Sábado, 11 de Julho de 2009

Pão e rosas (e pizzas)

(cena do filme "Pão e Rosas", de Ken Loach, 2000)


"Pão e Rosas", do cineasta inglês, Ken Loach, é um daqueles filmes que funciona como uma peça de teatro bem feita. Ele consegue ser político sem cair num panfletarismo rudimentar, que transforma trabalhadores em vítimas, patrões em demônios. Consegue ser engajado sem ser inocente. Ser crítico sem ser manipulador.

A história do filme é relativamente simples: Maya é uma jovem mexicana que resolve tentar a sorte nos EUA, morando na casa de sua irmã, Rosa. Desde o início, a protagonista é apresentada de uma forma original, além do melodrama que acompanha as histórias de imigração para os EUA, mostrando-se inteligente e atrevida, com um forte senso de justiça. Sua irmã então lhe consegue um trabalho de faxineira num escritório, onde ela conhece Sam, um jovem sindicalista que tenta de todas as formas convencer a companhia terceirizada de limpeza, onde Maya trabalha, a se sindicalizar para se defender dosabusos de patrões e gerentes, que aproveitam-se da mão-de-obra imigrante para lhes impor baixos salários e outras condições de trabalho desfavoráveis, para dizer o mínimo.

É uma dica ótima de cinema para quem curte ver filmes políticos que não caem no panfletarismo absurdo. Em geral, os filmes de Loach são todos politizados ao mesmo tempo em que demonstram uma profunda sensibilidade em demonstrar que a política, por si só, não é um campo separado das experiências de vida individuais. Contudo, não pretendo com esse texto ficar apenas elogiando o cinema político de Ken Loach. Na verdade, ele serve apenas como um gancho para uma história tão interessante e política quanto a de seu filme.

Desde fevereiro de 2009, cerca de 200 trabalhadores foram demitidos das lojas da Pizza Hut na região de Chicago. Diante da falta de documentação, muitos deles foram demitidos sem qualquer aviso prévio e sem direitos sociais. O detalhe é que muitos desses trabalhadores são imigrantes ilegais de origem "latina", o que facilita esses processos de demissão. Para completar, é válido lembrar: a Pizza Hut faz parte de um conglomerado de fast foods nos EUA, a Yum! Brands, que domina outras cadeias de lojas, como Kentucky Fried Chicken, Long John Silvers e Taco Bell. Resumidamente, a política de empregos dos fast-foods americanos vem se tornando cada vez mais articulada com projetos de segregação étnica.

Seria injusto, contudo, atribuir somente como preconceito a causa da política de demissões dos fast-foods americanos. Sendo esse um trabalho pouco especializado, a mobilidade da mão-de-obra é fundamental para os donos do capital. De fato, em alguns países já existe todo um aparato jurídico para evitar que trabalhadores em lojas de fast-food sejam sindicalizados. Existe uma série de pressões para tornar esses empregos o mais efêmeros e temporários possíveis, devido tanto ao alto grau de estresse que ele gera assim como pela necessidade de repôr constantemente o trabalho por valores baixos, ou mínimos, no mercado de trabalho.

No caso dos imigrantes, nenhuma novidade. Muitos deles não possuem proteção legal alguma sobre suas condições de trabalho e isso não é privilégio apenas dos EUA. Até onde já se sabe, mesmo no Brasil existem casos de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, tanto através de práticas como sequestro de passaporte, ou até mesmo com a ameaça de ações jurídicas contra os trabalhadores para que eles sejam repatriados e mandados de volta para seus países de origem.

No entanto, no mundo do trabalho ianque, a ação política da esquerda vem tentando bater de frente contra a atual política de trabalho. No mês passado, mais de 200 organizações sindicais se reuniram para lançar uma coalização para defender uma nova lei de imigração no país, como forma de apagar as heranças negativas da Era Bush nesse respeito. A "Reform Immigration for America" inclui uma série de organizações de esquerda, socialistas, comunistas, sociais-democratas, anarco-sindicalistas, "liberais", ambientalistas, católicos, etc.

