segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 anos de colapso

Hoje se celebra ao redor do mundo Ocidental os 20 anos de queda do Muro de Berlim. Desnecessário dizer que aquele evento, celebrado como marco do fim do socialismo real, tem uma importância incrível no mundo contemporâneo. Contudo, trata-se de uma história ainda cheia de nuances e que merece ser constantemente revisitada. Por ora, deixamos aos leitores a leitura de um recente artigo do filósofo esloveno Slavoj Zizek, publicado hoje no NY Times. A tradução é nossa.

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20 anos de colapso

HOJE é o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Durante esse período de reflexão, é comum que se enfatize a natureza milagrosa dos eventos daquele dia: um sonho se tornando realidade, os regimes comunistas caindo como um castelo de cartas, a o mundo subitamente transformado de tal forma que seria inconcebível a poucos meses atrás. Quem, na Polônia, poderia imaginar eleições livres com Lech Walesa como presidente?

Contudo, quando a névoa sublime das revoluções de veludo foi desfeita pela nova realidade democrático-capitalista, as pessoas reagiram com um inevitável desapontamento que se manifestou, por sua vez, como uma nostalgia para com o "bom e velho" período comunista; seja de forma direitista, nacionalista, ou populista; e também como uma renovada e atrasada paranóia anti-comunista.

As primeiras duas reações são fáceis de compreender. Os mesmos direitistas que décadas atrás estavam gritando "Melhor morto do que vermelho!" estão agora resmungando, "Melhor vermelho do que comendo hamburgueres". Mas a nostalgia comunista não deve ser levada tão a sério: longe de expressar um retorno à cinza realidade socialista, ela é muito mais uma forma de lamento, de gentilmente lidar com o passado. Quanto à ascensão do populismo de direita, essa não é uma especialidade do Leste Europeu, mas uma característica comum de todos os países atingidos pelo vórtex da globalização.

Muito mais interessante é a recente reaparição do anti-comunismo indo da Hungria à Eslovênia. Durante o outono de 2006, grandes protestos contra o governante Partido Socialista paralisaram a Hungria por semanas. Manifestantes ligaram a crise econômica do país com o governo do partido sucessor do Partido Comunista. Eles negaram a legitimidade do governo, ainda que ele tenha chegado ao poder através de eleições democráticas. Quando a polícia veio para restaurar a ordem civil, comparações foram feitas com o esmagamento da rebelião anti-comunista de 1956 pelo Exército Soviético.

Esse novo pânico anti-comunista também vai atrás de símbolos. Em junho de 2008 a Lituânia aprovou uma lei proibindo a divulgação de imagens comunistas como a foice e o martelo, assim como o hino soviético. Em abril de 2009 o governo polonês propôs expandir a proibição à propaganda totalitária para incluir livros comunistas, roupas e outros itens: alguém poderia ser preso simplesmente por usar uma camiseta do Che Guevara.

Não é surpresa que, na Eslovênia, a principal crítica da direita populista contra a esquerda está ligada na idéia de "força da continuidade" com o velho regime comunista. Em uma atmosfera tão sufocante, novos problemas e desafios são reduzidos à repetição de velhas lutas, chegando ao absurdo (que algumas vezes aparece na Polônia e na Eslovênia) de que a defesa dos direitos dos homossexuais e a legalização do aborto fazem parte de um macabro plano comunista para desmoralizar a nação.

De onde essa ressurreição do anti-comunismo tira suas forças? Por que os velhos fantasmas ressucitaram em nações onde muitos jovens sequer lembram do período comunista? O novo anti-comunismo fornece uma simples resposta para essa pergunta: "Se o capitalismo é realmente tão melhor do que o socialismo, por que nossas vidas ainda são miseráveis?"

Muitos acreditam que é porque nós ainda não estamos vivendo uma plenitude capitalista: nós ainda não estamos numa verdadeira democracia, mas apenas num arremedo, onde as mesmas forças macabras ainda controlam o poder, um pequeno grupo de antigos comunistas disfarçados como os novos donos e gerentes - nada realmente mudou, então nós precisamos de uma outra depuração, a revolução tem de se repetir...

