da capital italiana defendeu em sua campanha a organização de milícias para fiscalizar a segurança na cidade, o que significou na prática um aumento ainda maior da perseguição de imigrantes no país. Gianni Allemano derrotou os seus adversários em uma das mais eleições de menor índice de participação na cidade defendendo um maior controle sobre a questão da imigração.
Diante disso, é válido apontar três ironias da história, tragicômicas por si só tal como uma legítima opereta:
A primeira é de que a preocupação italiana com a segurança pública é espantosa. Os italianos nunca ficaram tão preocupados com a criminalidade. E, curiosamente, Silvio Berlusconi é um milionário que possui uma série de processos em suas costas, que vão desde fraude, lavagem de dinheiro, uso indevido de bens públicos... Ou melhor dizendo, desculpe. POSSUÍA talvez seja o melhor termo. Em julho desse mesmo ano, três meses depois de sua vitória eleitoral, Berlusconi conquistou novo triunfo: o parlamento aprovou a proposta de imunidade aos processos penais que o primeiro-ministro enfrenta durante o tempo de seu mandato. Basicamente isso significa que Berlusconi, um dos maiores criminosos na política italiana, está acima da lei. Que o diga seus contatos excusos com grupos mafiosos ligados ao sindicato dos lixeiros em Nápoles. Esse seria o primeiro ato da tragédia.
O segundo ato da tragédia, menos cômico do que o primeiro, é o discurso sobre a criminalidade recair sobre os imigrantes. Ironicamente são eles algumas das maiores vítimas da violência no país, organizada pelos mesmos xenófobos que hoje estão no poder. Os alvos preferenciais são ciganos, líbios, turcos e marroquinos. Acampamentos são desmantelados à força, ataques à condomínios e bairros são constantes. Um mês depois de vencer as eleições, as medidas anti-imigração de Berlusconi desencadearam ondas de violência no norte e no sul da Itália. Não apenas isso, mas o governo pretende também criar um registro criminal para todos os imigrantes ilegais e legais que residem no país hoje, incluindo a coleta de impressões digitais de crianças ciganas (prática que não existia desde o período fascista).
Há ainda um terceiro ato tragicômico da opereta italiana, mas esse menos irônico e menos óbvio. É de se admirar que, diante da transformação de uma democracia em um Estado xenófobo, violento e cada vez mais abertamente fascista, a esquerda esteja tão enfraquecida. A dura realidade é que o governo Prodi, como governo de conciliação, foi um fracasso retundante. Ele não conseguiu desmantelar a força da direita e continuou a afundar a esquerda em meio a um pragmatismo político de fazer inveja à Otto Von Bismark, o pai da "realpolitik" moderna. Os grupos que racharam contra Prodi e tentaram fazer uma verdadeira oposição de esquerda ao governo ainda tentam se rearticular, mas falta-lhes força e visibilidade política para conseguir enfrentar a descrença de muitos dos italianos. O resultado foi que, pela primeira vez na história italiana, a esquerda não conseguiu eleger NENHUM parlamentar. A única coisa próxima disso, a coligação do Partido Democrático que reunia a centro-esquerda do país, foi derrotada de forma fragorosa. Parece que nada mais resta da tradição esquerdista radical dos italianos senão uma vaga lembrança.
É diante desses três atos que os céticos do mundo todo aguardam impacientes para saber qual será o próximo. Espera-se sempre um final feliz para os italianos, para os imigrantes, para os trabalhadores e para a esquerda. Um final que lembre a tradição de luta dos italianos, que lembre a defesa apaixonada pela democracia da Resistência e que consiga, então, soterrar Berlusconi e toda a "poeira da história" através da luta.
0 comentários:
Postar um comentário