
(cena do filme "Pão e Rosas", de Ken Loach, 2000)
"Pão e Rosas", do cineasta inglês, Ken Loach, é um daqueles filmes que funciona como uma peça de teatro bem feita. Ele consegue ser político sem cair num panfletarismo rudimentar, que transforma trabalhadores em vítimas, patrões em demônios. Consegue ser engajado sem ser inocente. Ser crítico sem ser manipulador.
A história do filme é relativamente simples: Maya é uma jovem mexicana que resolve tentar a sorte nos EUA, morando na casa de sua irmã, Rosa. Desde o início, a protagonista é apresentada de uma forma original, além do melodrama que acompanha as histórias de imigração para os EUA, mostrando-se inteligente e atrevida, com um forte senso de justiça. Sua irmã então lhe consegue um trabalho de faxineira num escritório, onde ela conhece Sam, um jovem sindicalista que tenta de todas as formas convencer a companhia terceirizada de limpeza, onde Maya trabalha, a se sindicalizar para se defender dosabusos de patrões e gerentes, que aproveitam-se da mão-de-obra imigrante para lhes impor baixos salários e outras condições de trabalho desfavoráveis, para dizer o mínimo.
É uma dica ótima de cinema para quem curte ver filmes políticos que não caem no panfletarismo absurdo. Em geral, os filmes de Loach são todos politizados ao mesmo tempo em que demonstram uma profunda sensibilidade em demonstrar que a política, por si só, não é um campo separado das experiências de vida individuais. Contudo, não pretendo com esse texto ficar apenas elogiando o cinema político de Ken Loach. Na verdade, ele serve apenas como um gancho para uma história tão interessante e política quanto a de seu filme.
Desde fevereiro de 2009, cerca de 200 trabalhadores foram demitidos das lojas da Pizza Hut na região de Chicago. Diante da falta de documentação, muitos deles foram demitidos sem qualquer aviso prévio e sem direitos sociais. O detalhe é que muitos desses trabalhadores são imigrantes ilegais de origem "latina", o que facilita esses processos de demissão. Para completar, é válido lembrar: a Pizza Hut faz parte de um conglomerado de fast foods nos EUA, a Yum! Brands, que domina outras cadeias de lojas, como Kentucky Fried Chicken, Long John Silvers e Taco Bell. Resumidamente, a política de empregos dos fast-foods americanos vem se tornando cada vez mais articulada com projetos de segregação étnica.
Seria injusto, contudo, atribuir somente como preconceito a causa da política de demissões dos fast-foods americanos. Sendo esse um trabalho pouco especializado, a mobilidade da mão-de-obra é fundamental para os donos do capital. De fato, em alguns países já existe todo um aparato jurídico para evitar que trabalhadores em lojas de fast-food sejam sindicalizados. Existe uma série de pressões para tornar esses empregos o mais efêmeros e temporários possíveis, devido tanto ao alto grau de estresse que ele gera assim como pela necessidade de repôr constantemente o trabalho por valores baixos, ou mínimos, no mercado de trabalho.
No caso dos imigrantes, nenhuma novidade. Muitos deles não possuem proteção legal alguma sobre suas condições de trabalho e isso não é privilégio apenas dos EUA. Até onde já se sabe, mesmo no Brasil existem casos de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, tanto através de práticas como sequestro de passaporte, ou até mesmo com a ameaça de ações jurídicas contra os trabalhadores para que eles sejam repatriados e mandados de volta para seus países de origem.
No entanto, no mundo do trabalho ianque, a ação política da esquerda vem tentando bater de frente contra a atual política de trabalho. No mês passado, mais de 200 organizações sindicais se reuniram para lançar uma coalização para defender uma nova lei de imigração no país, como forma de apagar as heranças negativas da Era Bush nesse respeito. A "Reform Immigration for America" inclui uma série de organizações de esquerda, socialistas, comunistas, sociais-democratas, anarco-sindicalistas, "liberais", ambientalistas, católicos, etc.
É difícil saber ao certo se a era Obama mudará radicalmente a política imigratória do Grande Irmão do Norte. Em épocas de crise, o capital acaba sempre optando por formas de trabalho mais seguras e, para ele, nada é mais seguro do que um enorme exército de reserva sem direitos legais. Por outro lado, sem direitos que os amparem, os trabalhadores têm mais motivos para ir às ruas e se organizarem politicamente, inclusive contra o governo e contra os patrões. No caso da Pizza Hut, já existe um grupo de sindicatos e trabalhadores que está fazendo a campanha "No justice, no pizza" para que a empresa passe a retomar as negociações e pague as devidas recisões de contratos de trabalho de centenas de seus trabalhadores.
O que é certo, contudo, é que o filme de Ken Loach acabou tendo, de fato, um tom quase que profético quanto às condições de trabalho dos EUA. Profético não porque fala de uma situação comum ao país já desde os anos 60-70, mas sim porque consegue apontar soluções. Aponta a necessidade de enfrentar o capital, que torna esses trabalhadores invisíveis e dispensáveis em áreas que nos são tão banais, como o fast-food, insistindo-nos a lembrar que tudo que tem trabalho tem a mão do homem.