O que esses retrógrados anti-comunistas não conseguem perceber é que a imagem que eles têm de suas sociedades se aproxima enormemente à mais usada imagem da esquerda sobre o capitalismo: uma sociedade onde a democracia formal concede o poder apenas para uma minoria. Em outras palavras, esse recente anti-comunismo não compreende que o que eles estão denunciando como um pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Alguém poderia argumentar também que, quando os regimes comunistas caíram, os comunistas desiludidos estavam melhor preparados para dar conta da nova economia capitalista do que os dissidentes populares. Enquanto os heróis dos protestos anti-comunistas continuaram a lutar por seus sonhos de uma nova sociedade de justiça, honestidade e solidariedade, os antigos comunistas conseguiram se acomodar sem dificuldades às novas demandas capitalistas e ao novo e cruel mundo da eficiência do mercado, inclusive com todos seus novos e velhos truques sujos e corrupção.

Ainda há outro elemento a ser posto nesses países em que os comunistas permitiram a explosão do capitalismo ao mesmo tempo em que mantinham o poder político: eles aparentam ser mais capitalistas do que os próprios capitalistas liberais do Ocidente. Em uma maluca dupla-reversão, o capitalismo venceu o comunismo, mas o preço pago por essa vitória é de que agora os comunistas estão vencendo os capitalistas em seu próprio jogo.

É por isso que hoje a China é tão aterradora: o capitalismo sempre pareceu intrínsicamente ligado à democracia e diante da explosão do capitalismo na República Popular, muitos analistas ainda acreditam que a democracia política inevitavelmente vai acontecer.

Mas o que acontece se essa forma de capitalismo autoritário se mostrar mais eficiente e mais rentável do que nosso capitalismo liberal? E se a democracia não mais for o acompanhamento natural e necessário para o desenvolvimento econômico, mas o seu obstáculo?

Se esse é o caso, então talvez o desapontamento com o capitalismo nos países pós-comunistas não deveria ser tomado como um mero sinal de expectativas "imaturas" das pessoas que não possuem uma imagem realística do capitalismo.

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria deles não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista - as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo "socialismo com um rosto humano". Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Isso nos leva a pensar sobre a vida e morte de Victor Kravchenko, o engenheiro soviético que, em 1944, fugiu para Washington em uma missão comercial e que depois escreveu um livro de memórias best-seller chamado "Eu escolho a liberdade" (I Chose Freedom). Seus relatos em primeira pessoa dos horrores do stalinismo incluíam uma detalhada descrição sobre a fome massiva que atingiu a Ucrânia no início da década de 1930, onde Kravchenko - que na época acreditava no sistema - ajudou a forçar o sistema de coletivização.

O que a maioria das pessoas sabe sobre Kravchenko termina em 1949. Nesse ano ele processou Les Lettres Françaises que seguiram a propaganda do semanário do Partido Comunista Francês, alegando que ele era um bêbado que espancava sua mulher e que suas memórias eram propaganda de espiões americanos. No tribunal de Paris, generais soviéticos e camponeses russos foram testemunhas do debate sobre a veracidade dos escritos de Kravchenko, e o julgamento cresceu de um processo pessoal a uma espetacular acusação de todo o sistema stalinista.

Mas imediatamente após sua vitória no caso, quando Kravchenko ainda estava sendo louvado ao redor do mundo como um herói da Guerra Fria, ele teve a coragem de se posicionar apaixonadamente contra a caça às bruxas de Joseph McCarthy. "Eu acredito profundamente," ele escreveu, "que na luta contra os comunistas e suas organizações...nós não podemos e não devemos recorrer aos métodos e formas empregados pelos comunistas". Sua advertência aos americanos: lutar contra o stalinismo dessa forma era viver o perigo de começar a se parecer com o seu oponente.

Kravchenko também se tornou mais e mais obssecado com as desigualdades do mundo Ocidental e escreveu uma seqüência para o "Eu escolho a liberdade" que foi entitulado, de forma significativa, como "Eu escolho a justiça" (I Chose Justice). Ele se dedicou a encontrar formas menos exploratórias de coletivização e foi parar na Bolívia, onde ele usou todo seu dinheiro tentando organizar camponeses pobres. Esmagado pela falência, ele se recolheu à vida privada e acabou atirando em si mesmo em 1966, em sua casa em New York.