É difícil saber ao certo se a era Obama mudará radicalmente a política imigratória do Grande Irmão do Norte. Em épocas de crise, o capital acaba sempre optando por formas de trabalho mais seguras e, para ele, nada é mais seguro do que um enorme exército de reserva sem direitos legais. Por outro lado, sem direitos que os amparem, os trabalhadores têm mais motivos para ir às ruas e se organizarem politicamente, inclusive contra o governo e contra os patrões. No caso da Pizza Hut, já existe um grupo de sindicatos e trabalhadores que está fazendo a campanha "No justice, no pizza" para que a empresa passe a retomar as negociações e pague as devidas recisões de contratos de trabalho de centenas de seus trabalhadores.

O que é certo, contudo, é que o filme de Ken Loach acabou tendo, de fato, um tom quase que profético quanto às condições de trabalho dos EUA. Profético não porque fala de uma situação comum ao país já desde os anos 60-70, mas sim porque consegue apontar soluções. Aponta a necessidade de enfrentar o capital, que torna esses trabalhadores invisíveis e dispensáveis em áreas que nos são tão banais, como o fast-food, insistindo-nos a lembrar que tudo que tem trabalho tem a mão do homem.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Enquanto isso, em Honduras...





Iniciativas independentes estão promovendo a comunicação alternativa sobre os fatos do golpe de estado em Honduras. Vídeos surgem no YouTube, e algumas rádios transmitem ao vivo as últimas notícias pela internet. Ouça a rádio Es lo de Menos e a Progreso. E viva a resistência!

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Divulgação

Temos como pressuposto que aquelas pessoas que pretendem fazer política pela esquerda devem se preocupar constantemente com a clareza teórica; afinal, a incoerência das posturas adotadas pelos representantes da esquerda não lhes parece incoerente. Alguns afirmam que tudo é válido, desde que seja taxado como "de esquerda". Bom, uma leitura contemporânea que nos parece fundamental é de Alex Callinicos, que tem retomado debates clássicos do marxismo e mesclado com outras linhas do pensamento social desenvolvidas ao longo do século XX.

Enfim, esse senhor estará presente no I Encontro sobre Teoria Social, Educação, Ontologia e Realismo Crítico, que ocorrerá na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) entre os dias 28 e 30 de julho de 2009. As inscrições são gratuitas (veja aqui). Bom, não poderemos ir ao evento londrino por uma questão óbvia. Mas já compramos nossas passagens pra Ilha da Magia. Para estudar, é claro!

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Globalização: muros para controlar a exploração

Não estamos falando dos muros da Guerra-Fria, como o vergonhoso berlinense ou o ainda tenso coreano. Estamos a falar de um tipo especial de muros e cercas, aqueles construídos para barrar a imigração em massa dos trabalhadores dos países pobres em direção aos vizinhos argentários. Mas onde existem esses tipos de muros? Será que os Estados Unidos tem o monopólio dessa prática explícita (pois há formas mais discretas de conter aquele avanço, embora sempre acompanhadas por ações ostensivas das guardas de fronteiras) com o difamado "Muro da Vergonha" que lhe separa do México desde 1994? Ou divide a honra de país xenófobo apenas com Israel e seu muro contra a Cisjordânia? Vejamos.

A democrática Espanha é famosa pela utilização de força de trabalho imigrante nas suas atividades mais mal pagas. Mesmo assim, se a imigração ilegal é aceita em certo nível para cumprir essa tarefa, existem duas belas obras arquitetônicas separando seus postos de trabalho dos africanos. São as cidades muradas que se localizam ao norte da África, no trecho mais próximo a Gibraltar: Ceuta e Melilla. Na primeira cidade, o governo espanhol (com o apoio do marroquino) pretende aumentar de 3 para 6 metros de altura tal construção, para barrar as tentativas de imigração em massa que vem ocorrendo desde os anos 2000. Em Melilla, alambrados e barras de aço vão ajudar a compor a muralha.

Mas a opção por muros anti-pobres não é apenas reflexo do racismo e dos privilégios europeus. Dentro do mundo árabe fomos apresentados hoje ao projeto da Arábia Saudita de cercar todo o país (incluindo suas águas) em seus nove mil quilômetros! Claro, com toda a parafernália eletrônica compondo o quadro (aviões, satélites, sensores etc). A desculpa é que o país quer barrar os terroristas da Al-Qaeda. Isso tem cheiro de defesa do reino sagrado contra os bárbaros do leste, no melhor estilo dos reis medievais ocidentais com medo das hordas húngaras. Mas cumpre uma função fundamental para a política imigratória do país: fazendo suas entradas atuarem como funis, onde se pode selecionar os trabalhadores que se quer importar (os mais qualificados que aceitam ganhar menos que os nativos, como indianos), utiliza-se da força contra aqueles que são indesejados.