Como chegamos a esse ponto? Enganados pelo comunismo do século XX e desiludidos com o capitalismo do século XXI, nós só podemos esperar por novos Kravchenkos - e que eles tenham finais mais felizes. Na busca por justiça, eles terão de começar do zero. Eles terão de inventar suas próprias ideologias. Eles serão denunciados como perigosos utopistas, mas eles terão conseguido sozinhos acordar do sonho utópico que nos aprisiona.

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Slavoj Zizek é o diretor internacional do Instituto Birkbeck de Humanidades em Londres e é o autor do recente livro "First as tragedy, Then as farce" (não publicado no Brasil ainda).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lembrem-se de John Lilburne

(John Lilburne, em auto-retrato publicado em panfleto de 1646)


Hoje é 5 de novembro e talvez os leitores conheçam a história da Conspiração da Pólvora na Inglaterra, referenciada no sucesso dos quadrinhos e do cinema, "V de Vingança". Para aqueles que não conhecem muito bem, a Conspiração da Pólvora foi uma tentativa de assassinar o rei Jaime I e todos os parlamentares protestantes da Inglaterra em 1605. Numa ação promovida por Guy Fawkes e Robert Catesby, membros de um grupo radical católico que desejava abrir espaço para o catolicismo em terras anglicanas, o atentado acabou fracassando. Contudo, a imagem de Guy Fawkes como uma espécie de "anarquista" radical acabou ganhando força ao longo dos séculos como uma espécie de anti-herói popular (até mesmo a música "Remember", de John Lennon, faz referência ao dia 5 de novembro de Guy Fawkes).

Contudo, esse post não é sobre Guy Fawkes, mas faço questão de continuar perambulando pelo século XVII inglês. O homem da vez é John Lilburne.

Pulemos algumas décadas no século XVII - vamos até os anos que antecederam a Guerra Civil inglesa, que acabou com o primeiro grande regicídio popular da história européia. A chamada Revolução Inglesa não costuma ser muito estudada em sala de aula, mas talvez ela valha uma "missa". Lembremos que num processo político de disputa entre o rei Carlos I (sucessor de Jaime I) e o Parlamento, a situação tornou-se tão acirrada que a Guerra Civil foi inevitável. Nesse processo, destacou-se o famoso Oliver Cromwell, general que acabou por construir a revolucionária experiência do New Model Army. Contrariando a lógica militar da nobreza monarquista até então, Cromwell fundou um modelo de exército baseado no mérito pessoal e na disciplina e não mais na titulação nobliárquica e no soldo de mercenários.

E onde entra John Lilburne nessa história? Diante do processo de radicalização política que marcou a Inglaterra durante esse período, vários grupos religiosos e políticos surgiram, reivindicando novas representações sobre teologia e, é claro, sobre o que deveria ser o Estado e a sociedade. Alguns desses grupos ganharam bastante destaque, como os Diggers (cavadores) e os Levellers (niveladores). Os diggers talvez sejam mais de nosso interesse, pois tratavam-se de grupos radicais, que faziam uma interpretação bíblica muito próxima do anabatismo e que propunham coisas como o fim da propriedade da terra (e dos cercamentos, tão comuns já desde o século XVI), o voto por pessoa irrestrito (uma espécie de prelúdio do sufrágio universal) etc. Mas John Lilburne não era um digger, mas sim um leveller - aliás, uma liderança entre os levellers. Os "niveladores", por sua vez, não eram tão radicais quanto os nossos amigos "cavadores", mas sem dúvida também eram bastante revolucionários para o século XVII. Defendiam abertamente o voto por cabeça (exceto, é claro, nos casos de indigentes e trabalhadores assalariados), a abolição da monarquia e o fim da Câmara dos Lordes. Criado em 1645, o grupo tinha como líderes, além de Lilburne, John Wildman, Richard Overton e William Walwyn, todos eles cotejados por Oliver Cromwell e, depois, punidos pelo mesmo Cromwell.

Mas é aqui que a história fica um pouco mais interessante. Lilburne era bem visto por Cromwell nos seus tempos de pregador radical anti-anglicano e anti-papista. Sua prisão em 1638-39 foi motivo de inflamados discursos do futuro líder da breve república inglesa, exigindo sua liberdade diante do Parlamento. Em 1644 ele e Cromwell se tornaram amigos por conta dos seus serviços militares aos nobres de Manchester. Simpático aos parlamentares na Guerra Civil, lutou por eles de 1642 à 1645 - ano em que não foi aceito no New Model Army por se recusar a seguir o pacto do Presbiterianos que pautava as relações entre Parlamento e Igreja Escocesa Presbiteriana. A partir daí, Lilburne e Cromwell passaram a seguir por caminhos bastante opostos. Não que Oliver Cromwell tivesse qualquer pretensão com os presbiterianos, mas ele certamente acreditava na unidade do seu "Exército de Novo Tipo", enquanto Lilburne e uma série de outros protestantes se colocavam como adversários dos acordos com os presbiterianos. Dessa situação surgiram os "levellers", como uma força política considerável - alguns historiadores, como Christopher Hill, consideram que os "levellers" podem ter sido o primeiro partido político moderno.

A força simbólica da figura de um orador radical como Lilburne certamente era uma ameaça para qualquer um que estivesse no poder. Muitas vezes ele foi preso por conta de seus panfletos radicais e de suas pregações "perigosas". Em todas ele acabou sendo solto após os julgamentos, diante de um forte clamor popular que exigia sua libertação. A exceção surgiu quando Cromwell chegou ao poder. Ciente do poder que John Lilburne tinha em conseguir angariar as revoltas dos setores populares do Exército, ameaçando a principal instituição que dava força ao seu governo, Oliver Cromwell mandou que Lilburne fosse preso em 1653, depois de inúmeras tentativas de mantê-lo sob controle (incluindo um exílio forçado na Holanda). Após a prisão, Lilburne foi solto em 1656, depois de ter se convertido como "quaker" (estremecedores). No ano seguinte ele morreu enquanto visitava sua esposa e seus dez filhos, com 43 anos de idade, cansado de lutar contra o governo - de fato, em 1656 ele escrevera um longo panfleto anunciando sua conversão e seu afastamento da política.

Peço perdão aos leitores se o texto é longo e se as analogias são múltiplas. A história de John Lilburne é, de certa forma, a história padrão da esquerda em um âmbito muito maior do que podemos imaginar. Um exemplo semelhante, no campo cinematográfico, é o excelente filme de Ken Loach, "Ventos da Liberdade". Trata-se da história da esperança de uma revolução radical e do gradual desencantamento com soluções paliativas. Com esse desencantamento, ao contrário do que se poderia esperar, temos uma guinada ainda mais radical e perserverante...mas a revolução não vem e aqueles que mais contávamos nos traem em prol da ordem, da governabilidade e do poder. John Lilburne não agüentou a prisão e a perseguição sofrida...sabe-se lá o que passou em sua cabeça durante os seus últimos anos, desde sua conversão até sua morte - num curtíssimo espaço de tempo. Talvez estivesse enfarado, cansado, decepcionado...mas talvez também soubesse que o caminho escolhido por seu antigo amigo, Oliver Cromwell, era um caminho sem volta. Cromwell morre um ano depois de Lilburne e questão de anos depois, tem seu corpo exumado, violado e enforcado em praça pública. Talvez Lilburne soubesse que os protetores da ordem, da governabilidade e do poder acabariam por colocar na mesma cova rasa ele e Cromwell, que é a cova dos idealistas.

Por isso, caros leitores, nesse 5 de novembro, não lembrem de Guy Fawkes. Lembrem de John Lilburne, democrata radical, revolucionário, traído por seu amigo e comandante e que lutou até o fim de sua vida. Ignorem a Conspiração da Pólvora e lembrem-se de Niveladores e Cavadores. Enquanto homenagem, talvez não seja tão profunda. Mas enquanto capacidade reflexiva para a situação atual, talvez Lilburne nos ensine muito mais do que Fawkes e o 5 de novembro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O professor ranzinza e o fascismo

Certa feita, um professor ranzinza de história da universidade (imperial) da republiqueta farroupilha veio defender abertamente o governo Lula, com o argumento de que o fascismo se apresentava no horizonte. Não acreditamos naquele exercício abstrato, pois parecia mais uma das tantas teorias da conspiração que os historiadores adoram criar. Mesmo tendo ouvido de fontes diversas os casos de agitação relâmpago nos quartéis (oficiais que ficaram 48 horas de plantão) quando estourou o escândalo do mensalão. Tudo parecia demais!