No mais, os riscos para a vida do trabalhadores que tentam adentrar de forma ilegal na Arábia ficam próximos ao que correm os "chicanos" tentando penetrar o sul estadunidense em busca de trabalho e salários dignos. Na ótica dos clandestinos, fronteira abandonada é melhor do que fronteira com a presença do Estado, que fecha os olhos para qualquer política de humanitarismo nesses casos. Na verdade, para o imigrante passar do estatuto de clandestino a desaparecido, basta o Estado se fazer presente.



Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Honduras: a direita e o medo da democracia

O segundo país mais pobre da América Central revela os efeitos prolongados da Operação Condor. A cultura de golpes antidemocráticos baseados na força militar nos anos 1960-70 ainda ressoa sobre algumas comunidades nacionais, como nos casos da Venezuela em 2002 e em Honduras em 2009. A Bolívia também teve sua democracia ameaçada (via patrocínio do governo Bush) desde a eleição de Morales, mas o presidente teve habilidade suficiente para evitar o desrespeito à vontade popular.

As tentativas de golpe das direitas latinoamericanas historicamente passam por um momento crucial, que é aquela da articulação popular em defesa do governo eleito-deposto. Mas isso depende da existência de uma efetiva ação imediata dos trabalhadores organizados, através de greve geral, vigílias diante das instituições políticas e divulgação das ações antidemocráticas dos golpistas. Assim Hugo Chavez retornou ao palácio do governo venezuelano, e assim tem agido o povo hondurenho, nas últimas 24 horas. Os governos do Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba, EUA, a Organização dos Estados Americanos, a União Européia e a própria Organização das Nações Unidas condenaram o atentado ao Estado de Direito em Honduras, o que revela que a divulgação do absurdo golpe tem sido bem realizada. Para acompanhar mais de perto, leia em língua espanhola as notícias da emissora TeleSur.

Agora nos resta esperar que a ação popular não resulte em uma resposta militar desproporcional e antidemocrática, naquilo que pode se tornar o maior banho de sangue no continente desde a instalação das ditaduras antes citadas. As próximas horas são decisivas para a história de Honduras e da América Central. Mais do que nunca, é o momento do protaganismo dos trabalhadores hondurenhos; é seu momento de fazer história com as próprias mãos, já que a direita tem medo da democracia e não respeita os votos dos mais pobres. Abaixo, um vídeo de hoje sobre a luta iniciada.

Haiti: o que não sabemos sobre ele





Caros leitores, tenho uma coisa para lhes falar: teve eleições para o Senado no Haiti no último dia 21 de junho. Curiosamente, não sabemos nada sobre essas eleições (e nós fazemos aqui a nossa mea culpa). Os noticiários e a internet estão marcados por longas análises sobre as eleições no Irã e o perigo/desejo de uma revolução estar sendo engendrada pelos opositores do regime teocrático. No meio dessa confusão, Michael Jackson e Farrah Fawcett morreram. A gripe suína se alastra pelo Brasil. A seleção venceu a Copa das Confederações. Mas nada se disse sobre o Haiti.

Não é de agora que existe um silêncio constrangedor sobre a pequena nação caribenha. As revoltas ocorridas após o golpe de Estado que derrubou o presidente progressista do país, Jean Baptiste Aristide, em 2004, foram o auge de divulgação sobre o Haiti nos últimos anos na mídia internacional. No caso brasileiro, as notícias duraram um pouco mais tendo em vista a ação militar brasileira pela ONU, buscando pacificar o país. Algumas vezes fazendo-o de formas brutais e a serviço de setores da elite haitiana, diga-se de passagem.

Mas por que olhar para o Haiti dessa vez? Bom, o principal motivo é a campanha de boicote que teve início nessas eleições. Chamada de "operação portas fechadas 2" por militantes do partido Fanmi Lavalas (antigo partido de Aristide), a campanha foi organizada diante do impedimento eleitoral imposto pelo atual presidente do país, René Preval, à sigla do Lavalas. O resultado do boicote foi impressionante. A primeira etapa da eleição senatorial, ocorrida em abril, teve índice de participação de 11,3%. Ainda que sem números exatos, todos analistas políticos concordam: a eleição de 21 de junho foi o maior boicote sofrido em um regime democrático. De fato, as fotos impressionam, mostrando urnas com 10, 6 e até mesmo 4 cédulas apenas nos distritos eleitorais da capital, Porto Príncipe.