Há uma semana fui assistir a um seminário naquela universidade sobre a articulação necessária dessa instituição com os movimentos sociais, e ouvi uma bela palestra de um praça reformado da polícia militar de Santa Catarina sobre a necessidade da articulação desses profissionais com os movimentos sociais. Enfim, é um pessoal bom, de esquerda, que tem lutado pelo fim da militarização da profissão, por um novo modelo de polícia cidadã, mais próxima do povo. Essa semana alguns jornais daqui divulgaram a denúncia que dezenas de policiais da Brigada Militar em Viamão estão afastados do trabalho por problemas psicológicos decorrentes da pressão exercida pelo seu comandante, que ameaça lhes tirar o abono salarial federal (R$400,00) caso não cumpram a rigor suas ordens um tanto estranhas (como proteger preferencialmente comerciantes que contribuem em dinheiro ou materiais para a corporação). Não podemos esquecer do deslocado Coronel Mendes, que causou enorme desconforto nos escalões mais baixos daquela instituição quando aplicou seu terror de estado sobre os movimentos sociais e o povo pobre em geral. Trocaram o comando e mesmo assim meteram uma bala nas costas de um sem-terra.

Ontem à tarde uma atitude que eu não via faz tempo (não vivi muito, mas tenho lido sobre outros tempos): a pequena Federação Anarquista Gaúcha foi alvo de "busca e apreensão" da Polícia Civil, como noticiou o blog RS Urgente. Lembro de um panfleto anarquista que encontrei nos documentos da polícia gaúcha da época do Dr. Borges de Medeiros (1918), que basicamente trazia um texto em favor da paz mundial. Entre as anotações dos policiais, uma pergunta ao comandante: "Será que não devemos cortar as asas desses anarquistas?". Cortar as asas significava, entre outras coisas, empastelar redações de jornais populares, apreender material subversivo e conversar de perto com os militantes. Ontem à tarde, alguns membros da FAG prestavam depoimento enquanto seus cartazes e computador eram apreendidos.

Militares se coçando nos quartéis; insubordinação dentro dos quartéis; alianças esporádicas das forças repressivas com setores populares; endurecimento da repressão aos movimentos sociais; tolerância zero com os espaços de pobreza; reativação da polícia política; intelectuais como Saramago sem dúvida quanto ao avanço do "fascismo de gravata" na Europa; renascimento da divisão internacional entre direita e esquerda; golpes da direita contra a democracia no continente; crise do sistema capitalista de produção. Se o professor ranzinza nos falou de todos esses elementos na época eu não lembro, mas confesso que fico impressionado com sua capacidade de análise de conjunturas. Me sinto vivendo em 1929, e dá muito medo.





quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Militares bons, de esquerda...!?

Quarta-feira pouca gente foi ao seminário sobre "A universidade e os movimentos sociais", que ocorre até amanhã no auditório da economia da UFRGS. Como observou uma palestrante, lá "só tinha companheiro". Apesar do público-alvo ser o mesmo, nem metade das pessoas que foi assistir na noite anterior o debate com Plinio de Arruda Sampaio esteve presente.

Quem não foi perdeu uma excelente oportunidade de descobrir um dos movimentos mais importantes surgidos na sociedade brasileira recentemente: o dos policiais militares. Representado no evento pela APRASC (Associação dos Praças de Santa Catarina), tal movimento demonstra a possibilidade e a necessidade de diálogo dos lutadores sociais em geral com os trabalhadores da segurança. Como ficou demonstrado, a partir da percepção dos militares e de suas famílias de que eles são trabalhadores como quaisquer outros, a colaboração nos debates e atos públicos em defesa dos interesses do povo pobre tem se tornado uma realidade. Em Santa Catarina, a percepção dos militares de que as reivindicações dos trabalhadores e usuários do transporte coletivo são legítimas tem feito com que a tolerância aos protestos se torne fato recorrente. Aliás, as greves dos policiais militares tem recebido apoio de diversas entidades da classe trabalhadora em geral.

Enfim, tal mudança de postura dos militares se baseia na avaliação correta de que eles são o braço armado de interesses dos mais ricos, que utilizam o Estado para a manutenção da reprodução da sociedade de classes. Portanto, qualquer projeto de segurança pública real deve se preocupar em defender os cidadãos pobres, que são maioria, e os mais interessados nos serviços do Estado. Assim, umas das bandeiras do movimento dos militares é a exatamente a desmilitarização da profissão, acabando com um modelo de polícia criado no Império Brasileiro e que aparece como anacrônico, tanto para a sociedade ampliada como para os trabalhadores da segurança.

A manutenção da hierarquia militar é indesejada pois favorece a brutalização dos trabalhadores da segurança pública, através de treinamentos e cobranças de comportamentos criados para fazer homens e mulheres cumprir ordens moralmente incompatíveis com a condição da solidariedade e o respeito dos direitos humanos fundamentais. Assim tem se comportado a Brigada Militar do Rio Grande do Sul, especialmente diante de movimentos sociais. Esperamos que tal sensibilidade dos praças de Santa Catarina um dia contagie os trabalhadores da segurança gaúcha, quando eles perceberão quem são seus reais inimigos, deixando o Palácio Piratini desguarnecido.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Socialismo: modo de usar

"Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.
Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários."
("Classe operária" - Tom Zé)


Pegando carona nas reflexões do camarada Nauber sobre o debate com o Plínio de Arruda Sampaio, considero que ambos compreendem o ponto nevrálgico de onde a esquerda tem que partir hoje: destruir propostas que não compreendam a conjuntura histórica em que vivemos. E é com esse objetivo que pretendo abrir o debate. Afinal, como se constrói o socialismo?

A receita de bolo é simples e varia pouco conforme a tendência e organização. Doses de partidos de quadros, xícaras de partidos de massas, colheres de revolução permanente, uma porção de práxis, pitadas de táticas e estratégias e, o mais importante, doses cavalares de vanguarda revolucionária. Leve ao forno mágico da história e pronto! Leva de 1 dia à 200 anos para ficar pronto e serve de 1 à 6 bilhões de pessoas. Qualquer indeterminação nas medidas da receita não é mera coincidência. E isso que nem falamos de suas contra-indicações (pois, é claro, a revolução não é somente um bolo, mas também um remédio).

Mas isso é pouco! Podemos fazer aqui milhares de elocubrações teóricas, aperfeiçoando a receita, tornando-a mais palatável para nós, intelectuais da pequena-burguesia. O problema é que não somos nós que vamos fazer qualquer revolução. Estamos, de fato, acomodados com empregos públicos, beneficiados pelos investimentos do governo Lula na máquina pública. Somos testemunha de um novo milagre econômico. Podemos esperar mais 200 anos por uma revolução socialista, amenizando qualquer sentimento de culpa com receitas cada vez melhores para esse bolo-remédio.

Contudo, qualquer projeto socialista que consiga realmente trabalhar com perspectivas conjuntas de curto e longo prazo (ou táticas e estratégicas, caso queiramos voltar para o bolo), tem que se preocupar diretamente com condições reais de vida da população. E o que fazer diante de um quadro onde o governo é aprovado de forma quase unânime? ("Nunca antes na história desse país...") Sim, o governo Lula é um fenômeno entre as classes populares! Seus programas de assistência social deram um grande salto em relação aos governos anteriores, houve maior investimento em programas de saúde e educação, a economia vai bem e o povo até que não vai mal - uma contrapartida ao slogan de Delfim Netto nos anos 1970. Nessa conjuntura, socialismo é papo de maluco.

Entretanto, o governo Lula tem muito a avançar ainda. Desemprego, saúde, educação, segurança...nenhuma dessas áreas foi definitivamente resolvida. E nem serão. Não existe uma fórmula mágica que consiga resolver todos esses problemas sem se bater de frente com o capital. Em todas essas áreas ele investe na sua ânsia incontrolável de crescimento. Alguma solução precisa ser tomada para abolir o desemprego, para tornar saúde e educação áreas totalmente públicas e de qualidade, para enfrentar o problema da criminalidade sem hipocrisia e falsos moralismos. Reformismo? Sim, sem dúvida! Mas do que adianta passar 3 anos e meio pregando a revolução se na época da campanha eleitoral aceitamos investimentos financeiros de setores da burguesia que não estão interessados em nenhuma dessas soluções?