Mas o motivo do boicote não está ligado somente à ilegalidade do Fanmi Lavalas. O que se comenta em sites como o Haiti Action, é que o principal motivo da campanha do boicote está ligado à intensa repressão exercida pelos soldados brasileiros no país. Segundo a matéria do site, em 18 de junho, ocorreu um incidente trágico no funeral de um padre católico ligado ao Lavalas chamado Gerard Jean-Juste. Segundo testemunhas, os soldados da missão da ONU abriram fogo contra o cortejo, depois de tentarem prender um dos membros da multidão e mataram um manifestante. As Nações Unidas, por sua vez, alegam que não houve troca de tiros e que a razão das mortes pode ser decorrente de uma pedra atirada pelos manifestantes, ainda que se saiba que constantemente os soldados brasileiros são chamados para impedir com o uso de força qualquer forma de reunião coletiva. De fato, as histórias sobre a presença brasileira no Haiti ainda são muito mal contadas por aqui, mesmo diante do suicídio do general que estava comandando a missão no país, Urano Teixeira da Matta, em janeiro de 2006.

O boicote acaba também servindo para frustrar as tentativas de restauração da democracia no país pelos mesmos que apoiaram a sua derrubada. A magnitude do investimento das eleições haitianas não é pequeno. Segundo notícia da agência Pacific Free Press, a administração Obama injetou uma boa quantidade de capital na eleição, onde se estima que o custo do processo é de cerca de 17 milhões de dólares. Um número bastante significativo para um país cujo salário mínimo é cerca de 2 dólares por dia. Ainda assim, as autoridades dos EUA e do Brasil, presentes diante do processo eleitoral, afirmaram que o resultado é positivo e não reconheceram o boicote.

O Haiti continua não sendo aqui, mas é possível escutá-lo de alguma forma. Ele se faz escutar através de um silêncio ensurdecedor, proferido por uma imprensa submissa e sensacionalista, que sabe escolher muito bem seus inimigos e seus amigos.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Nem tudo que reluz é ouro

(preço da onça de ouro na Bolsa de Londres desde 1975)

O tamanho da atual crise do capitalismo se mede pelo preço do ouro; e não por qualquer outra mercadoria, como imóveis, dólares, ou bens de capital, como gostam de propalar pelos quatro cantos os economistas liberais. Como assim?

De fato, o ouro é considerado pelos povos em crescente contato desde o século XV como a mercadoria que tem a função de equivalente universal de todas as outras mercadorias produzidas e trocadas entre mercantes e representantes dos estados-nação modernos. Pelo simples fato de que suas propriedades materiais lhe garantem durabilidade, contra a deterioração no tempo de todas as outras mercadorias. O dólar foi transformado em moeda mundial a partir do fim da segunda guerra, mas tal só ocorreu porque o governo dos Estados Unidos foi o maior concentrador de dívidas européias geradas pela guerra e pela reconstrução. A melhor forma de pagamento de dívidas em épocas de desestruturação social é através do ouro, exatamente por manter suas propriedades intocadas (enquanto dinheiro, imóveis e bens de capital são facilmente destruídos em uma guerra). Como divulga o Banco Central do Brasil, "na Idade Média, surgiu o costume de se guardarem os valores com um ourives, pessoa que negociava objetos de ouro e prata. Este, como garantia, entregava um recibo. Com o tempo, esses recibos passaram a ser utilizados para efetuar pagamentos, circulando de mão em mão e dando origem à moeda de papel." Eis a genealogia do dinheiro de papel, uma grande abstração, mas nem por isso menos controlada à ferro pelos bancos centrais dos diversos países.

Assim, quando uma crise estrutural no sistema mundial de troca de mercadorias se instala, como ocorreu no fim dos anos 1970 e em 2008, o preço do ouro dispara, pois a ameaça de desestruturação social gera uma corrida dos argentários rumo ao investimento mais seguro para suas fortunas, esperando sobreviver a mudanças políticas de qualquer ordem (guerra, revolução, etc). Assim, somos obrigados a concordar com o milionário apresentador de programas de televisão Sílvio Santos, o sr. Abravanel: de fato, "barras de ouro valem mais que dinheiro".