Temos então duas formas de chegar no socialismo: A primeira é a forma governista, que diz que gradualmente chegaremos lá - basta apoiar a camarada Dilma. Basta crer que as melhoras graduais do governo promoverão um acúmulo para que num futuro não muito distante (de 1 dia à 200 anos, conforme o forno mágico da história) o povo faça a revolução. Até lá, podemos seguir dizendo para eles o que fazer, como agir, como se comportar e como se mobilizar. Já a segunda, por sua vez, é a forma dos partidos de oposição de esquerda, que afirmam que só chegaremos lá pela via revolucionária. Até lá, dependemos também de um acúmulo, precisando ganhar o povo, rebaixando nosso discurso, aceitando espaço na Zero Hora, dinheiro da Gerdau etc. e tal. Com todas essas condições ideais, aí sim poderemos falar para o povo quando eles poderão fazer a revolução.

Seguimos no impasse do modo de usar. Temos duas avaliações da realidade que não são de todo equivocadas, mas que são superficiais. No fundo, fiquemos com qualquer uma das receitas, seguimos dizendo para a classe operária o que é bom para eles. E é óbvio que o projeto socialista é um projeto pedagógico acima de tudo - no sentido de que ele visa construir uma "consciência", uma cultura política que tenha um lastro na vida das pessoas. Mas dizer isso não significa que nosso projeto pedagógico tenha que ser uma espécie de óleo de rícino, despejado numa colher e jogado na boca de milhões de brasileiros, na esperança de que eles adquiram a tão esperada consciência de classe que desejamos. Se encararmos o socialismo como uma espécie de modelo pedagógico político começamos a pensá-lo como um debate em aberto, que não está pronto, que está em construção.

Se ele está em construção, talvez nunca esteja pronto? Difícil saber. Mas ele precisa ser construído, ele precisa de agentes para fazê-lo, para pensá-lo e executá-lo. Ele precisa ser essencialmente dialógico e não um lamento por uma "classe operária" (e quem é essa classe?) que não está "madura" para fazer a revolução. Se essa é a necessidade imperativa para a formação de um programa socialista hoje, devo dizer: rasguem as receitas de bolo urgentemente.

Plínio de Arruda Sampaio ignorado

Fomos ontem ao debate com Plinio de Arruda Sampaio na UFRGS. O evento era nitidamente diferente daquele promovido há poucos meses na mesma universidade, que reuniu toda a fauna e flora da esquerda da região metropolitana de Porto Alegre para assistir a um badalado filósofo europeu de esquerda. Na verdade, o auditório da economia estava lotado, mas não havia muitas figuras que causassem surpresa em quem anda naquele meio (como os "barbudos da loucuragem" presentes no Mészaros). No público e na mesa, as várias correntes do PSOL, o PSTU, o PCB e outros grupos não filiados.

Plinio de Arruda Sampaio foi lúcido. Tão lúcido que mais da metade dos companheiros que fizeram intervenções após sua fala demonstraram claramente que não entenderam nada. Poucos propuseram o diálogo dos problemas reais. Enfim, Plinio veio a Porto Alegre para apresentar um "Projeto Socialista para o Brasil", e o fez. Sem abrir mão do rigor reflexivo (aliás, denunciou que tem se dedicado muito ao estudos nos últimos tempos), mostrou toda a sua compreensão das possibilidades de ação na história, dando uma aula de percepção das estruturas vigentes e imperantes. Disse que nossa geração não vai ver o socialismo, e temos que ter os pés no chão contra qualquer projeto deveras abstrato do que ele deve ser.

Como empreender o diálogo com aqueles que os intelectuais de esquerda supostamente querem "salvar" com um projeto abstrato? Se o socialismo não está ali na esquina (como insiste a maioria dos grupos de esquerda), devemos atuar para acelerar o processo, mas atacando os problemas reais imediatos. Devemos levar adiante debates e campanhas em torno de temas concretos, que favoreçam o diálogo, pois estamos vivendo um momento de calmaria política. Como bem analisou Plinio, do mais rico ao mais pobre no Brasil, todos acham (e sabem) que "a vida vai melhorando" atualmente. Mera ilusão? Temo que não. Aliás, um dos vícios dos intelectuais da esquerda é fazer análises de conjunturas erradas, que espancam a realidade, para justificar projetos revolucionários imediatos (e sem pé nem cabeça), que não dialogam com ninguém.

Voltando ao projeto, Plinio disse que sua candidatura à presidência só poderá ser uma anti-candidatura: vai para a campanha para debater os "problemas reais". Assim é que podemos acelerar o processo rumo ao socialismo, seja lá que cara venha a assumir no futuro. Entre os problemas, deve-se discutir abertamente alguns temas: a necessidade de tornar totalmente públicos alguns serviços básicos, como educação e saúde (veja aqui a Caravana em defesa do SUS no país), na medida em que a preservação de nichos privados é que condena ao descaso o setor público, que serve aos pobres. Como combater o desemprego? Reduzir a jornada de trabalho até que todas as pessoas estejam trabalhando, mesmo que sob a exploração capitalista. Como bem avaliou Plinio, trata-se ainda de capitalismo, mas da aceleração de um processo de debate, reflexão e ação política, o que não se observa nem com o marasmo do jogo político eleitoral nacional, nem com a agitação sem nexo da esquerda raivosa.

Finalmente, um crítica aos companheiros que adoram uma "denúncia" contra a aliança do MST com os projetos de assistência do Governo Lula, e que se fizeram ouvir na noite de ontem. Primeiro, é fácil para nós, aqui da cidade, com empregos em setores públicos (ou seja, com certa estabilidade) acusar o movimento de não romper com o governo. Ora, o MST tem um problema econômico estrutural. Como bem analisou um certo colunista, ele tem consigo, além de militantes de esquerda, pessoas que ao mesmo tempo são pobres, sem acesso a empregos públicos ou privados de qualquer ordem. É um absurdo cobrar tal rompimento com o governo, salvo se oferecermos uma alternativa econômica melhor. Segundo, ao identificarmos o movimento como o mais ativo dentro da esquerda, cobramos dele que tal rompimento com o governo faz parte da lógica, pois depositamos nossas esperanças revolucionárias no campo. É a mesma tese que cobrava de Zapata e Villa o protagonismo da revolução socialista mexicana abortada entre 1910-17. O erro da cobrança é o mesmo: acusações de que o movimento não quer assumir a tarefa de liderar a revolução no campo e na cidade, enquanto ficamos lendo jornais (agora on-line) dentro das academias. Por acaso queremos destruir o MST acabando com a vida dos seus militantes? Isso parece coisa da direita gaúcha.

Enfim, parece que agora é o momento oportuno para, como observou Plinio, uma reflexão apurada das nossas ações e para a destruição de propostas que não compreendam a conjuntura histórica em que vivemos. Nunca foi tão importante compreendermos a relação problemática e necessária entre estruturas e agentes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A universidade e os movimentos sociais em debate na UFRGS

II Seminário

A Universidade e os Movimentos Sociais

PROGRAMAÇÃO:

Quarta-feira (21/10)
Abertura:
Homenagem ao colono Sem-Terra Eltom Brum da Silva

Mesa 1: Conjuntura Política e Criminalização dos Movimentos Sociais

- Cláudia Ávila (Advogada do MST)
- Eliane Martins (MTD)
- Manoel João da Costa - Associação dos Praças de Santa Catarina (APRASC);

Local: Auditório da Faculdade de Economia (Campus Centro)
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Quinta-feira (22/10)
Abertura:
Canciones de lucha (voz e violão)
Mesa 2: As experiências da UFRGS na relação com os Movimentos Sociais

- GARRA (Grupo de Apoio à Reforma Agrária)
- Secretaria de Extensão e Movimentos Sociais do DCE
- Gilmar Godoy Gomes (Núcleo de Economia Alternativa)
- Prof. Odalci José Pustai (Medicina)
- Prof. Paulo Brack (Biologia)

Local: Diretório Central dos Estudantes (Av. João Pessoa, 41)
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Sexta-feira (23/10)

Mesa 3: Experiências e expectativas dos Movimentos na relação com a Universidade

- Movimento Nacional de Luta pela Moradia
- Movimento Hip-Hop
- Movimento dos Pequenos Agricultores
- Movimento dos Trabalhadores Desempregados
- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra

Local: Auditório da Faculdade de Economia (Campus Centro)
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Sempre às 18h30!

*A participação em todas as atividades dá direito a certificado de Ação de Extensão.

Organização:
DCE-UFRGS - Secretaria de Extensão e Movimentos Sociais

Apoio:
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD)
Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM)
Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Pró-Reitoria de Extensão/UFRGS
Núcleo de Economia Alternativa (NEA/UFRGS)